Felipe Rau/Estadão - 25/3/2022
Felipe Rau/Estadão - 25/3/2022

'Apesar das crises, contratos foram cumpridos no Brasil', afirma CEO da Brookfield

Para executivo da gigante que investe R$ 156 bilhões no País, foco do investimento da gestora é o crescimento de longo prazo

Entrevista com

Henrique Martins

Renée Pereira, O Estado de S. Paulo

27 de março de 2022 | 05h00

Em 122 anos de Brasil, a canadense Brookfield aprendeu a lidar bem com as crises domésticas, e soube tirar proveito de cada uma delas. Presente em 30 países, a gigante global tem cerca de US$ 700 bilhões em gestão de ativos pelo mundo, sendo US$ 32 bilhões no Brasil (R$ 156 bilhões), nas áreas de infraestrutura, energia renovável e setor imobiliário. De 2022 a 2024, a gestora pretende investir R$ 41 bilhões nos ativos existentes – fora as aquisições.

Apesar das incertezas políticas e econômicas, o presidente da gestora, Henrique Martins, menciona a longa experiência da empresa no País para dizer que o apetite continua alto. “Quando olhamos para o Brasil nos últimos dez anos, tivemos de tudo. Impeachment, presidente de esquerda, presidente de direita e de extrema-direita, mas os contratos sempre foram respeitados. Isso é fundamental.”

Com essa garantia, diz ele, a empresa pode fazer movimentos contracíclicos e aproveitar as oportunidades. 

Leia, a seguir, os principais trechos da entrevista:

O que motiva a Brookfield a continuar investindo no Brasil com tanta instabilidade e crescimento baixo?

Para responder essa questão, preciso falar um pouco da história da Brookfield no Brasil. Estamos aqui há 122 anos, temos um conhecimento muito grande sobre o País. Nesse tempo já passamos por todos os tipos de crises imagináveis, e também tivemos muitas oportunidades. Esse conhecimento de país é o primeiro diferencial que temos. Isso faz parte da nossa estratégia global. Nossa estratégia, passa pelos investimentos na espinha dorsal das economias, em setores muito resilientes, com grande potencial de crescimento.

Que setores são esses?

São setores inelásticos na questão de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB). Em saneamento, por exemplo, o Brasil tem um grande potencial de investimento. Quase 50% dos brasileiros não têm acesso às redes de esgoto. Associa-se a isso a pouca capacidade de investimento de Estados, municípios e do governo federal e a demanda da população. É um setor em que as pessoas não consomem mais ou menos água por que o PIB cresce 2%, 1% ou 0,5%. É uma demanda muito inelástica. Energia renovável é outra que veio para ficar. Estamos construindo o maior parque de energia solar da América Latina, de 1,2 GW de geração e mais de 1,5 milhão de módulos. É uma demanda crescente no País. Esse é o ponto que olhamos quando decidimos investir.

Ou seja, o que interessa para vocês é o longo prazo?

Sim. Esse curto prazo, de crescimento menor e inflação alta, não entra na nossa avaliação. Para construir uma linha de transmissão, um datacenter ou um prédio comercial, demora-se cerca de quatro anos. Temos de olhar sempre lá na frente. Outra coisa: investimos em ativos de qualidade. Negócios ruins são negócios ruins na maioria do tempo. Pode até estar barato, mas na nossa filosofia de longo prazo vai ser ruim. Bons negócios podem estar passando por dificuldades, mas aí entramos com nossa expertise operacional e financeira, conseguimos reverter esse negócio e criar valor. Com essa visão de longo prazo podemos ser contracíclicos.

A crise pode ser uma oportunidade para vocês?

As oportunidades sempre aparecem em momentos de desconfiança. A base disso tudo é o respeito aos contratos, ao capital externo, às empresas privadas e a existência de um sistema que tem os checks and balance (sistema em que os Poderes do Estado mutuamente se controlam). Quando olhamos para o Brasil nos últimos dez anos, tivemos de tudo: impeachment, presidente de esquerda, presidente de direita e de extrema direita, mas os contratos sempre foram respeitados. Isso é fundamental.

Se comparar com outros países, estamos na média?

Respeito a contrato é uma precondição para investir. Quando há uma concessão de 30 anos, alguns ajustes precisam ser feitos até porque o País, a concessão e a dinâmica populacional mudam ao longo dos anos. Mas o centro do contrato permanece igual. Respeitar menos um contrato não funciona porque esse menos pode ser comigo.

No curto prazo, temos uma guerra em andamento e um processo eleitoral à vista. De que forma isso entra no planejamento de vocês?

