Dida Sampaio/ Estadão
Dida Sampaio/ Estadão

Agrolend, fintech de crédito rural, capta R$ 120 milhões e prevê crescer 20 vezes

Empresa estabeleceu como foco a concessão de crédito a pequenos e médios produtores, de diversas culturas e regiões produtoras do Brasil, justamente para diluir riscos para a empresa e os investidores que aportam recursos nos fundos

Clarice Couto, O Estado de S.Paulo

19 de janeiro de 2022 | 09h08

A fintech Agrolend, fundada há pouco mais de um ano por um grupo de profissionais do mercado financeiro, acaba de levantar R$ 80 milhões em uma rodada de investimentos Series A que deve permitir à empresa sair de uma carteira de R$ 40 milhões concedidos em 2021 para aproximadamente R$ 400 milhões em 2022 e R$ 1 bilhão em 2023. A captação foi liderada pelo Valor Capital Group e envolveu investidores como a empresa americana Continental Grain, SP Ventures, Provence Ventures e Barn Invest, além de investidores-anjo. A captação em uma série A é um marco para fintechs, por representar a consolidação como empresa, com contratos, equipe e receita.

"Os R$ 80 milhões vão permitir, via estruturação de novos Fidcs (Fundos de investimento em direitos creditórios), alavancar R$ 1 bilhão de carteira em dois anos. Esta é uma segunda captação, além da realizada pela empresa no começo de 2020, e servirá para aumentar o time, viabilizar novos produtos, como Fidcs, e continuar crescendo", disse ao Broadcast Agro o cofundador e CEO da startup, Andre Glezer. "Olhando para frente, a ideia é multiplicar a empresa por 20", continuou.

No início de 2021, poucos meses após sua fundação, em dezembro de 2020, a Agrolend fez uma primeira captação, de aproximadamente R$ 9 milhões. Em outubro, levantou R$ 40 milhões em um Fidc, que contou com aportes do Itaú Asset, Verde Asset e Augme. Esse recurso foi concedido em empréstimos a cerca de 300 produtores, de mais de 100 cidades em 11 Estados e diversas culturas e atividades - soja, milho, café, pecuária de corte e leiteira, frutas, cana-de-açúcar e outras. Para chegar na ponta, foi necessária a parceria com cerca de 50 revendas de insumos agrícolas e de maquinário, fabricantes de insumos e outras empresas, que não só fizeram a ponte entre a fintech e o produtor, como a ajudam na análise de risco daqueles que receberão o crédito.

Com o aporte de R$ 80 milhões, todos os números devem aumentar expressivamente, segundo a empresa. A carteira de R$ 400 milhões prevista para 2022 deve financiar a compra de insumos e implementos agrícolas para 2 mil a 2,5 mil produtores rurais, dos Estados já atendidos e outros que passaram a ser contemplados. "Não temos uma meta clara, mas acredito que vamos terminar o ano com um número próximo de 17 Estados. Hoje temos uma presença muito pequena no Nordeste e estamos vendo muitas oportunidades em Alagoas, Ceará, na fronteira agrícola de exportação de frutas", contou Glezer, citando que na região, até o momento, a fintech concedeu crédito apenas a produtores do sul da Bahia. Atualmente a Agrolend tem maior atuação no Paraná, Mato Grosso do Sul, Goiás, Mato Grosso, São Paulo e Minas Gerais. "Estamos começando a ganhar mais força em Estados periféricos do agro, como Rondônia, entrando em Tocantins, no Pará, e nos fortalecendo em Minas Gerais".

Já para 2023 o plano é elevar a carteira a aproximadamente R$ 1 bilhão, aumentar a equipe de 15 para perto de 60 pessoas, o número de produtores atendidos para 5 mil e, de cidades cobertas, de 100 para mil. "É muito importante para a estratégia da empresa estar espalhada pelo Brasil. Ganhamos em mitigação de riscos climáticos e dos associados às diferentes culturas ao dar crédito para tomate no Rio Grande do Sul, cana em São Paulo, milho em Goiás, soja em Mato Grosso e Mato Grosso do Sul", enfatizou o cofundador e diretor financeiro da Agrolend, Alan Glezer, irmão de André.

A Agrolend estabeleceu como foco a concessão de crédito a pequenos e médios produtores, de diversas culturas e regiões produtoras do Brasil, justamente para diluir riscos para a empresa e os investidores que aportam recursos nos fundos. Seu modelo de atuação e o ganho de escala previsto para os próximos dois anos estão ancorados em três pilares, explica André Glezer. O primeiro é a tecnologia proprietária desenvolvida pela equipe, que demanda poucos dados do produtor e viabiliza assinaturas, verificação em bases de dados e liberação dos recursos de forma totalmente digital, pelo celular. Todo o processo é feito em menos de cinco dias, segundo o executivo.

Outra base de sustentação é o time comercial, responsável por identificar revendas e empresas interessadas em financiar seus clientes com os recursos da Agrolend. Estes parceiros são essenciais para identificar os produtores rurais que receberão o dinheiro na ponta, com bom histórico de pagamento. O terceiro pilar é o próprio capital levantado com investidores para financiar agricultores.

"Os bancos de varejo não vão nesses clientes, pequenos produtores, porque o modelo tradicional de abrir uma agência em cada cidade é muito custoso. A nossa plataforma, a tecnologia, tudo o que construímos de forma digital, viabiliza criar essa capilaridade e servir ao pequeno produtor sem ter agência", argumentou André Glezer. "Criamos um modelo novo, que replica o que o Banco do Brasil fez, sem nenhuma agência", disse.

Hoje, a captação da Agrolend é feita principalmente junto a investidores institucionais, caso do Fundo Verde, Itaú Asset e da gestora Augme. Para eles e os investidores que deixam recursos a cargo destas casas, a segurança no retorno se baseia em alguns fatores, argumenta André, como a proximidade da revenda com o produtor, seu acompanhamento das condições das lavouras locais, as tecnologias empregadas no sistema da fintech, bem como o baixo risco de inadimplência do agronegócio.

"A inadimplência é estruturalmente baixa no setor, de 1% a 4%, segundo dados do Banco Central", disse. "O risco (da operação) é o preço da commodity/produto e o clima, e por isso a nossa estratégia é a pulverização extrema. A concentração (de dívidas) de um Estado em uma carteira é de no máximo 20%, com cada Fidc bem pulverizado em Estados e culturas", explicou.

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