Agricultor lamenta queda das cotações das commodities

Maioria fez planos par a próxima safra com base nos preços recordes

Márcia De Chiara, de O Estado de S. Paulo,

09 de agosto de 2008 | 23h27

A forte retração nos preços das commodities minou as expectativas dos agricultores brasileiros para a próxima safra de grãos, que começa a ser semeada a partir do mês que vem no Centro-Sul do País. Com sementes, fertilizantes e defensivos agrícolas comprados, eles foram surpreendidos com queda na faixa de 30% na cotação da soja e do milho nos últimos 30 dias e agora não têm como alterar os planos de plantio. Veja também:Entenda a crise dos alimentos  De olho na inflação, preço por preço  As grandes crises econômicas   "O produtor está perdido", afirma José Cícero Aderaldo, superintendente da Comercial Cocamar, uma das grandes cooperativas do Paraná. A soja, que atingiu o recorde histórico de US$ 16,50 por bushel em julho nas bolsas internacionais, agora está cotada em US$ 12,10. O milho, que no fim do primeiro semestre custava US$ 7,67 por bushel, recuou para US$ 5. Apesar de as cotações de ambos os produtos estarem acima das médias históricas, de US$ 6,5 por bushel no caso da soja e de US$ 2 por bushel para o milho, os preços atuais não estimulam o agricultor a investir em insumos para aumentar a produtividade, diz Aderaldo. "Os preços são bons, mas o problema é que os custos de produção mais que dobraram no último ano." O descasamento entre preços e custos é agravado pela valorização do real ante o dólar quando as cotações recuam. "Não tenho como mudar o plantio agora. Estou sem saída", afirma o agricultor Antonio Lucas, de 71 anos, que sempre trabalhou na lavoura e vai manter a área plantada. Com 120 hectares na região de Maringá (PR), ele conta que já comprou todos os insumos para plantar soja, que será semeada no começo de outubro. "Daqui para frente, tudo vai depender do patrão", diz ele, fazendo referência à produção de soja dos Estados Unidos, cujas lavouras hoje estão em plena fase de desenvolvimento. Aderaldo, da Cocamar, atribui o movimento de queda dos preços da soja e do milho às melhores condições das lavouras americanas. O próximo relatório de safra do Departamento de Agricultura dos EUA, que será divulgado terça-feira, deve apontar uma safra com produtividade maior. "As enchentes que atingiram as plantações do Meio-Oeste americano em junho passaram e a queda nos preços de mercado refletem essa melhoria", diz ele. Além disso, Aderaldo lembra que a retomada das exportações do grão por parte da Argentina nos últimos 15 dias contribuíram para o recuo das cotações. Ele observa, também, que os produtos agrícolas acompanham o movimento das demais commodities, capitaneadas pelo petróleo, que estão em trajetória de queda. Fundos Esse movimento generalizado de queda das commodities, que vai do grão ao petróleo, é um claro indício de que os fundos de investimento que tinham aplicado recursos nesses ativos para se resguardar da crise das hipotecas de alto risco dos EUA estão agora vendendo os seus papéis e embolsando os resultados. "Cerca de 40% da alta de preços das commodities resultou de movimentos especulativos", calcula o sócio-diretor da RC Consultores, Fábio Silveira. Segundo ele, os fundamentos macroeconômicos, como o esfriamento das economias dos Estados Unidos, da União Européia e do Japão, começam a arrefecer os movimentos especulativos dos fundos de investimento. "O medo de que esses fundamentos do mercado se materializem faz com que esses investidores saiam desses mercados antes que eles caiam efetivamente." Para a economista-chefe do banco ING, Zeina Latif, os mercados futuros de commodities estão antecipando a queda que vai ocorrer na economia real. Ela argumenta que a taxa de juros ainda é baixa no mundo. Nos últimos meses, observa, os bancos centrais de vários países emergentes já sinalizaram que poderão elevar as taxas de juros para conter o avanço da inflação.

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