Werther Santana/Estadão
Werther Santana/Estadão

Apesar de dificuldades, Gafisa desembolsa mais R$ 18 mi em recompra de ações

Plano de recompra de ações foi iniciado em setembro pela direção da Gafisa a mando do principal acionista

Circe Bonatelli, O Estado de S.Paulo

13 Fevereiro 2019 | 18h16

Mesmo com vendas de imóveis fracas nos últimos meses e pouco dinheiro em caixa, a Gafisa deu sequência ao polêmico programa de recompra de ações em janeiro.

De acordo com relatórios enviados à Comissão de Valores Mobiliários (CVM), a incorporadora desembolsou aproximadamente R$ 18 milhões na recompra de 1,176 milhão de ações no mês passado. Com isso, a quantidade de papéis em tesouraria subiu de 3,943 milhões para 4,747 milhões.

O plano de recompra de ações foi iniciado em setembro pela direção da Gafisa a mando do principal acionista - a gestora de recursos GWI, do investidor Mu Hak You, dono de metade da incorporadora. A outra metade está pulverizada entre diversos investidores.

A medida chama a atenção, uma vez que o programa de recompra de ações é uma iniciativa que visa à valorização dos papéis e ao aumento da rentabilidade dos acionistas, sendo geralmente adotada por empresas que têm dívida pequena e folga no caixa, o que não é caso da Gafisa.

O balanço mais recente mostra que a empresa de construção tinha dívida líquida de R$ 766 milhões, com R$ 194 milhões no fim de setembro para fazer frente a vencimentos de R$ 201 milhões nos 12 meses seguintes. De lá pra cá, a companhia demitiu metade dos funcionários, suspendeu lançamentos e passou a atrasar o pagamento de fornecedores, sofrendo, inclusive, uma ação por despejo por inadimplência do aluguel da sede.

Por sua vez, relatórios mostram que, em janeiro, a recompra de ações foi mais intensa no fim do mês, poucos dias antes de a empresa ser acusada publicamente pela Polo Capital de alterar boletos de clientes e embolsar indevidamente R$ 1,8 milhão em recebíveis que deveriam ser direcionados para pagar uma operação de financiamento.

Do outro lado do balcão de negócios, o principal beneficiado pela venda pode ter sido a própria GWI. Segundo os relatórios enviados à CVM, a recompra ocorreu ao mesmo tempo em que investidores ligados à administração diminuíram suas posições, vendendo 1,222 milhão de ações.

O movimento coincide com a venda de ações da GWI no mercado. A participação da acionista na Gafisa diminuiu de 50,17% para 49,94% no último mês. As vendas da GWI foram feitas às pressas para evitar a realização de uma eventual oferta pública para aquisição de ações (OPA), como determina o estatuto social da Gafisa quando um dos acionistas atinge uma participação superior a 50%, caso da GWI.

Mesmo assim, a GWI ainda conseguiu vender os papéis na alta. A cotação média de janeiro foi de R$ 15,8 para a ação, que, até aquele momento, acumulava uma alta de aproximadamente 50% em três meses.

Diante das dificuldades financeiras da incorporadora, a GWI já admitiu que está à procura de parceiros para uma possível alienação, integral ou parcial, de sua participação no negócio. 

Procuradas pela reportagem, a Gafisa informou que não iria se manifestar sobre a recompra de ações, enquanto a GWI não respondeu ao pedido de entrevista. 

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