‘Agora é olhar para frente’, diz novo controlador do Pão de Açúcar

Novo controlador do Pão de Açúcar diz que briga com Abilio Diniz é coisa do passado, que vai manter o presidente do grupo e nega venda da Viavarejo para a família Klein

Andrei Netto, correspondente de O Estado de S. Paulo,

25 de junho de 2012 | 08h18

Jean-Charles Naouri, diretor-presidente do Grupo Casino, está em plena luta pelo poder. Mas não se trata da guerra contra Abilio Diniz travada até a sexta-feira, quando assumiu o controle do Grupo Pão de Açúcar (GPA), maior rede de supermercados no Brasil. Seu novo front é agora na França. Antes mesmo que a transição no poder na companhia brasileira fosse sacramentada, o empresário francês que construiu um império varejista agregando inimigos já tinha um novo desafiante: a Galeries Lafayette.

Os dois titãs franceses disputam o controle da Monoprix, uma marca de supermercados de bairros conhecida pela qualidade dos produtos, pela boa localização e atendimento. Os dois concorrentes têm 50% das ações da rede de supermercados e brigam entre si pelo preço de revenda – entre € 700 milhões e € 1,95 bilhão –, pela gestão e até pela política de preços da empresa.

O Monoprix é só o último exemplo. Na França, a estratégia de Naouri é conhecida. Cada vez que vislumbra empresas em dificuldade no ramo supermercadista, aproxima-se oferecendo dinheiro fresco. Em troca, propõe um contrato no qual assume o controle acionário em longo prazo. Assim ele adquiriu sua primeira rede, a modesta Rallye, da família Cam, da Bretanha. Da mesma forma escanteou os Baud, das redes Franprix e Leader Price, e os Moulin, da Monoprix. A estratégia também se repetiu com os Diniz, no Pão de Açúcar.

Para os executivos que o cercam no Groupe Casino, Naouri não é um "predador". É um "grande espírito empreendedor". Essas características passarão a ser vistas mais de perto agora no Grupo Pão de Açúcar. A seguir, a entrevista concedida pelo executivo na sede do Casino, em Paris, dois dias antes de assumir o poder no GPA – após sete anos de espera.

O que muda concretamente com a transferência do controle?

A transição será marcada por uma grande continuidade. Já indiquei várias vezes que a estratégia foi aprovada pelos acionistas de co-controle. Essa estratégia é de todos nós, já que nós a aprovamos. Desde o ano passado indiquei que desejo conservar os executivos de GPA, que tenho uma grande confiança em Enéas Pestana e em sua equipe e que é muito importante para mim que o management seja brasileiro. É uma transição que acontece depois de 13 anos em que estamos juntos. É normal que aconteça sob o signo da continuidade.

O sr. disse que manterá Pestana na direção da empresa. O executivo é conhecido como um homem de confiança de Abilio Diniz, de quem é muito próximo. Isso não o incomoda?

Enéas Pestana é um bom profissional em quem nós temos confiança.

A família Diniz criou a rede Pão de Açúcar e permaneceu no seu comando durante muitos anos. Abilio Diniz é, inclusive, muito identificado com a marca. O sr. acredita que ele deve permanecer na empresa?

O Pão de Açúcar era, em sua origem, um negócio familiar. Mas isso faz muito tempo. Houve um processo de profissionalização realizado pelo próprio Abilio Diniz, um processo pelo qual o felicito. Nele, progressivamente o negócio de família se transformou em um grande negócio com cotação em bolsa e padrões de governança impecáveis. Tem um conselho profissional e um "management" profissional. O GPA que conhecemos hoje não é mais um negócio familiar. É profissional e vamos desenvolvê-lo nos próximos anos. Abilio Diniz, segundo os acordos, é – e vai – permanecer como presidente do conselho de administração da rede. É um direito dele. Como você sabe, respeitamos os acordos, e respeitamos a possibilidade oferecida a Abilio Diniz. Sobre a escolha de continuar ou não, é algo que lhe diz respeito, e sobre a qual não farei nenhum comentário.

O sr. não se incomodaria se ele permanecesse?

Acabo de responder. Está nos acordos e os acordos nos convêm perfeitamente.

Me parece que o sr. não gosta muito de falar sobre a época do conflito e sobre o conflito em si com Abilio Diniz. Mas ele foi um parceiro muito bom durante vários anos e, ao final, houve um caso complicado, difícil. O sr. pode comentar esse conflito?

Já falei sobre isso e fico satisfeito em repetir que Abilio Diniz foi um parceiro que nós respeitamos, que eu respeitei e que estimei durante muitos anos. Foi um ótimo parceiro e um grande administrador. Não tenho nenhum problema em dizer em público o que já disse a ele várias vezes pessoalmente. No entanto, devo dizer que fiquei decepcionado com os eventos do ano passado. Essa época é agora parte do passado. Devemos olhar para a frente, e para a frente é o crescimento de GPA. O mais importante não é o debate entre as pessoas, mas o futuro da empresa. Ela é prioritária. É ao desenvolvimento da empresa que vamos consagrar nossas energias, e não a velhas querelas passadas.

