ANÁLISE-Inflação global pode minar lucros agrícolas do Brasil

A agricultura brasileira, até agorabeneficiada pelos altos preços internacionais, corre o risco deter a sua competitividade minada por uma deterioração daeconomia mundial resultante dessa mesma crescente inflação dascommodities, disseram analistas. A forte alta dos preços dos grãos e de outrasmatérias-primas exportadas pelo país tem compensado adesvalorização do real frente ao dólar e deve garantir umcrescimento da próxima safra (2008/09), mesmo que pequeno emrelação à atual escalada das commodities. No entanto, um "estouro da bolha" das commodities, quealguns vêem como iminente, revelaria o problema dos custos e deinfra-estrutura do Brasil, encobertos pela alta dos preços. "Tem um ganho do ponto de vista dos preços de commodities,que beneficia a receita das exportações do Brasil, mas aeconomia mundial está totalmente desequilibrada, já há muitoela não responde aos fundamentos econômicos e é objeto de umforte movimento especulativo", disse o analista Fábio Silveira,da RC Consultores. Segundo ele, ganha-se de um lado, mas perde-se de outro,"com a inflação mundial ganhando uma velocidade relevante", oque em algum momento exigirá uma ação mais firme dos bancoscentrais. "Os bancos centrais vão ter que subir os juros, e em algummomento os mercados vão perceber isso, e as posições maiscompradas vão ser desmontadas, adotando uma postura baixista, eaí o movimento de queda, o furo da bolha pode se iniciar",acrescentou o analista, admitindo que ninguém sabe se a bolhavai se esvaziar gradual ou abruptamente. Ele observou que o Brasil vai continuar se beneficiandodessa alta de preços enquanto a bolha se mantiver cheia, emborajá sinta também efeitos da inflação internacional de alimentos,mesmo sendo exportador agrícola. "Isso vai levar o Banco Central a persistir nessa políticade elevação de juros, como forma de tentar defender umainflação dentro dos limites da meta, mas é uma situação que nãotem muito efeito, a política monetária no país tem efeitolimitado, porque há uma importação de inflação externa." ENQUANTO A BOLHA DURAR Para o coordenador científico do Centro de EstudosAvançados em Economia Aplicada (Cepea), Geraldo Sant'Ana deCamargo Barros, os preços deverão continuar elevados por umlongo tempo, mas o Brasil "não vai tirar vantagensespetaculares desse fato". "A razão básica é a mesma: os custos deverão permanecerelevados. A previsão que prevalece é a de que a produçãoagropecuária brasileira vai continuar no seu ritmo histórico(entre 2 a 3 por cento ao ano, em média) nos próximos dezanos", declarou ele. Segundo ele, um aumento mais forte da produção ocorreria sea produtividade retomasse o crescimento dos anos 1990, "o quenão se espera que aconteça". Camargo Barros destacou ainda que seria necessário umvolume considerável de investimentos em infra-estrutura(logística e energia) para um aumento mais consistente deprodução, investimentos esses "que não estão caminhando bem". O especialista disse ainda que se houver uma "aceleraçãoinflacionária por descontrole monetário e fiscal, então ascondições para investimento podem se deteriorar ainda mais e aeconomia brasileira pode regredir à marcha lenta conhecida". Outro analista, José Carlos Hausknecht, da MB Agro, tambémacredita em um aumento de área plantada na próxima safra deverão, especialmente com as informações de que a lavouranorte-americana de milho não será tão boa, em função dasenchentes no Meio Oeste. "Os custos tiram muito a rentabilidade do produtorbrasileiro em algumas regiões, mas com essa subida que teveagora acreditamos em um aumento de área. Só não vai ser maiorpelo aumento de custo e o problema de crédito."

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