Advent compra faculdade do RS e se prepara para disputar ativos da Kroton

Além da aquisição da Cesuca, fundo americano está disposto a investir até R$ 900 milhões para ficar com parte dos ativos que a Kroton, empresa líder no setor de educação, terá de vender para aprovar fusão com a Estácio

Fernando Scheller, O Estado de S.Paulo

24 Dezembro 2016 | 05h00

Após acertar sua volta ao setor de educação em 2015, dois anos depois de deixar de ser sócio da Kroton, líder de mercado no País, o fundo Advent está se preparando para dar passos mais ousados a partir do ano que vem. A compra da faculdade gaúcha Cesuca, anunciada nesta sexta-feira, 23, é só uma “amostra” de um apetite que deve ser bem maior em 2017. O fundo, segundo fontes de mercado, está disposto a investir até R$ 900 milhões para ficar com ativos que a Kroton terá de vender para aprovar a fusão com a Estácio no Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade).

O fundo americano voltou ao setor de educação, mas ainda de forma tímida. Comprou, em março de 2015, o Centro Universitário da Serra Gaúcha, de Caxias do Sul (RS), que serviu de gênese para um novo grupo educacional, o FSG. Agora, adquiriu a Cesuca, de Cachoeirinha, por cerca de R$ 50 milhões, de acordo com fontes. Juntos, os dois negócios somam 13 mil alunos. Neste momento, o Advent estaria em negociações com instituições de outras regiões, incluindo conversas avançadas com um grupo nordestino.

Embora não confirme os valores que o fundo estaria disposto a investir, o executivo Newton Maia, diretor do Advent, confirmou que os ativos da Kroton estão sendo vistos por todo o setor de educação como uma plataforma interessante de crescimento. Segundo ele, em razão do porte da Kroton, as instituições podem ser adquiridas e depois adaptadas à “filosofia” da FSG, que é concentrar faculdades que tenham notas altas nas avaliações do Ministério da Educação (MEC).

A FSG está tentando se firmar com base em um discurso de qualidade de ensino. “A ideia é que, ao fazer um curso nas nossas instituições, o jovem consiga encontrar um bom emprego e tenha o retorno do investimento. Assim, ele vai nos indicar no futuro”, diz Maia. Hoje, as duas empresas no portfólio da FSG cobram mensalidade média de R$ 1.000 – acima do que é considerado um preço “popular” no mercado.

Disputa. Mesmo com a crise e o aperto no orçamento do governo, que resultaram em cortes profundos nos repasses ao programa oficial de financiamento estudantil, o Fies, a avaliação do Advent é que o setor continua atrativo. “No Brasil, só 11% das pessoas estão no ensino superior, enquanto no México, um país semelhante, a média é de 30%. Existe muito mercado”, diz o diretor do fundo, que é responsável pelos investimentos em educação.

Para o consultor Carlos Monteiro, especializado em educação, o setor deverá ter um início de 2017 movimentado, não só por causa da venda de parte dos ativos da Kroton e da Estácio, mas também pelas movimentações que outros grupos serão obrigados a fazer. “Se a Anima e a Ser Educacional não fizeram nada, vão passar de ‘caçadores’ a ‘caçados’ no mercado”, explica Monteiro. “Eles também vão ter de buscar alguma associação no ano que vem.”

Para Monteiro, apesar de o mercado de educação já ter superado a fase de “euforia” que viveu na época em que o Fies estava garantido a quase todos os alunos, o ensino superior ainda é visto como um setor que garante retornos relativamente altos sobre o investimento. A dificuldade atual, diz ele, pode até ser incentivo para acelerar as compras a “preços de ocasião”. “Justamente por causa da crise, é possível que surjam oportunidades para os grupos e fundos que estão mais capitalizados.”

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