Há ainda a família Klein. Qual é a sua relação com eles neste momento?

A família Klein é uma grande família brasileira pela qual eu tenho grande respeito. São parceiros do Grupo Pão de Açúcar na Viavarejo. Para responder de pronto a questões que talvez você venha a fazer, quero deixar claro que não temos nenhuma negociação em curso com a família Klein.

Nem mesmo pelos 52% de Casas Bahia e Ponto Frio?

Não. Ao contrário dos rumores que foram difundidos, essa especulação é falsa. Não há negociações em curso entre Casino e a família Klein.

Em entrevista ao "Wall Street Journal", o sr. definiu a disputa no Brasil como uma "batalha passional, titânica e extraordinária". O que o sr. quis dizer?

O Brasil inteiro falou daquele tema no ano passado. Na França também foi algo muito debatido. Foi um momento no qual a questão colocada não foi apenas interna ao grupo, mas uma questão moral, ou de negócios, de respeito aos contratos. Foi um debate que ultrapassou a pendência entre acionistas, que seria limitado. Houve uma discussão nacional, me parece, sobre saber se um contrato deve ser respeitado. O debate foi encerrado pela opinião pública, sem ir ao tribunal. Foi categórico.

Recentemente, um novo desentendimento público atingiu o Pão de Açúcar, com Lily Safra cobrando uma diferença na operação de venda do Ponto Frio. Qual a avaliação do Casino sobre isso?

É outra querela entre partes privadas sobre a qual as instâncias apropriadas vão decidir. A senhora Safra tem uma opinião. Nós temos outra. Não é uma questão moral, mas de divergência na apreciação do contrato. A instância apropriada vai arbitrar. Não tenho nenhum comentário adicional a fazer.

A estratégia de Casino é sempre aguda, de buscar o forte crescimento. Podemos supor que isso acontecerá no Brasil também. Há novos investimentos previstos?

O Casino acredita e eu também acredito muito na estratégia "multiformato". Para responder às necessidades dos consumidores, é preciso ter formatos diferentes. Os hipermercados, por exemplo, são um modelo que funciona muito bem nas zonas mais pobres, de crescimento rápido. Nas regiões mais ricas, onde o consumidor é mais sofisticado, é preciso oferecer a proximidade ("proximité", em francês, é um termo que também designa o comércio de bairro).

Tudo isso por meio de que marcas? O sr. planeja aquisições no Brasil?

Hoje não há nenhum tema específico relativo a aquisições. O crescimento atual é orgânico, e não podemos excluir nada. Mas hoje não há nenhum projeto em particular, que eu saiba.

O Carrefour o atrai? A direção mundial do grupo mudou, e talvez os planos para o Brasil também. Mas, até há pouco, falava-se na sua venda. O Carrefour poderia ser um ativo atraente para Casino e GPA no Brasil?

Não. Esse é um tema que não existe. Ele foi tratado e debatido no ano passado com os estudos profundos que foram feitos. A visão que temos é de que esse tema ficou no passado.

Não me refiro ao projeto de aquisição ou de fusão elaborado no ano passado por Abilio Diniz, mas talvez a uma possível negociação futura.

Não está em nossa agenda. A estratégia do Grupo Pão de Açúcar é muito simples, muito clara, é pública e baseada no desenvolvimento e na aceleração do crescimento. O importante é que o Casino é a favor do crescimento. Um grupo como o Casino que, em 1999, assumiu o risco de investir, a na época, US$ 1 bilhão para comprar 22% do Grupo Pão de Açúcar, portanto tornando-se acionista minoritário, de uma empresa que tinha uma dívida muito alta, demonstra seu empreendedorismo. É a cultura do Casino, que é a favor do crescimento e do empreendedorismo. Vamos continuar nesse caminho, para que o GPA acelere ainda mais seu crescimento.

O Casino tem como pilares a proximidade, as redes de "hard discount" e o comércio eletrônico. É nesses segmentos que o sr. pretende investir no Brasil?

São de fato os três pilares do grupo, que já vêm sendo desenvolvidos pelo Pão de Açúcar. No Brasil, porém, os hipermercados ainda têm futuro. O Brasil é muito diversificado, e, por isso, os hipermercados funcionam bem, como no Nordeste, por exemplo. Há zonas mais urbanizadas, mais ricas, em que eles atingem sua saturação, como São Paulo. Quando eu falo em "proximidade", não falo em um só formato. Teremos de ser muito segmentados para atingirmos os diferentes clientes. Acreditamos muito no "hard discount". Cada país encontra a sua forma de fazê-lo. O terceiro pilar é o e-commerce. Somos hoje o número dois no Brasil. Já o fazemos muito bem, e acreditamos que é uma questão de desenvolver esse produto.

Sobre aquisições, gostaria de insistir: o sr. tem um olhar sobre o mercado brasileiro de varejo? Há ainda uma vontade de alargar seu escopo, de comprar empresas?

Não serei específico, porque a questão é difícil. Mas confirmo que o GPA se desenvolve de forma determinada. O "management" vai observar toda e qualquer possibilidade de investimento, orgânico ou não.

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