Alemanha retoma campanha para ajuste fiscal nos países europeus

Para chanceler, 'não há uma alternativa muito sensata' ao corte dos déficits orçamentários

Gustavo Nicoletta, da Agência Estado,

19 de agosto de 2010 | 17h46

A chanceler da Alemanha, Angela Merkel, e o banco central alemão, o Deutsche Bundesbank, indicaram nesta quinta-feira, 19, que o país segue pressionando outras nações da zona do euro para que haja um equilíbrio nas finanças públicas do bloco e para que as medidas de suporte à economia não sejam consideradas ininterruptas.

Em um comunicado assinado também pelo primeiro ministro da República Checa, Petr Necas, Merkel disse acreditar que "apenas as finanças sadias podem ser a base real para um desenvolvimento econômico sustentável" e que "não há uma alternativa muito sensata" ao corte dos déficits orçamentários.

Além disso, o Deutsche Bundesbank alertou que os mecanismos de emergência montados para lidar com a crise da dívida soberana da zona do euro no início do ano não devem se tornar permanentes, ecoando comentários feitos na semana passada pelo ministro de Finanças da Alemanha, Wolfgang Schaeuble.

As afirmações de Merkel e do Bundesbank aparentemente dispersam a expectativa de que a Alemanha poderia ser mais tolerante com os seus parceiros europeus que sofrem com a recessão e com planos de austeridade agora que a economia alemã voltou a ganhar força. O banco central do país revisou sua estimativa de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) de 2010 para 3%, de 1,9% na quinta-feira, após a divulgação de dados positivos sobre a produção.

"O ato de assumir obrigações por meio de outros Estados-membros ou por meio de mecanismos de suporte institucionalizados no plano europeu não está em harmonia com as políticas fiscais que norteiam os governos nacionais", afirmou o Bundesbank em seu relatório mensal de agosto. "Sem a vontade política para manter a estrutura que foi decidida em conjunto, todos os esforços da reforma chegam a um beco sem saída".

A declaração do banco central traz novamente à tona questões apresentadas por Schaeuble. No mês passado, ele disse que as redes de segurança tecidas às pressas ao longo do segundo trimestre não poderiam ser consideradas permanentes. Isso gerou dúvidas sobre a disposição da Alemanha para financiar efetivamente o resgate de qualquer membro da zona do euro.

O país já garantiu um nível elevado de influência sobre o Fundo de Estabilização Financeira Europeu (EFSF, em inglês), persuadindo a União Europeia a indicar como diretor da instituição o alemão Klaus Regling.

O EFSF possui autoridade para mobilizar até € 500 bilhões em recursos dos países da zona do euro para evitar um eventual default de qualquer um dos membros do bloco. O Fundo Monetário Internacional (FMI) também indicou que pode fornecer € 250 bilhões com a mesma finalidade, mas até agora não houve aprovação formal de seus membros a respeito do assunto.

De qualquer forma, quaisquer empréstimos do EFSF precisariam da aprovação unânime dos governos que o amparam, o que proporciona à Alemanha poder de veto sobre todas as decisões do tipo. Analistas do Royal Bank of Scotland apontaram numa pesquisa recente que, embora o EFSF tenha acesso a € 440 bilhões em garantias de empréstimos dos países-membros, poderá emprestar apenas € 356 bilhões. O restante dos recursos precisará ser utilizado para garantir parte da dívida com o objetivo de torná-la AAA.

As preocupações do mercado com a dinâmica das dívidas dos países mais debilitados da zona do euro começaram a ressurgir recentemente e foram reiteradas por dados que mostraram a diferença entre a recuperação em grandes economias, como a da Alemanha e a da Holanda, e em países considerados periféricos, como a Grécia e a Irlanda. As informações são da Dow Jones.

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