Temos plataformas muito bem estabelecidas no Brasil nos setores de infraestrutura, private equity, energia renovável  e imobiliário. Não fazemos um planejamento de investir no Brasil baseado no fato de a taxa de juros estar alta ou baixa. O que vemos são as oportunidades. Entre 2015 e 2018, compramos a NTS – empresa de transporte de gás do Sudeste do Brasil –, construímos uma das maiores empresas de transmissão de energia no Brasil (Quantum) e compramos a BRK Ambiental num momento conturbado, em que ainda não havia uma legislação para o setor. Mais recentemente, no setor imobiliário, todo mundo tinha uma incerteza sobre o mercado corporativo no pós pandemia, mas compramos quatro prédios na Faria Lima e muitos galpões logístico espalhados por São Paulo. Além disso, entramos numa empresa que vende painel solar para residência (30% dos painéis solares dos pequenos negócios vêm dessa empresa). Esses são exemplos de como ser contracíclico.

Alguma aposta mais recente no Brasil?

Temos uma base de investimentos em grandes setores no País: energia renovável, saneamento básico, imobiliário, galpões logísticos e datacenter. Esses são os setores que vemos mais capacidade de expansão. Mas somos pacientes. Não queremos crescer por crescer. Se tiver uma boa oportunidade, a gente vai olhar. Estamos no setor de aluguel de equipamentos pesados, como tratores,  e estamos entrando num outro setor, chamado de multifamily, que está em expansão no mundo. Trata-se de um negócio de construir prédios inteiros para famílias morarem. O aluguel do imóvel vem com uma série de serviços: como aluguel de carro, bicicleta e serviços de entrega. Essa é uma demanda crescente. São setores que já estamos e somos pacientes com as oportunidades. Se elas vão surgir ou não, não sei.

Vocês já tem projetos de multifamily?

Sim. Adquirimos recentemente da Luggo (MRV) 9 ativos e temos 14 edifícios em construção. Em Minas Gerais e São Paulo, os prédios estão prontos. Há outros em obras no Paraná, Rio Grande do Sul, Bahia e Rio de Janeiro. Todos os que adquirimos prontos estão 100% alugados e têm demanda para os próximos. Isso é uma tendência mundial. O Brasil está um pouco atrás nisso. Aqui ainda temos muito a cultura do ‘ser dono’. É uma tendência nova de alugar em vez de ter o produto.

Mas esse não é um negócio que depende do crescimento da economia?

O negócio tem contrato de dois, três anos. São ativos que tem rotatividade grande. Procuramos ativos que tem proteção contra inflação. São contratos indexados à inflação. Mas o multifamily não é de 30 anos. Vemos uma demanda muito grande para esse mercado, que é de média renda. É um mercado muito grande no Brasil. As pessoas precisam de moradia. São ativos essenciais.

Vocês estão em setores mais consolidados, mas hoje vivemos uma demanda por novas tecnologias e transição energética. Vocês avaliam essas apostas de futuro, como hidrogênio?

Sim. Estamos levantamos um fundo de cerca de US$ 15 bilhões para investimentos nessa transição global de economia de baixo carbono. Estamos estudando investimentos em baterias e hidrogênio, por exemplo. Mas sempre olhamos o lado risco e retorno. Não somos investidor de venture capital. Investimos em setores consolidados, até mesmo pelo nosso tamanho. Imagine um fundo de US$ 15 bilhões para investir de US$ 5 milhões em US$ 5 milhões. Fica inadministrável. Outra opção nessa área de transição é investir em empresas que estão fazendo transformação de negócios. Ou seja, negócios industriais que impulsionam a redução das emissões de carbono. Haverá uma transição. Mas será algo gradual.

Desses US$ 15 bilhões, tem algo para o Brasil?

Nossos fundos são globais e uma parte vem para cá, sim. É isso que traz nossa capacidade de ser contracíclico. É ter disponibilidade de caixa e estar na hora certa e no lugar certo. Se tiver oportunidade no Brasil para transição, vamos fazer. Já estamos fazendo o parque solar e compramos a empresa de painéis solares.

A questão da guerra deve acelerar essa transição e trazer novas oportunidades de investimentos?

É uma tendência que já vinha ocorrendo até pela própria pandemia. A discussão da dependência energética já vinha ocorrendo antes da guerra. Se vai acelerar o processo, a ver. Mas ela reforça essa tendência. Isso passa pela questão global de suprimento.

Quanto vocês devem investir no Brasil neste ano?

Não temos metas de investimento. Mas, no ano passado, investimos R$ 21 bilhões no Brasil, sendo R$ 11 bilhões em novos negócios e R$ 10 bilhões em negócios existentes. No próximo triênio, temos R$ 41 bilhões contratados nos negócios do nosso portfólio. Nunca estabelecemos uma meta. Nossa meta é o retorno para o acionista.

 

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