Aos 55 anos, Kombi luta para sobreviver no mercado automotivo

Veículo não tem estrutura para se adaptar à lei que obriga todos os carros produzidos a partir de 2014 terem airbag e freios ABS

Cleide Silva, de O Estado de S. Paulo,

18 de agosto de 2012 | 18h22

Prestes a completar 55 anos, a Kombi luta para prorrogar seus dias na linha de montagem da Volkswagen no ABC paulista, onde começou a ser fabricada em 2 de setembro de 1957. O veículo mais antigo em produção no mundo, e ainda o mais vendido em sua categoria no Brasil, deve sair de cena até o fim do próximo ano.

A partir de 2014, os veículos terão de ser produzidos com airbag e freios ABS. A antiga Kombi não tem estrutura para receber esses sistemas. Adaptá-la exigiria investimento elevado.

As chances do modelo são praticamente nulas, mas a Volkswagen ainda não desistiu de buscar uma alternativa para seu produto mais carismático. A Kombi foi o primeiro modelo da marca alemã a ser feito no País. Até agora, foram 1,5 milhão de unidades, a maioria vendida no mercado interno para uso de trabalho.

Neste ano, já foram vendidas 14,9 mil unidades, mais que o dobro do segundo colocado na categoria de furgões, o Fiat Ducato, com 5.965 unidades. Em 2011 inteiro, a Kombi vendeu 24,8 mil unidades e o Ducato, 13,4 mil.

Embora ambos sejam classificados como furgões pela Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores (Fenabrave), as especificações e capacidade de carga são diferentes e os preços também. A Kombi custa a partir de R$ 43,8 mil e o Ducato a partir de R$ 76,3 mil, também sem os itens de segurança, que são opcionais e custam R$ 2,890.

A Volkswagen chegou a encomendar um sistema de airbag específico, mas a Kombi não passou no teste. Fontes do mercado afirmam que a montadora estuda pedir uma prorrogação do prazo para a obrigatoriedade do item, uma vez que o veículo não tem concorrentes diretos em preço e categoria de uso. Seu fim deixaria uma faixa do mercado sem opção de compra.

O Departamento Nacional de Trânsito (Denatran) informa que não há impedimentos para que o prazo seja alterado, "mas não há nada que indique que isso poderá ser feito". Outra tentativa seria mudar a classificação da Kombi para uma categoria isenta da obrigatoriedade do item de segurança. Isso também teria de ser aprovado pelo Denatran, o que parece improvável.

Há ainda quem aposte na produção do Bulli (desenvolvido na Alemanha), um moderno furgão cujo protótipo (na versão elétrica) foi mostrado na Rio+20, em junho. A expectativa é de que esse veículo poderia ser adaptado para produção em série.

Nos bastidores, a Volks não nega que busca uma solução, mas, oficialmente, se limita a informar que o setor da Kombi opera em um turno na fábrica de São Bernardo do Campo com 630 empregados. Assim como o próprio veículo, a linha de produção não teve mudanças significativas desde o início da produção.

Vaca leiteira. O especialista em estratégias empresariais e professor da Universidade Mackenzie, Marcos Morita, ressalta que a Kombi é uma "vaca leiteira", no conceito chamado de Matriz BCG, da Boston Consulting Group, usado para avaliar se o produto é atrativo, participação no mercado e ciclo de vida.

"O conceito envolve um produto que atua num mercado que cresce pouco, mas tem grande participação nas vendas", diz Morita. O investimento é praticamente zero, pois os gastos com desenvolvimento, maquinário para produção e marketing já foram amortizados. "Tudo o que entra é lucro e ajuda a sustentar os novos produtos que estão sendo introduzidos no mercado."

Em razão disso, Morita acredita que o fim da Kombi "talvez afete o fluxo de caixa da Volkswagen". Para o consumidor, que não terá mais acesso a um produto único, o impacto pode ser menor. "Normalmente, o mercado se adapta, pois outros produtos chegam para ocupar o espaço, nem sempre com a mesma característica ou faixa de preço."

Modelos mais modernos disponíveis, como o Mercedes-Benz Sprinter e o Ford Transit têm preços bem superiores aos da Kombi. Outros mais baratos, como o chinês Towner, não têm a mesma capacidade de carga.

O segmento de furgões, com 20 modelos disponíveis, vendeu neste ano 48 mil unidades, 3,7% menos ante igual período de 2011. A Kombi cresceu 4%.

Mille. A Kombi não é único veículo que vai sair de linha por não ter condições de receber airbag e ABS. O Uno Mille, da Fiat, no mercado há 22 anos, é outro que será descartado, mas seu substituto já está anunciado para 2014. Outro que estava com dias contatos, mas ganhou sobrevida, é o Classic, da GM. Lançado há 15 anos, terá airbag na versão 2013.

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