Brendan McDermid/REUTERS - 21/6/2021
Brendan McDermid/REUTERS - 21/6/2021

Pela primeira vez, consumidores fazem mais compras na Amazon do que no Walmart

Crescimento do comércio eletrônico no último ano fez a Amazon superar a varejista americana do setor de supermercados em vendas; para especialistas, a mudança é a prova de que o futuro online chegou para o varejo

Karen Weise e Michael Corkery, The New York Times

19 de agosto de 2021 | 10h00

SEATTLE, EUA - A Amazon superou o Walmart e se tornou o maior varejista do mundo fora da China, de acordo com dados corporativos e da indústria, um marco na mudança do varejo presencial para o comércio eletrônico, que transformou a maneira com que as pessoas compram, de biscoitos a ursos de pelúcia.

Influenciados em parte pela crescente demanda durante a pandemia, os consumidores gastaram mais de US$ 610 bilhões na Amazon nos 12 meses que antecederam junho, de acordo com estimativas de Wall Street compiladas pela empresa de pesquisas financeiras FactSet. Nesta semana, o Walmart divulgou que vendeu US$ 566 bilhões nos 12 meses que antecederam julho.

A Alibaba, gigante chinês do varejo online, é a campeã em vendas. A Amazon e o Walmart não têm dominância na China.

Ao ultrapassar o Walmart, a Amazon destronou uma das mais bem-sucedidas — e temidas — empresas das décadas recentes. O Walmart aperfeiçoou um próspero modelo de negócios no varejo com suas lojas de supermercado gigantescas, que poupou cada centavo possível em custos, o que baixou preços de produtos e esmagou a concorrência.

Mas, mesmo com toda essa eficiência e poder, a batalha pelo domínio do atual ambiente do varejo é vencida na internet. E nenhuma outra empresa tirou mais vantagem disso do que a Amazon. O sistema de entregas da empresa (muitos produtos chegam à casa dos clientes em um ou dois dias) e a ampla oferta de produtos primeiro atraiu os consumidores para as compras online — e depois os manteve por lá, comprando cada vez mais. Isso também fez de Jeff Bezos, o fundador da empresa, uma das pessoas mais ricas do mundo.

“É um momento histórico”, afirmou Juozas Kaziukenas, fundador da consultoria Marketplace Pulse. “O Walmart está por aí há tanto tempo, e agora a Amazon aparece com um modelo diferente e o substitui como o número 1”.

Analistas de Wall Street esperavam que essa transição de liderança no varejo ocorreria nos próximos anos. Mas a pandemia acelerou essa agenda, já que as pessoas confinadas em suas casas se voltaram para os serviços de entrega. As vendas do Walmart cresceram acentuadamente durante a pandemia, mas esse crescimento foi menor do que o da Amazon, que acrescentou centenas de novos armazéns e contratou cerca de 500 mil trabalhadores desde o início do ano passado.

As vendas do Walmart aumentaram em US$ 24 bilhões no ano passado, afirmou a empresa. Durante quase o mesmo período, o valor total de tudo o que foi comprado na Amazon cresceu em aproximadamente US$ 200 bilhões, estimam analistas.

Ainda que os montantes sejam calculados de maneiras diferentes, analistas os utilizam com frequência para comparações aproximadas. É simples saber o valor total das vendas do Walmart, porque quase tudo o que é vendido pela empresa sai de seu próprio inventário, e essas informações são publicadas anualmente. Mas os analistas têm de calcular uma estimativa do valor total das vendas da Amazon, porque a maior parte do que os consumidores compram no site é de produtos fornecidos por outros vendedores. A empresa revela publicamente apenas as taxas que cobra sobre essas transações.

O novo 'lobo mau'

O sucesso da Amazon ocasionou um escrutínio maior. E a empresa começou a receber muitas das mesmas queixas — a respeito da maneira que trata os empregados e do impacto que surte em economias locais e nacionais — que o Walmart enfrentou durante seus períodos de maior expansão, mais de uma década atrás.

