Algodão: fracasso do PEP pode aumentar pressão sobre físico

São Paulo, 23 - O primeiro leilão de PEP (Prêmio de Escoamento de Produto) para algodão fracassou, com remate de 486 toneladas de um total ofertado de 10 mil toneladas. Foram arrematados PEP para 216 mil toneladas da Bahia, de oferta de 2,4 mil toneladas, e 270 toneladas de Goiás, de oferta de 1,5 mil toneladas. Não houve interesse por PEP para nenhum quilo de algodão de Mato Grosso, o maior estado produtor do País cuja oferta no leilão era para 5,4 mil toneladas. Também não houve interesse por PEP para 700 toneladas de Mato Grosso do Sul. O PEP representava a maior esperança do produtor para sustentação dos preços domésticos do algodão, há algumas semanas abaixo do mínimo oficial teoricamente garantido pelo governo. O fracasso do programa pode aumentar a pressão sobre os preços no físico. Para o presidente da Associação Mato-grossense de Produtores de Algodão (Ampa), João Luiz Pessa, o volume e o valor dos prêmios do PEP são insuficientes para atrair compradores. Com isso, o programa perde eficácia, como se comprovou no leilão de hoje. Pessa, que é vice-presidente da Associação Brasileira de Produtores de Algodão (Abrapa), ressalta que Mato Grosso ainda tem 160 mil toneladas de algodão não comercializadas. A oferta de PEP para 5,4 mil toneladas de Mato Grosso no leilão de hoje, portanto, é muito baixa. Se houvesse interesse pelo PEP para Mato Grosso, segundo Pessa, a disputa seria grande e geraria forte deságio no valor dos prêmios, o que igualmente esvaziaria o PEP de seu sentido. "A diferença de preço entre o mínimo e o mercado físico exigiria um valor de prêmio de pelo menos R$ 6,00 por arroba", diz Pessa. O prêmio de abertura do PEP (valor máximo, portanto), era de R$ 4,05 por arroba. "O prêmio que o governo estabeleceu não cobre a diferença, porque o algodão está muito barato no mercado disponível", conclui. Para Tim Kuba, diretor de Suprimentos da Santista Têxtil e presidente do Comitê de Algodão da Associação Brasileira da Indústria Têxtil (Abit), o PEP foi lançado no momento errado e com valores errados. "As indústrias estão cobertas e não vão aumentar estoques no final do ano", diz Kuba. "O valor do prêmio não faz sentido. O algodão do PEP fica muito caro para a indústria, que ainda precisa pagar antes da retirada e reunir uma série de documentos para atender à burocracia do programa", acrescentou o executivo da Santista. Kuba diz que, em suas contas, restam 350 mil toneladas de algodão a comercializar até a entrada da nova safra. "Um leilão de 10 mil toneladas é quase uma piada; estão fazendo uma grande tempestade num copo dágua", diz. O problema de preço baixo não é exclusivo do Brasil no caso do algodão, ressalta Kuba, mas do mundo inteiro. O preço mínimo (R$ 1,35/libra a retirar) dividido pelo câmbio do dia (R$ 2,75) resulta em US$ 0,49/libra (a retirar), um valor que não existe em nenhuma parte do mundo neste momento. Para Kuba, o instrumento mais eficiente de sustentação dos preços domésticos seria o EGF (Empréstimos do Governo Federal), pois serviria de auxílio tanto ao produtor quanto à indústria. Os produtores de algodão também tinham o PEP como segunda alternativa para uma ação governamental. A primeira solicitação da lavoura era financiamento para armazenagem, nos moldes do programa feito para a indústria sucroalcooleira. O secretário de Política Agrícola do Ministério da Agricultura, Ivan Wedekin, disse hoje não entender o fracasso do PEP. "Precisamos ver se o programa não está funcionando ou se a baixa demanda foi fruto das condições de mercado do dia", disse. Novo "teste" ocorre na semana que vem, segundo Wedekin, com idêntico leilão de PEP (volume, localização e prêmios) na terça-feira 30.

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