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Guy Perelmuter
O Futuro dos Negócios
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Apólice de dados - Parte 1

As novas perspectivas para o tradicional seguro de veículos

*Guy Perelmuter, O Estado de S. Paulo

22 Dezembro 2016 | 08h02

A indústria de seguros existe há milhares de anos. No início do século XX arqueólogos acharam registros do Código de Hammurabi, o sexto rei da Babilônia, que contém um conjunto de leis que cobre itens como calúnia, escravidão, roubo e divórcio. O Código é de cerca de 1.750 A.C, e possui uma provisão que faz com que um comerciante que tenha obtido um financiamento para levar uma carga pelo Mediterrâneo não seja cobrado pelo empréstimo em caso de roubo ou acidente. Em outras palavras, um seguro.

Nos mais de 3.500 anos que se passaram, a indústria de seguros ganhou sofisticação e complexidade. Especialistas calculam os prêmios cobrados utilizando técnicas avançadas, e o mundo moderno apresenta oportunidades para elaboração de seguros para praticamente tudo - jóias, cavalos, obras de arte e clima são alguns exemplos. Para que seja justificado, o seguro tipicamente deve mitigar os riscos de um evento ocasional, que possa trazer consequências financeiras relevantes para o proprietário - que sente, portanto, a necessidade de buscar proteção. 

Mas e quando a probabilidade do risco se materializar começa a se tornar suficientemente pequena para que o proprietário não sinta a necessidade de buscar o seguro de forma integral, mas apenas parte dele? Ou quando o fabricante do equipamento em questão assume os riscos que usualmente são transferidos - mediante um custo financeiro - para a seguradora? 

A popularização dos carros autônomos, amplamente esperada, irá tornar esses cenários realidade. Em um estudo realizado em 2015, a KPMG estimou que nos próximos 25 anos a frequência dos acidentes de trânsito deve cair cerca de 80% e que as perdas financeiras causadas por esses acidentes irão sofrer redução de pelo menos 40%. Os executivos do setor que foram entrevistados também acreditam na redução dos prêmios pagos (71%), mas 68% acreditam que a margem do negócio não irá mudar - provavelmente porque os acidentes, embora menos frequentes, serão mais custosos em função da sofisticação dos elementos envolvidos. Carros autônomos serão necessariamente mais sofisticados e equipados que os veículos atuais.

Assumindo que a maior parte das montadoras irá se responsabilizar pelos acidentes ocorridos com seus respectivos carros autônomos - algo que parece ser o caminho que a indústria irá trilhar - então as seguradoras provavelmente irão passar a ter exatamente essas montadoras como clientes. As dezenas de milhões de indivíduos que atualmente possuem uma apólice para proteger seus carros poderão se preocupar apenas em cobrir eventos como roubo ou desastres naturais.

O próprio modelo de interação da indústria de seguros de carros pode ser alterado. Atualmente, trata-se de uma relação do tipo B2C - business to consumer, ou seja, da seguradora para o consumidor final. Mas com a tendência que começa a se desenhar de um número cada vez maior de consumidores que prefere não possuir um carro, e sim utilizá-lo conforme sua demanda através de aplicativos como Uber, Lyft e Curb, o modelo B2B - business to business, da seguradora para a montadora (ou para a provedora do serviço de uso de carros) - parece mais provável.

Semana que vem iremos prosseguir no tema, discutindo algumas das tendências e inovações em andamento na própria indústria de seguros de carros. Até lá.

GUY PERELMUTER É INVESTIDOR EM NOVAS TECNOLOGIAS, ENGENHEIRO DE COMPUTAÇÃO E MESTRE EM INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL

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