ANÁLISE-Mercado segue sem entender Techint na Usiminas

A entrada do grupo ítalo-argentino Techint no capital da Usiminas ainda não foi entendida pelo mercado, que segue afirmando que o preço anunciado na operação divulgada em novembro foi caro demais para um ativo sem sinergias claras com suas unidades Ternium e Tenaris Confab.

ALBERTO ALERIGI JR., REUTERS

16 de dezembro de 2011 | 11h24

Anunciada em 28 de novembro, a entrada do grupo Techint no grupo de controle da Usiminas, maior produtora de aços planos do Brasil, no lugar de Camargo Corrêa e Votorantim, causou surpresa no mercado diante de rumores que há meses citavam Gerdau e CSN como interessadas na fatia.

"A oferta veio de forma surpreendente, mas gerou uma série de dúvidas. Não se tem muito claro o que vai ter de sinergias. Vamos ter de esperar o começo do ano", afirmou o analista Pedro Galdi, da corretora SLW, em referência ao novo acordo de acionistas da Usiminas que deve ser assinado no próximo mês.

A entrada da Techint no capital da Usiminas vai se dar através da Ternium, que terá 35,6 por cento do bloco de controle da Usiminas, e da fabricante brasileira de tubos de aço Tenaris Confab, que terá 7,7 por cento. O restante ficará com a Nippon Steel, que terá 46,6 por cento do bloco.

Há meses o mercado vinha acompanhando rumores sobre mudanças no grupo de controle da Usiminas e a expectativa era de que uma troca de sócios terminasse com as incertezas que afetavam a empresa, que atravessa um longo processo de reestruturação para cortar custos e ganhar competitividade.

Em vez disso, pairam no ar dúvidas sobre se a Ternium, que tem déficit de produção de placas de aço -insumo com pouco valor agregado e em excesso no mundo- poderá incentivar a Usiminas a rever planos para o produto.

A Usiminas cancelou em novembro de 2010 planos para erguer uma usina de placas com capacidade para 5 milhões de toneladas em Santana do Paraíso (MG), afirmando que a produção de placas no Brasil não é competitiva e, por isso, preferia direcionar recursos para projetos que aumentassem sua eficiência.

Pelas contas do Barclays, o preço de 36 reais por ação ordinária da Usiminas oferecido pela Techint deveria implicar na margem Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização) da siderúrgica saltando dos 11,5 por cento do terceiro trimestre para 41 por cento, perto do nível histórico.

"Os analistas estão um pouco desconfiados, sem conseguir entender o racional. (A operação) não tem nenhuma sinergia tão óbvia, quanto seria com CSN ou Gerdau, empresas que já estão no mercado brasileiro", disse a analista Daniella Maia, da corretora Ativa.

"O mercado de aço que tem maior potencial de crescimento é o Brasil, onde a Ternium não está presente, então é uma oportunidade de entrar no mercado brasileiro. Sobre Usiminas, a empresa sempre citou desejo de internacionalização", disse ela. "Isso é o que eles falam, embora não seja uma resposta muito boa."

Na avaliação de analistas da MorningStar Equity Research, o acordo poderá melhorar a competitividade da Usiminas, já que coloca um grupo siderúrgico com forte presença na América Latina no controle ao lado da Nippon Steel, "mas questionamos os benefícios tangíveis para a Ternium".

NOVA USINA?

Antes de anunciar a entrada na Usiminas, a Ternium, que é citada por analistas como tendo interesse antigo de ingressar no Brasil, anunciou projeto para construção de uma usina siderúrgica no complexo industrial do Porto do Açu, que está sendo construído pelo conglomerado do empresário Eike Batista.

Em outubro, a empresa recebeu licença ambiental para o projeto com capacidade para até 8,4 milhões de toneladas de aço por ano em placas e laminados.

No início deste mês, o presidente da Techint no Brasil, Roberto Vidigal, afirmou ao jornal O Globo que um dos interesses da empresa na Usiminas é a construção de uma laminadora no Brasil e a melhora na relação comercial da siderúrgica com a Confab, que obtém da Usiminas 90 por cento do aço que consome.

Quando do anúncio do acordo, a direção da Ternium afirmou a analistas que via bom valor no projeto do Porto do Açu, mas que, após o investimento na Usiminas, poderia rever os planos com a siderúrgica.

"A Confab é uma empresa muito pequena para que ela, em si, justifique qualquer tipo de prêmio de preço alto que está sendo pago pela Usiminas", disse Maia. "Faria sentido ter as duas companhias juntas, porque a Usiminas é a principal fornecedora de aço para a Confab, mas ainda assim fica difícil justificar esse prêmio."

Procuradas, Usiminas e Ternium preferiram não comentar o assunto.

Segundo relatório do Barclays, a Ternium não tem flexibilidade de recursos suficiente para investir sozinha no projeto de placas do Porto do Açu e poderia cobrar ajuda da Usiminas.

"A companhia deve negociar com a Usiminas uma potencial parceria no projeto ou encontrar outra solução para a escassez de placas", afirmou o banco. "Ainda acreditamos que há risco de deterioração do mix (de produtos) para a Usiminas com a Ternium, o que seria negativo para os acionistas minoritários", acrescentou.

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