Agência Petrobras
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Alta do petróleo por crise na Ucrânia põe em xeque política de preços da Petrobras

Tensão entre a Rússia e a Ucrânia pode fazer o preço do petróleo alcançar a marca dos US$ 100, o que aumenta pressão sobre a estatal para elevar os preços da gasolina e do diesel

Fernanda Nunes, O Estado de S.Paulo

22 de fevereiro de 2022 | 18h38

RIO - Analistas financeiros e economistas começam a rever suas projeções para os efeitos no Brasil e na Petrobras do aumento das tensões entre a Rússia e a Ucrânia. É consenso entre eles que o barril negociado na Europa e nos Estados Unidos vai ultrapassar a barreira dos US$ 100, o que deverá turbinar o caixa da estatal e os ganhos dos acionistas. 

A dúvida paira quanto ao fôlego da empresa para manter a sua política de preços atrelada ao mercado internacional e às repercussões da valorização da commodity e, consequentemente dos combustíveis, nas eleições. Nesta terça-feira, 22, o barril do petróleo Brent, usado como referência pela Petrobras, avançou 1,52% e fechou em US$ 96,84.

O Brasil, por um lado, se beneficiaria dessa crise, por ser exportador de petróleo e passaria a vender o produto com preços mais altos. Por outro, os consumidores serão afetados por reajustes dos preços da gasolina e do óleo diesel, já que a Petrobras tende a repassar as altas da commodity para os seus clientes, nas refinarias.

O questionamento é sobre a frequência dos aumentos e como a estatal fará esse repasse em ano de eleição, considerando que a alta dos combustíveis pode prejudicar a campanha do presidente Jair Bolsonaro e favorecer a oposição. Atualmente, o relator dos dois principais projetos relativos aos combustíveis é o senador Jean Paul Prates (PT-RN).

Pressão sobre a Petrobras

A tendência é que a Petrobras sofra mais pressão do governo neste ano. O balanço financeiro de 2021, que será divulgado nesta quarta-feira, 23, será um fator importante nesse cenário. O lucro deve ser elevado, o que demonstra que a companhia tem fôlego para manter os preços inalterados por mais tempo. 

Segundo a Associação Brasileiros dos Importadores de Combustíveis (Abicom), a defasagem dos valores praticados pela petrolífera, em comparação com o mercado internacional, está em 13%, no caso da gasolina, e 8% no do diesel.

"Vamos ver se o governo, de fato, não vai tentar fazer algum tipo de intervenção para tentar atenuar os aumentos que possam ocorrer", afirma Rodrigo Leão, pesquisador do Instituto Estratégico de Petróleo e Gás Natural (Ineep) e especialista em geopolítica do petróleo.

Para o analista sênior de Petróleo e Gás do UBS BB, Luiz Carvalho, a tensão entre a Rússia e a Ucrânia é conjuntural e não será suficiente para influenciar a política de preços da Petrobras, que equipara os valores dos seus produtos aos de importação.

Em sua opinião, alterar essa política iria gerar descrença entre os investidores, o que influenciaria o câmbio, outra variável de peso no cálculo do PPI. E, ainda que os investidores, sobretudo estrangeiros, já calculem as possíveis interferências políticas na empresa de capital misto (a Petrobras é controlada pela União), a expectativa do mercado financeiro é a de que a petrolífera mantenha a estabilidade do caixa a ponto de garantir financiamentos mais baratos.

"Toda discussão em torno da Petrobras se tornou política. Ninguém está, de fato, disposto a resolver o problema do preço dos combustíveis no Brasil", diz Carvalho. 

Carvalho acrescenta ainda que o conflito entre Ucrânia e Rússia também mexe no preço dos fertilizantes, que, por sua vez, mexe no preço dos alimentos. "O petróleo subiu, a gasolina e o diesel vão subir. Acontece com todas as outras commodities: açúcar, trigo, algodão, minério, carne, frango... Em vez de pedir subsídio para combustível fóssil, que atende uma parcela da população, gostaria que alguém chamasse atenção para a cesta básica, que ficou mais cara", afirma Carvalho.

Histórico

A trajetória da cotação do petróleo é cíclica - anos de alta sucedem anos de baixa. O recorde histórico foi alcançado em 2008, quando o barril chegou a ser negociado a US$ 143,95, no dia 3 de julho. Logo depois, com a crise imobiliária que se alastrou no mundo todo em 2009, o barril permaneceu em patamares mais baixos até 2010, voltando a crescer em 2011 e 2012.

Essas valorizações, em 2008 e 2011, foram fundamentais no incremento do caixa da Petrobras e nos investimentos robustos da empresa, principalmente em projetos relacionados ao pré-sal

Alguns desses investimentos, no entanto, foram abandonados após denúncias de superfaturamento envolvendo esses projetos, na Operação Lava Jato. Justamente no primeiro ano da Lava Jato, a commodity despencou mais uma vez, o que também contribuiu para a crise na empresa.

Posição da Rússia está fortalecida

Em recente artigo, o professor titular do Instituto de Economia da UFRJ e também pesquisador do Ineep, José Luís Fiori,  escreveu que "em plena crise energética, pandêmica e inflacionária europeia, só a Rússia tem capacidade imediata de aumentar a oferta do gás que os europeus necessitam para esquentar suas casas, baixar seus custos de produção e recuperar a competitividade de sua indústria". 

Em sua opinião, a Rússia está numa posição excepcional, o que "explica o seu empoderamento e sua decisão de avançar suas peças no tabuleiro do xadrez geopolítico da Europa".

Para Leão, do Ineep, não é somente a invasão russa à Ucrânia que afeta o mercado internacional de petróleo. "Há mudanças importantes que pouca gente está olhando", diz. Ele ressalta que há uma relativa convergência de interesses entre os grandes produtores mundiais de energia e que, por isso, a Rússia não está isolada na crise com a Ucrânia.

"Há sinais claros de interesses de outros países produtores e também do eixo econômico asiático que dão apoio relevante para a Rússia nesse processo. Não há movimento significativo dos países do Oriente Médio para ocupar o espaço aberto pela Rússia no mercado de gás e energia. Pelo contrário, a promessa de retomada da produção está abaixo do esperado", diz Leão, complementando que a extração de petróleo está 1 milhão de barris abaixo do prometido.

O especialista acrescenta ainda que a China não fará esforço diplomático para se envolver na tensão entre a Rússia e a Ucrânia. De fato, o país asiático reafirmou o compromisso de não se envolver em questões de terceiros. Esse cenário está deixando os consumidores "apavorados", segundo o pesquisador. Com isso, qualquer sanção a países produtores, como à Rússia, pode criar uma crise nas economias dos países dependentes de importação de petróleo e gás. A simples possibilidade de invasão da Ucrânia é suficiente para manter a cotação do barril elevada.

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