“O lobo mau agora é a Amazon”, afirmou Barbara Kahn, professora de marketing da Faculdade Wharton de Administração de Empresas, da Universidade da Pennsylvania, que escreveu vários livros a respeito do varejo.

A Amazon e o Walmart recusaram-se a comentar o assunto.

Guru Hariharan, que trabalhou com vendas na Amazon, afirmou que a Amazon superou o Walmart por jogar um jogo diferente. Mas o comércio online está crescendo muito mais rapidamente do que em lojas físicas, mesmo que corresponda somente a cerca de um sétimo das vendas em varejo nos EUA. A Amazon fica com US$ 0,41 de cada dólar gasto online nos EUA, enquanto o Walmart fica apenas com US$ 0,07, de acordo com a consultoria eMarketer.

“Cada um deles tem seu território próprio, onde reinam”, afirmou Hariharan, que saiu da Amazon e fundou a CommerceIQ, que dá consultoria a marcas como Colgate e Kimberly-Clark a respeito de comércio eletrônico.

Modelo de marketplace impulsiona crescimento da Amazon

A ascensão da Amazon ocorre em parte porque a empresa abriu seu website permitindo que vendedores terceirizados listem seus produtos juntamente com os itens que a Amazon compra e revende por conta própria. Esse tipo de marketplace aumentou imensamente a variedade de produtos disponíveis. Quase 2 milhões de vendedores anunciam seus produtos na Amazon e são responsáveis por 56% das vendas pela plataforma.

Esse marketplace dificulta a determinação da verdadeira influência da Amazon no setor do varejo. A empresa recolhe e revela somente o valor das taxas que cobra dos vendedores para listar, enviar e divulgar seus produtos, não o montante total que circula no negócio. Esse modelo é mais lucrativo, mas gera menos receita.

“Isso faz a Amazon parecer menor”, afirmou Kaziukenas. “Eles estão encobrindo sua realidade.”

Isso fez com que analistas de bancos de investimento como JPMorgan, BMO Capital Markets e Cowen estimassem o que é conhecido como "volume bruto de mercadoria”, calculando quanto os consumidores gastam na Amazon independentemente de onde vêm as mercadorias, do inventário da Amazon ou dos vendedores terceirizados. Os analistas fazem as estimativas com base em dados que a empresa divulga, tais como o valor que ganham dos vendedores e a fatia no marketplace do total de itens vendidos, e em sua própria pesquisa. A FactSet compila e calcula a média dessas estimativas.

Nos 12 meses recentes, a Amazon divulgou uma receita total de varejo de US$ 390 bilhões. Mas o total de vendas de produtos, incluindo transações terceirizadas, foi aproximadamente 60% maior que esse montante, de acordo com as estimativas dos analistas.

O Walmart ainda é o maior empregador dos EUA, com 1,6 milhão de funcionários. E vende mais dentro dos EUA do que a Amazon, apesar de o JPMorgan estimar que a Amazon superará o Walmart no país já no próximo ano.

Durante a pandemia, o Walmart aprimorou a capacidade de usar suas lojas como minicentros de distribuição, onde os consumidores podem ir de carro buscar “no meio-fio” o que compraram, uma maneira muito mais barata de atender às encomendas online do que as entregas. Nesta semana, o Walmart afirmou que espera gerar US$ 75 bilhões em vendas online este ano. A empresa tem expandido seus esforços de construir seu próprio marketplace, mas a vasta maioria de suas vendas online saem de seu próprio inventário, afirmou Kaziukenas.

Edward Yruma, analista do varejo e diretor gerente do KeyBanc Capital Markets, afirmou que a Amazon mal começou a se dar conta de seu verdadeiro tamanho.

“O Walmart é grande, e sabemos disso”, afirmou ele. A Amazon sempre esteve no papel de desafiante, mesmo depois de ficar imensa. Neste verão, quando já empregava 1,3 milhão de pessoas, a empresa adicionou um novo princípio de liderança que reconhece sua magnitude.

“Começamos numa garagem”, afirma o novo princípio, “mas não estamos mais lá”. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.