Após acordo na OMC, Brasil enfrenta problemas no Mercosul

Argentinos irritados e um chanceler brasileiro sem respostas coerentes sobre uma solução para o bloco

Jamil Chade, de O Estado de S.Paulo

26 de julho de 2008 | 14h22

O Mercosul vive uma verdadeira crise. Argentinos irritados e um chanceler brasileiro sem respostas coerentes sobre uma solução para o Mercosul. Um dia depois que o Brasil anunciou que aceitaria um acordo na Organização Mundial do Comércio (OMC), as divergências entre os dois principais parceiros do bloco se agravavam. De um lado, a delegação argentina em Genebra não disfarçava sua irritação com o Brasil e chegando a acusar Brasília de ter abandonado a política comercial bloco.  Veja também:Amorim nega mal-estar com Argentina em GenebraUE não aceita proposta da OMC para Rodada de DohaQuinto dia na OMC termina com princípio de acordo em DohaRodada Doha: entenda o que está em jogo em Genebra Lula nega 'traição' a G-20 na OMC e diz que diferenças existem De outro, o chanceler Celso Amorim ficou sem respostas coerentes sobre o futuro da aliança, mas justificando que a decisão brasileira e a posição do Mercosul "eram compatíveis".  "Temos de respeitar a avaliação dos demais. A Argentina sabe que lutamos pela posição do Mercosul. Mas, na hora da verdade, cada país tem a sua avaliação sobre o que pode aceitar", disse Amorim. "Precisamos agora conciliar interesses e chegar a uma conclusão, que acho que seria boa para todos. Isso requer muita conversa, muita paciência e muita diversão em Genebra", afirmou o chanceler.  Por fazer parte de uma união aduaneira, os dois países precisam adotar uma posição comum e cortar de forma unificada suas tarifas no setor industrial. O problema é que a Casa Rosada se recusa aceitar a redução proposta pela OMC e que, na sexta-feira, já foi aceita pelo Brasil. Índia, Argentina e África do Sul rejeitaram o acordo. O acordo prevê um corte de 54% em média de metade dos produtos que hoje o País importa. Os argentinos se recusam a aceitar, alegando que o projeto mataria sua indústria.  No centro da crise na Argentina está a proteção ao setor têxtil e de calçados. Buenos Aires acredita que não tem como garantir barreiras ao setor diante da atual proposta. O problema, segundo o Itamaraty, é que o governo brasileiro ofereceu varias soluções, todas recusadas pelos argentinos.  Na sexta, o Brasil recebeu o apoio dos demais países latino-americanos, como Chile, Uruguai, México, Colômbia, Peru e outros. Mas tenta acelerar um entendimento com a Argentina para evitar que o processo seja interrompido por causa do Mercosul. Nas semanas antes da reunião da OMC, as divergências já estavam ficando claras. Mas a esperança do Brasil era de que a Argentina cedesse. Segundo Amorim, ele tomou a decisão de aceitar o pacote baseado tanto nos interesses do Brasil como do Mercosul. Ontem, em Genebra, Amorim e o ministro das Relações Exteriores da Argentina, Jorge Taiana, mantiveram uma longa reunião para tentar solucionar o impasse, mais uma vez sem resultado. Para Amorim, "o Brasil não rompeu com ninguém". "Não sei se teremos uma solução", admitiu Amorim. Instantes depois, questionado se o Mercosul sobreviveria, respondeu afirmativamente. "O Mercosul sempre sobreviverá", disse. Sobre a aliança com os demais países emergentes (grupo conhecido como G-20), o Brasil deixou claro que a criação do bloco não seria o objetivo em si mesmo, mas a conclusão de um acordo.  Sem uma resposta para a crise, o Brasil agora espera que a pressão externa seja suficiente para convencer os argentinos a modificarem sua posição. A esperança é de que Buenos Aires possa se sentir confortável com outras partes do acordo que ainda estão sendo negociadas e que, assim, haja um entendimento.  