Pedro Danthas/Volkswagen
Linha de produção da Volkswagen no ABC paulista volta a operar com dois turnos de trabalho Pedro Danthas/Volkswagen

Para Anfavea, corte de IPI vai compensar custos do setor automotivo

Fabricantes ainda se queixam de problemas como inflação alta e crise na oferta de chips, mas preveem vendas maiores

Cleide Silva, O Estado de S.Paulo

09 de março de 2022 | 05h00

Após queda de 15,8% na produção de veículos em fevereiro e de 23% nas vendas, ambos no comparativo anual, a indústria automobilística brasileira espera melhores resultados para este mês. A expectativa vem do corte de 25% no Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI), anunciado recentemente pelo governo.

Para os consumidores, a nova alíquota representaria redução de 1,4% a 4,1% nos preços dos veículos, de acordo com o tipo de motor. Algumas empresas já alteraram suas tabelas com base nesses cortes, mas é possível que, na maior parte dos casos, ocorra uma compensação dos aumentos de custos do setor.

O presidente da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), Luiz Carlos Moraes, admite que o IPI menor vai aliviar parte do reajuste a ser repassado aos preços finais, o que, “de qualquer forma alivia o aumento que ocorreria”.

Outro inibidor do mercado, diz o executivo, deve ser a alta inflacionária, que deve se intensificar em razão dos impactos que a guerra entre Rússia e Ucrânia deve ter nos preços das commodities e da logística, com mudanças de rotas de navios e aviões para evitar a área.

“O Banco Central precisa tomar cuidado com a dosagem no aumento da Selic (taxa de juros básica) pois, se errar, pode ocorrer um desastre ainda pior do que o já esperado para o PIB”, afirma Moraes. Ele lembra que a Selic hoje está em 10,75% ao mês, mas o juro do crédito ao consumidor, o mais usado no financiamento dos automóveis, está em 26,9%.

Matéria-prima

Outro problema que pode se aprofundar é o de falta de semicondutores, pois os dois países em conflito são importantes fornecedores da matéria-prima usada na fabricação desses componentes.

O problema de escassez desses itens, provocado pela pandemia desde o fim de 2020, ainda afeta várias empresas locais, que seguem recorrendo a férias coletivas e suspensão temporária de contratos (lay-off).

Em fevereiro, as montadoras produziram 165,9 mil veículos, o pior resultado para o mês em seis anos. No bimestre, a queda é de 21,7% em relação ao mesmo período do ano passado.

Foram vendidos 129,3 mil automóveis, comerciais leves, caminhões e ônibus no mês passado – e 255,8 mil na soma dos dois primeiros meses. As concessionárias têm 84,9 mil carros em estoques que não têm direito ao corte do IPI, mas a Anfavea negocia com o governo a extensão do benefício.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Governo deixará de arrecadar R$ 19 bilhões por ano com IPI reduzido

Informação é da Instituição Fiscal Independente (IFI); somente em 2022, impactos da medida serão de R$ 16,2 bilhões de março a dezembro, nos cálculos da entidade

Guilherme Pimenta, O Estado de S.Paulo

09 de março de 2022 | 05h00

Cálculos da Instituição Fiscal Independente (IFI) divulgados na terça-feira, 8, apontam que a redução de 25% do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) pode custar até R$ 19,1 bilhões anualmente, nos termos do decreto do presidente Jair Bolsonaro publicado no fim de fevereiro. Somente em 2022, os impactos da medida serão de R$ 16,2 bilhões de março a dezembro, nos cálculos da entidade. 

Na nota técnica, assinada por Vilma Pinto, Felipe Salto e Daniel Couri, a IFI, que é vinculada ao Senado, estima que 90% da arrecadação do IPI em 2021 foi contemplada com redução de 25% na alíquota. Para a maior parte dos produtos, a redução foi de 25%. 

Alguns tipos de automóveis tiveram redução menor na alíquota, de 18,5%. Produtos que contenham tabaco não tiveram redução do imposto. O IPI fumo, que não foi reduzido, representou somente 7% da arrecadação do imposto em 2021.

A IFI lembra na nota técnica que o IPI é um tributo compartilhado com Estados e municípios. No cenário base, de março a dezembro, o impacto para os Estados teria sido de R$ 4,6 bilhões e, para os municípios, de R$ 4,3 bilhões e para os fundos regionais, de R$ 0,5 bilhão.

Em relação aos efeitos macroeconômicos da medida, a IFI apontou que ainda precisam ser feitos mais estudos. “Sabe-se que medidas de redução de impostos podem estimular os setores beneficiados. Há ainda que ponderar efeitos negativos, do ponto de vista da atividade econômica, em razão da mudança de preços relativos gerada pela desoneração à indústria, apenas, e não ao setor de serviços, por exemplo”, diz o órgão.

Compensações

Apesar de o IPI não demandar compensação nos termos da Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF), a IFI aponta que “os impactos estimados são relevantes” e, na ausência de medidas compensatórias, vão afetar o déficit e a dívida pública. “Isto é, prejudicariam o próprio efeito positivo eventualmente produzido pelo estímulo decorrente da medida do IPI sobre a atividade econômica.”

Quando publicou o decreto, o governo justificou a renúncia tributária dizendo que a arrecadação federal em janeiro de 2022 somou R$ 235,3 bilhões, sendo volume recorde que representa 18,30% de aumento em relação ao mesmo mês do ano passado, já descontada a inflação do período. 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.