Ambição não é pecado feminino, defende Tory Burch

Campanha da rede de moda quer mostrar que mulheres não precisam ter vergonha do próprio sucesso

Jacob Bernstein, The New York Times

06 de março de 2017 | 03h00

Não há nada particularmente ousado em Tory Burch – a mulher ou a marca. Logo após a inauguração de sua primeira loja, em 2004, o The New York Times fez um perfil de Tory. O repórter observou que, se a discrição pudesse ser definida, encontraria uma tradução aproximada no jeito de ser da empresária da moda.

Portanto, causa surpresa o fato de ela ter lançado, na última terça-feira, uma campanha que se dedica a apoiar uma causa polêmica. Em vez de usar modelos clicadas por Mario Testino, a Tory Burch usou um vídeo em branco e preto e um anúncio de interesse público para retomar um tema polêmico e que dividiu os Estados Unidos durante a campanha para a mais recente eleição presidencial.

Com lançamento previsto para quarta-feira, no Dia Internacional da Mulher, a campanha que leva o nome “Abrace a ambição” traz Julianne Moore, Melinda Gates, Gwyneth Paltrow, Jamie Lee Curtis, Anna Wintour, Reese Witherspoon e outras famosas falando sobre como modificar o significado de uma palavra que sempre foi usada para denegrir as mulheres.

“Abraçamos a ambição”, diz Gwynet. “Eu me lembro de muitas palavras obscenas. Ambição não é uma delas”, diz Reese. Toda a receita com a venda de braceletes e T-shirts com o mote será doada a uma fundação criada por Tory em 2009 para ajudar mulheres empreendedoras.

Sem partido. Embora tenha criado uma camiseta para a campanha de Hillary Clinton e doado centenas de milhares de dólares para políticos democratas nos últimos anos, seu desejo é afastar a ideia de que este projeto foi politicamente motivado, ou é de fato anti-Trump.

Tory disse diversas vezes, quase se desculpando, que seu objetivo era fazer alguma coisa que una, e não divida, o país. “Tenho muitos amigos republicanos e eles querem que suas filhas tenham os mesmos direitos dos homens”, afirmou.

Mas a ambição, e a maneira como o termo é usado para denegrir as mulheres, é algo que tem muito a ver com ela.

Trajetória. Tory cresceu em Valley Forge, Pensilvânia. Seus pais, Buddy e Reva Robinson, formavam um casal iconoclasta em termos de moda que passava férias no Marrocos, comemorava o Natal embora Reva fosse judia e sempre tocava um sino chamando para a mesa, como num romance de Willa Cather. “Eles nos ensinaram que com trabalho duro podemos alcançar qualquer coisa”, disse, referindo-se à criação que recebeu.

Tory frequentou a universidade da Pensilvânia e se formou em história da arte. Mudou-se para Nova York e se tornou relações públicas no campo da moda. Quando se casou com J. Christopher Burch, investidor que a ajudou a financiar sua empresa, os ataques começaram (eles se divorciaram em 2006).

Tudo isso era muito confuso para Tory, que nunca se considerou uma pessoa particularmente ameaçadora.

De um lado, ela sempre diz a suas funcionárias para jamais falarem “talvez” ou “acho que”. Mas, por outro, sempre que se refere a si própria, usa esses termos.

Em 2009, Tory inaugurou a Tory Burch Foundation e, com parceria firmada com o Bank of America, a organização cresceu a ponto de conceder mais de US$ 25 milhões em ajuda para mulheres empreendedoras no mundo.

Muitas dessas mulheres que foram beneficiadas experimentaram o mesmo tipo de sexismo que ela enfrentou.

Tory Burch decidiu lançar essa campanha antes de Donald Trump ser eleito presidente, embora os vídeos tenham sido gravados recentemente . E a campanha, que será lançada num momento em que as ativistas pelos direitos da mulheres criaram coragem diante dessa virada à direita no país, quer recuperar os termos que são frequentemente usados pejorativamente contra elas. /TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

“Tenho muitos

amigos republicanos e

eles querem que suas

filhas tenham os mesmos direitos dos homens.”

Tory Burch

ESTILISTA E FUNDADORA DA EMPRESA DE MODA TORY BURCH

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