Alemanha apoia Lagarde no comando do FMI

Nome também foi elogiado por outros países da Europa, porém Lagarde deve enfrentar resistências pela falta de conhecimento formal de Economia, por um problema judicial e pelos emergentes

Gabriel Bueno, da Agência Estado,

25 de maio de 2011 | 10h40

O governo alemão declarou nesta quarta-feira apoiar "enfaticamente" a candidatura da ministra de Finanças da França, Christine Lagarde, para o posto de diretora-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI). O nome também foi elogiado por outros países da Europa, porém Lagarde deve enfrentar algumas resistências por sua falta de conhecimento formal de Economia, por um problema judicial e pelo fato de as nações emergentes buscarem mais espaço no comando do fundo.

O porta-voz da chanceler alemã, Angela Merkel, notou que Lagarde tem bastante conhecimento sobre a crise da dívida soberana enfrentada pela Europa, "na qual o FMI tem um papel importante". Além disso, Steffen Seibert disse em entrevista coletiva que, dada a familiaridade da candidata com o tema, ela poderia trabalhar imediatamente caso seja a escolhida. Seibert afirmou ainda que a francesa é competente, por seus anos de experiência em altas posições na iniciativa privada, na política e nos governos, com importância em nível internacional.

Vários países emergentes demonstraram recentemente frustração com o fato de a Europa querer manter a tradição de garantir para si o cargo do comando do FMI. Por um pacto entre o continente e os EUA, um europeu ocupa o posto de diretor-gerente do FMI, enquanto um norte-americano preside o Banco Mundial. Lagarde disse que sua candidatura não deve ser vista pelo prisma da nacionalidade, afirmando que ela não é uma candidata da União Europeia, nem representa a zona do euro ou a França. "O fato de eu ser europeia não deve ser um ponto positivo, nem negativo."

Alguns críticos já questionaram a falta de credenciais de Lagarde para comandar o FMI, dada sua falta de background formal em Economia. A ministra das Finanças ressaltou seus pontos fortes: "Se eu for eleita, levarei ao fundo toda minha experiência como advogada, líder empresarial, ministra e mulher", afirmou. O FMI nunca foi comandado por uma mulher.

Lagarde disse que estava buscando um mandato integral, de cinco anos, e não apenas completar o restante do mandato de Dominique Strauss-Khan. O até então diretor-gerente do FMI renunciou após ser acusado de crimes sexuais em Nova York, onde está em prisão domiciliar.

Um obstáculo diante da ministra é judicial. Em 2007, Lagarde enviou um demorado caso entre o Estado francês e o empresário Bernard Tapie a um painel de arbitragem, não deixando que o tribunal continuasse seu trabalho. Mais cedo neste mês, um promotor recomendou que a conduta dela seja examinada por um tribunal especial para ministros em exercício. O promotor, Jean-Louis Nadal, afirmou que havia reunido informações apontando para um possível "abuso de autoridade" de Lagarde. O tribunal deve decidir em meados de junho se abrirá um inquérito no caso. A ministra garante nunca ter extrapolado sua autoridade.

Vários países europeus anunciaram seu apoio a Lagarde na corrida pelo comando do FMI, além da Alemanha. O ministro das Finanças da Bélgica, Didier Reynders, afirmou nesta quarta-feira que ela é uma "excelente candidata". O presidente da Comissão Europeia, José Manuel Barroso, disse em comunicado que "apoia totalmente" o nome. O governo da Eslováquia também anunciou o apoio.

A disputa, porém, está longe do fim. O presidente do Banco Central mexicano, Agustín Carstens, anunciou na terça-feira sua candidatura, apoiado pelo ministro das Finanças do México, Ernesto Cordero. Em entrevista, Cordero disse defender um processo transparente e aberto para a seleção do novo chefe do fundo. "Eu falei com o sr. Carstens há dois dias", revelou Lagarde. "Eu o conheço bem, ele é um amigo", disse ela. "Nós estamos muito felizes por estar competindo um contra o outro."

Com o apoio europeu a Lagarde, os países emergentes precisarão construir um apoio suficiente em torno de um candidato único. Com cerca de 35% dos votos no FMI, a Europa é o maior bloco nas eleições no fundo, porém a França necessita de aliados para sua candidatura conseguir a maioria simples que lhe dará a vitória, nos votos depositados pelos 187 Estados-membros do FMI.

O apoio da China seria muito poderoso para Lagarde fora da Europa, porém funcionários chineses têm sido ambíguos sobre se Pequim apoia ou não um europeu para o cargo. Na terça-feira, um porta-voz do governo francês disse que a China apoiava a candidatura de Lagarde, mas não houve declaração oficial do país asiático nesse sentido.

Os Estados Unidos, com quase 17% dos votos, podem garantir a vitória de Lagarde. Porém os norte-americanos resistem a apoiá-la dessa maneira, pelo temor de parecerem envolvidos em arranjos com os europeus sem levar em conta as demais opiniões. O FMI deve receber três candidaturas para seu comando, e o período de inscrições dos nomes vai até 10 de junho. Um vencedor deve ser anunciado até 30 de junho.

Antes de entrar na política francesa, Lagarde teve uma longa carreira como advogada de corporações, parte dela nos EUA. Em 2005, ela retornou à França para tornar-se ministra do Comércio no governo do então presidente Jacques Chirac. Ela é membro do União por um Movimento Popular (UMP), o mesmo partido do presidente Nicolas Sarkozy.

As informações são da Dow Jones. 

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