Alta da Selic deve impactar a dívida pública em R$ 4,8 bilhões

Impacto ocorre diretamente na parcela da dívida atrelada à taxa básica de juros, elevada em 0,75 p.p.

Fabio Graner, de O Estado de S. Paulo,

24 de julho de 2008 | 07h41

A alta de 0,75 ponto porcentual na taxa básica de juros, para 13% ao ano, deve impactar a dívida líquida do setor público em cerca de R$ 4,8 bilhões, se permanecer por 12 meses. O impacto ocorre diretamente na parcela da dívida atrelada à taxa Selic. Dados do Banco Central (BC) mostram que, em maio, essa parcela da dívida era de R$ 645,4 bilhões.  Veja também:A evolução da taxa Selic no governo Lula  Economistas já prevêem nova alta de 0,75 em setembro Indústria critica alta da Selic e fala em 'vírus da inflação' Lula: inflação não voltará, podem tirar o cavalo da chuva  A alta foi a terceira consecutiva e é a maior desde fevereiro de 2003, início do governo Lula. A decisão, unânime e sem viés, já havia sido amplamente antecipada pelo mercado financeiro por causa da piora no cenário de inflação para 2008 e 2009. Por isso, a certeza de uma alta era geral. Só havia uma pequena dúvida em relação à intensidade do aperto monetário. A aposta majoritária era de 0,5 ponto, mas alguns arriscaram 0,75.  Nos cálculos do BC, a cada 1 ponto porcentual de alta na taxa básica, a dívida líquida total sobe o equivalente a 0,26 ponto porcentual em relação ao Produto Interno Bruto (PIB). Dessa forma, a alta de 0,75 deve elevar em 0,19 ponto porcentual a dívida líquida, que, em maio, estava em 40,8% do PIB. Considerando que o BC já havia promovido anteriormente duas elevações de 0,5 ponto cada na taxa básica, o impacto da política monetária na dívida líquida do setor público, se permanecer durante 12 meses, já supera os R$ 10 bilhões. O mercado esperava mais três altas de 0,5 ponto neste ano, o que deve ser revisto agora. Dessa forma, o ciclo de aperto na política monetária tende a ter um impacto sobre a dívida líquida superior a R$ 20 bilhões, sempre considerando que a taxa permanece mais alta por um período de 12 meses.  Levando-se em conta apenas a dívida interna em títulos do governo federal, o efeito da política monetária é um pouco menor. Considerando os R$ 439,06 bilhões de papéis atrelados à Selic existentes em maio, cada 0,75 ponto de elevação nos juro básico, ao longo de 12 meses, tem impacto de R$ 3,3 bilhões no estoque da dívida. Ou seja, o aperto de 1,75 ponto porcentual já promovido pelo BC neste ano deve aumentar em cerca de R$ 7,5 bilhões a dívida interna. A existência de títulos vinculados à taxa básica de juros é uma anomalia da economia brasileira, herança dos anos de instabilidade econômica. Se esse grupo de papéis, que representava, em maio, 35,4% da dívida interna não existisse, a política monetária teria maior potência. Isso porque a alta nos juros provocaria uma perda de renda para os detentores de títulos públicos prefixados. Hoje o aperto monetário provoca um "efeito riqueza", ou seja, grande parte dos investidores ganha quando a Selic começa a subir.  Mas esse problema já foi bem maior, pois em 2003 os títulos atrelados à Selic representavam mais de 60% da dívida interna.

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