Críticas    Mas, nos bastidores, funcionários de alto escalão do governo argentino deixavam claro que estavam enfurecidos com a atitude do Brasil de abandonar Buenos Aires num momento crítico. Membros da delegação que preferiam se manter no anonimato alegavam que o Brasil teria usado a criação do G-20 como plataforma para se promover, mas que o abandonou na hora crítica. Taiana evitou fazer uma avaliação sobre a situação. "Foi uma decisão tomada pelo Brasil. Há visões diferentes sobre o equilíbrio de um acordo", disse.  "A Argentina tem suas particularidades", afirmou a secretária de Comércio do México, Beatriz Leysegui, que sempre defendeu o corte que há dois dias o Brasil aceitou para sua indústria. "Não há um acordo no Mercosul. Mas a grande maioria dos países quer um acordo", disse. Para ela, unir a posição de Brasil e Argentina será agora "o grande desafio".  Aliança   A decisão do Brasil de acatar um acordo também rachou o G-20, grupo de países emergentes criado em 2003 para pressionar os países ricos por fazer concessões no setor agrícola.  Amorim justificou sua decisão de romper as alianças com alguns de seus principais parceiros e alerta que a criação de um grupo de países emergentes - o G-20 - não era o "fim em si mesmo". "O objetivo é a conclusão da Rodada Doha", disse.  O problema nesse caso era com a Índia, Indonésia e importadores. Esses governos querem proteções contra eventuais surtos de importações de alimentos. O Brasil, como exportador, não quer novas barreiras e aceitou um acordo que não prevê as proteções que querem os indianos.  Questionado como o G-20 se manteria, o ministro de Comércio da Índia, Kamal Nath, foi claro: "pergunte isso ao Celso (Amorim)". Ele insiste que partes inteiras do acordo devam ser modificados. Já o chanceler confirmava que o bloco jamais teve uma posição conjunta sobre o assunto. "Essa era uma de nossas limitações e sabíamos disso. Na verdade, jamais haverá um acordo entre nós sobre esse ponto. Temos posições antagônicas", afirmou.  Os venezuelanos também criticaram a proposta. "Ninguém negociará em nosso nome", atacou o ministro do Comércio, William Contreras. "Recusamos a nova proposta em sua totalidade. Não podemos aceitar nenhum número", disse. O texto havia circulado na sexta dentro de um grupo pequeno de países no qual a Venezuela não havia sido convidada a participar. A decisão do Brasil de aceitar o texto, portanto, foi duramente criticada por Caracas. Amorim, enquanto a aliança ruía, tentava manter um discurso Positivo. "Não acho que aliança precisa acabar por caso de apenas um ponto. A unidade será importante para continuar negociando. O G-20 já", afirmou. A questão, porém, é que o bloco terá de encontrar uma nova base para continuar tendo força. Essa, por exemplo, é a idéia do México.  "Conseguimos que os americanos reduzissem de US$ 22 bilhões para US$ 14,5 bilhões o teto nos subsídios agrícolas em dois anos. Isso apenas ocorreu graças à existência do G-20", completou Amorim. Mas, nos bastidores, funcionários de alto escalão do governo argentino deixavam claro que estavam enfurecidos com a atitude do Brasil de abandonar Buenos Aires num momento crítico. Membros da delegação que preferiam se manter no anonimato alegavam que o Brasil teria usado a criação do G-20 como plataforma para se promover, mas que o abandonou na hora crítica. Taiana evitou fazer uma avaliação sobre a situação. "Foi uma decisão tomada pelo Brasil. Há visões diferentes sobre o equilíbrio de um acordo", disse.  México, Uruguai, Peru e outros países são de outra opinião e apóiam o Brasil. "A Argentina tem suas particularidades", afirmou a secretária de Comércio do México, Beatriz Leysegui, que sempre defendeu o corte que há dois dias o Brasil aceitou para sua indústria. "Não há um acordo no Mercosul. Mas a grande maioria dos países quer um acordo", disse. Para ela, unir a posição de Brasil e Argentina será agora "o grande desafio".   

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