Dado Ruvic/ Reuters
Dado Ruvic/ Reuters

Empresas aéreas cancelam ou alteram voos para os EUA por incertezas com o 5G

No Brasil, a Latam informou que quatro voos para os EUA tiveram de ser alterados; problema parece afetar o Boeing 777, uma aeronave de longo alcance e fuselagem larga usada por transportadoras

Érika Motoda, O Estado de S.Paulo

19 de janeiro de 2022 | 10h28
Atualizado 20 de janeiro de 2022 | 05h54

Companhias aéreas de todo o mundo – incluindo o Brasil – correram nesta quarta-feira, 19, para cancelar ou alterar voos para os Estados Unidos devido a uma disputa em andamento sobre o lançamento do 5G perto de aeroportos americanos. As empresas foram alertadas que o problema parece afetar especialmente o Boeing 777, uma aeronave de longo alcance e fuselagem larga usada por transportadoras.

No Brasil, aLatam disse que precisou retirar seu Boeing 777, com capacidade para 410 passageiros, de alguns voos programados entre Brasil e Estados Unidos. No lugar, a empresa vai utilizar o Boeing 787, que comporta 300 passageiros, na rota Guarulhos-Miami e o Boeing 767, com lotação  de 221 pessoas, na rota Guarulhos-Nova York. "A Latam lamenta essa situação totalmente alheia à sua vontade e não está medindo esforços para comunicar diariamente a todos com a maior antecedência possível", afirmou por meio de nota. 

De acordo com a empresa, ao todo quatro voos devem ser afetados pela alteração. São eles os voos LA8190 (Guarulhos-Miami) e LA8180 (Guarulhos-Nova York), previstos para 18 de janeiro, e LA8191 (Miami-Guarulhos) e LA8181 (Nova York-Guarulhos), marcados para esta quarta. Como resultado, alguns passageiros precisaram ser acomodados em voos programados para outras datas.

A Embraer afirmou que se trata de um problema que "se aplica unicamente às operações no território norte-americano".  "A Embraer tem acompanhado as discussões sobre os possíveis impactos da tecnologia 5G na aviação, tem colaborado continuamente com as autoridades aeronáuticas competentes e orientado seus operadores para garantir o mais alto grau de segurança da operação das aeronaves Embraer neste cenário", disse em comunicado.  A fabricante brasileira acrescentou estar em "contínua cooperação com a Anatel", agência reguladora do setor de telecomunicações no Brasil.

Até as 14h desta quarta-feira, no horário de Brasília, ao menos 219 voos com destino ou origem nos EUA (incluindo voos domésticos) tinham sido cancelados, de acordo com a empresa de monitoramento aéreo FlightAware. O número de voos com atraso era de 539. 

Os cancelamentos ocorrem mesmo depois de as operadoras de telefonia móvel AT&T e Verizon concordarem em adiar o novo serviço de telefonia móvel perto de alguns aeroportos dos EUA, planejado para esta semana. A Administração Federal de Aviação (FAA, a ANAC americana) liberou várias aeronaves para voar em aeroportos com o sinal 5G, mas o Boeing 777 não consta na lista.

A FAA teme que a faixa banda C do 5G possa interferir nos altímetros de rádio, que são aparelhos que medem a altura dos aviões acima do solo e ajudam os pilotos a pousar em baixa visibilidade. A administração permitirá que aviões com altímetros precisos continuem operando, mas o que têm equipamentos mais antigos estão proibidos de fazer desembarques em condições de baixa visibilidade.

Redes móveis semelhantes foram implantadas em dezenas de outros países - às vezes com concessões como reduzir a potência das redes próximas aeroportos, como fez a França. Mas nos EUA, a questão colocou a FAA e as companhias aéreas contra a Comissão Federal de Comunicações e empresas de telecomunicações. A AT&T e Verizon disseram que seu equipamento não interferirá nos aparelhos eletrônicos dos aviões, mas os funcionários da FAA viram um possível problema, e as empresas de telecomunicações concordaram em adiar enquanto a instalação enquanto a questão é resolvida. 

A Gol disse que está atenta à implantação da tecnologia 5G nos EUA. "Seguiremos acompanhando a evolução dessa tecnologia nos mercados em que operamos, incorporando prontamente todas as recomendações dos fabricantes e agências reguladoras." A empresa vai retomar os voos com destino aos Estados Unidos em maio após suspensão em razão da pandemia. 

Procurada, Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) disse que publicou no último dia 14 orientações para pilotos que pretendiam voar para os Estados Unidos. 

Emirates Airlines, uma das principais empresas de transporte Leste-Oeste, foi uma das primeiras a ser afetada. A empresa com sede em Dubai, anunciou que interromperia os voos para Boston, Chicago, Dallas-Fort Worth, Houston, Miami, Newark, Nova Jersey, Orlando, Flórida, São Francisco e Seattle. Voos para Los Angeles, Nova York e Washington foram mantidos. Em seu anúncio, a Emirates citou o cancelamento como necessário devido a "preocupações operacionais associadas à implementação planejada de serviços de rede móvel 5G nos EUA em determinados aeroportos". Os Emirados Árabes Unidos iniciaram com sucesso a cobertura 5G em todos os seus aeroportos sem incidentes, como dezenas de outros países. 

A Air India também anunciou, no Twitter, que cancelaria voos para Chicago, Newark, Nova York e São Francisco "devido à implantação do equipamento de comunicações 5G". Duas companhias aéreas japonesas, Japan Airlines e Nippon Airways, também disseram que o Boeing 777 é afetado pelos sinais 5G, ao anunciar cancelamentos e alterações em seus horários.

A Korean Air trocou quatro aviões de passageiros de Boeing 777 para 787 e dois aviões de carga de 747-8 para 747-400 durante a noite e continuará evitando operar 777 e 747-8 nos aeroportos afetados dos EUA, a porta-voz da empresa, Jill Chung, disse.

A Cathay Pacific, de Hong Kong, disse que está adotando diferentes tipos de aviões onde necessário para os aeroportos afetados e que seus voos para os Estados Unidos não foram afetados até agora. A EVA Air, de Taiwan, também disse que tomou "medidas de contingência para garantir a segurança do voo", sem dar mais detalhes. 

A Air France, porém, anunciou que pretende continuar os voos com o seu Boeing 777 até os aeroportos americanos, mas não explicou o motivo para não mudar de aeronave.

Boeing

A Boeing informou na tarde desta quarta-feira, 19, que “está comprometida” em trabalhar para uma solução que garanta que os aviões comerciais possam operar com segurança, após cancelamentos e alterações de voos nos Estados Unidos em razão da implantação da tecnologia 5G no país. A fabricante afirmou ainda que apoia as ações adotadas pelas empresas de telecomunicações para limitar a largura de banda 5G ao redor dos aeroportos, protegendo a segurança da aviação e reduzindo as interrupções operacionais. As medidas são temporárias.

/ COLABOROU JULIANA ESTIGARRÍBIACOM INFORMAÇÕES DA AP

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