Hélvio Romero|Estadão
Hélvio Romero|Estadão

Aéreas brasileiras têm perdas de R$ 1,5 bi no 1º semestre, diz IATA

Brasil é considerado um dos países com os maiores custos para o setor no mundo e empresas pedem alívio fiscal

Jamil Chade, correspondente, O Estado de S.Paulo

10 Dezembro 2015 | 16h05

GENEBRA - As empresas áreas brasileiras sofreram prejuízos de R$ 1,5 bilhão no primeiro semestre do ano, afetada pela crise econômica no País e pela explosão dos custos por conta da desvalorização do real. Os números foram publicados nesta quinta-feira, 10, pela IATA - a Associação Internacional de Transporte Aéreo. A entidade, que reúne as maiores empresas do mundo, ainda aponta que o Brasil se transformou num dos países mais caros para se operar, critica o governo e pede alívio fiscal ao setor. 

Os prejuízos no Brasil se contrastam com um resultado positivo no restante do mundo e com lucros líquidos de US$ 33 bilhões, 4,6% acima de 2014 e um recorde. "Muitas outras regiões estão ganhando dinheiro", apontou Brian Pearce, economista-chefe da IATA.

"O Brasil está mergulhado em uma tempestade perfeita, enquanto empresas aéreas lutam diante do peso de uma recessão cada vez mais profunda", indicou Peter Cerda, vice-presidente da IATA para as Américas. "A deterioração do real e políticas governamentais estão impondo altos custos para a indústria", apontou. 

Segundo a IATA, a crise no setor aéreo brasileiro gerou "significativa redução de capacidade e demissões". 

O impacto na região, diante do tamanho do Brasil, acabou sendo importante e, em 2015, a previsão é de que a América Latina tenha o pior desempenho entre todos os continentes, com perdas de US$ 300 milhões no ano. 

"Tínhamos a avaliação de que a região teria ganhos de US$ 600 milhões. Mas a situação mudou", declarou Tony Tyler, CEO da IATA, que confirma que a recessão no Brasil está empurrando a região para prejuízos. 

A crise ainda foi aprofundada pelos custos. "O Brasil se transformou em um dos países mais caros para que as empresas do setor aéreo possam operar", disse. "O real perdeu mais de um terço de seu valor contra o dólar nos últimos doze meses e as políticas impuseram custos pesados sobre a indústria", apontou. 

Pearce aponta que nem a queda do preço do barril do petróleo de cerca de 40% tem sido sentido no Brasil, diante da queda do real. "A variação cambial anulou os ganhos com a queda no preço dos combustíveis", disse. 

"Comparado a 2014, os custos para as empresas aéreas aumentaram em 24%, enquanto a renda aumentou em apenas 3,7% durante o mesmo período", explicou a IATA. 

Em termos de passageiros, o setor no Brasil viu uma contração de viagens ao exterior e o setor apenas registra alta graças a viagens internas. 

Impostos. Para a IATA, o governo precisa agir para "proteger os benefícios da conectividade da aviação, promovendo uma redução de altos impostos, custos exorbitantes de combustível e regulação onerosa". 

Na avaliação da entidade, o custo do combustível é fundamental numa reforma no Brasil. "O País produz petróleo. Mas tem um dos combustíveis mais caros do mundo", indicou. Segundo a IATA, o modelo de preços no Brasil "não está alinhado com as melhores práticas internacionais e impede empresas brasileiras a competir no mesmo pé de igualdade com outros países". De acordo com a entidade, o custo chega a ser 50% acima dos demais. 

Na avaliação da IATA, o modelo da Petrobrás na importação cria um sobre-preço que custa US$ 400 milhões extra para o setor. 

"O Brasil precisa agir", indicou a entidade. "Uma política nacional para preços transparentes de combustível para jatos que impeça abusos atualmente colocados sobre empresas é necessária de forma urgente", apontou. 

Na avaliação de Tyler, as empresas nacionais estão sofrendo com uma "importante dor de cabeça" diante de mudanças fiscais.

A IATA também apontou que o Brasil "não tem aderido às obrigações internacionais". Para a entidade, algumas das resoluções da ANAC violam a Convenção de Montreal. 

Um dos problemas é a regulação de slots que, segundo a IATA, não está alinhada aos padrões mundiais, além de questões envolvendo regras como bagagens. Outra crítica tem sido feita por conta de decisões legais inconsistentes em tribunais, "criando incerteza para empresas". 

"O governo não tem mostrado um compromisso para desenvolver e apoiar a aviação durante esses tempos difíceis", afirmou a IATA. "O Brasil sofre com a burocracia e é um lugar muito difícil de se fazer negócios", alertou. 

Para 2016, a previsão da entidade é de que os lucros mundiais serão ainda maiores, atingindo US$ 36,3 bilhões. Na América Latina, o prejuízo pode ser revertido, com lucros de US$ 400 milhões. 

Tyler também rejeita a tese defendida pelo governo brasileiro de que a crise é gerada por "fatores externos". "Há muito que o governo pode fazer", disse. "O país está com dificuldades econômicas. Mas existem coisas que o governo faz que piora ainda a situação", alertou.

Questionado se as empresas erraram ao calcular suas expansões nos últimos anos, Tyler saiu em defesa do setor. "Ninguém previa a dificuldade que a economia sofreria", completou.

Mais conteúdo sobre:
IATAANACAviaçãoEconomia

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.