Arroz: exportação é um processo inexorável, diz Jank

Porto Alegre, 27 - Ainda vai demorar um pouco para que o Brasil consolide uma posição como exportador de arroz, mas este processo é inexorável, avaliou hoje o presidente do Instituto de Estudos do Comércio e Negociações Internacionais (Icone), Marcos Sawaya Jank. "Tenho certeza de que vamos ter condições de exportar, como ocorreu com o trigo", observou, lembrando de outros produtos agrícolas que estavam fora da pauta de exportações e hoje são negociados, como milho e leite. O setor produtivo gaúcho está empenhado em viabilizar uma primeira exportação de arroz desde o primeiro trimestre, quando já havia indicações de um excedente de produção no Mercosul. Jank será palestrante hoje, às 16h, no VI Congresso Brasileiro de Economia Orizícola, que foi aberto na quarta-feira à noite e terminará hoje, em Porto Alegre. Uma trading que participa do evento tentou adquirir arroz brasileiro no começo do ano, mas o negócio não evoluiu por uma questão de preço. O produto em casca foi ofertado acima de US$ 200 por tonelada, enquanto o mercado praticava menos que isso naquela ocasião, contou o negociador. "O grande desafio é transformar a competitividade das fazendas em exportações", comentou Jank. Os produtores podem ter desperdiçado a melhor oportunidade de retornar ao mercado externo - o Brasil já exportou arroz no passado - no começo do ano. Em palestra no congresso, o gerente de comércio da trading The Rice Company, Luciano Scoccimarro, disse que o primeiro semestre do ano é o melhor período para exportar arroz, quando a safra americana ainda não foi colhida. (Sandra Hahn, segue) O ex-secretário de Produção e Comercialização do Ministério da Agricultura, Pedro Camargo Neto, sugeriu hoje a abertura de uma ação na Organização Mundial do Comércio (OMC) contra os subsídios praticados pelos Estados Unidos na produção de arroz, que interferem no mercado internacional do grão. O Brasil ainda é país de pouca relevância para o comércio internacional de arroz. Camargo Neto será palestrante no VI Congresso Brasileiro de Economia Orizícola, que reúne 1.080 participantes em Porto Alegre. O ex-secretário vai apresentar o caso do algodão na OMC. Ele considera que o arroz pode seguir um caminho semelhante, aproveitando a experiência adquirida e os argumentos utilizados contra os subsídios concedidos à cultura nos EUA. "O subsídio ao arroz é maior que no caso do algodão", afirmou. Camargo Neto disse que não estudou o caso dos países asiáticos, que lideram o mercado mundial de arroz. Entre os principais exportadores do grão no ano passado, a Tailândia aparece em primeiro lugar, com a venda de 7,5 milhões de toneladas, seguida pelo Vietnã (3,9), Estados Unidos (3,4), China (2,1) e Paquistão (1,5). Junto ao fato de o Brasil não ser exportador, outro complicador de uma eventual ação seria o fato de que os EUA não têm a mesma expressão na venda de arroz que possuem no caso do algodão, onde responderam por 42% do comércio em 2002, segundo o dado que será apresentado por Camargo Neto no congresso. "A influência dos EUA é menor, o que torna o caso mais difícil", concordou ele. No entanto, Camargo Neto acrescentou que "a ilegalidade não fica maior ou menor de acordo com o tamanho do mercado". (Sandra Hahn, segue) Para compensar o fato de que o Brasil não exporta arroz, em uma possível ação contra subsídios na OMC, o ex-secretário de produção e comercialização do Ministério da Agricultura Pedro Camargo Neto disse que seria melhor se o País tivesse aliados nesta causa. Para ele, a participação da Argentina e Uruguai compensaria esta dificuldade do Brasil em comprovar dano causado pelos subsídios ao comércio exterior. "Chegou a hora de trabalharmos em conjunto, tanto para exportar quanto para defender junto à OMC nossos interesses", disse o presidente da Associação dos Produtores de Arroz do Uruguai, Hugo Manini, que participa do VI Congresso Brasileiro de Economia Orizícola, em Porto Alegre. O Uruguai, que exporta quase 90% de sua produção de arroz, sofre com subsídios dos EUA e principalmente com as barreiras tarifárias impostas pela União Européia, que são "inimagináveis", descreveu Manini. Do total exportado pelo Uruguai, o Brasil recebeu mais de 60% nos últimos anos. Apesar de defenderem a eliminação dos subsídios, a primeira reação dos produtores gaúchos à idéia de levar a questão do arroz à OMC é de ceticismo. "Temos que fazer uma análise", limitou-se a dizer o presidente da Federação da Agricultura do Rio Grande do Sul (Farsul), Carlos Sperotto. Ele indicou, contudo, que os custos de um processo do gênero são bastante elevados. Camargo Neto estimou que é possível utilizar parte da experiência com o algodão, que custou US$ 1,5 milhão, o que poderia reduzir a despesa financeira de uma possível causa do arroz para cerca de US$ 300 mil. "Sugerimos ao Uruguai que liderasse a ação", disse o diretor da Federação das Associações de Arrozeiros do Rio Grande do Sul (Federarroz), Marco Aurélio Tavares. Neste ano, o Uruguai exportou até agora um pouco mais da metade do volume disponível, informou Manini. O país enviou 290 mil toneladas (base casca) para fora do Mercosul, "para não prejudicar os preços no Brasil", observou ele. Outras 300 mil toneladas foram exportadas para o Brasil. (Sandra Hahn, segue) Os contenciosos na Organização Mundial do Comércio (OMC) devem servir para que a rodada de negociações de Doha produza um documento mais adequado na área agrícola, avaliou hoje o presidente do Instituto de Estudos do Comércio e Negociações Internacionais (Icone), Marcos Sawaya Jank. A abertura de um caso é importante para fazer pressão sobre o sistema, mas a estratégia deve ser analisada com cuidado, recomendou Jank. "Se você imaginar um mundo só de conflitos não se implementa nada", comentou. Jank disse que o arroz é tão subsidiado quanto o algodão. Ele lembrou, contudo, que os dois casos levados à OMC anteriormente pelo Brasil, do algodão e açúcar, ainda serão analisados pelo órgão de apelação do organismo. "O que gostaria que acontecesse é que estes casos (algodão e açúcar) servissem para melhorar o acordo agrícola na OMC", afirmou. Se os dois exemplos não resultarem em mudanças, pode ocorrer um aumento de casos na OMC, estimou ele. (Sandra Hahn, segue) Os produtores argentinos e uruguaios sinalizam com dificuldades no plantio de arroz na safra 2004/05, por causa da falta de chuvas, que também preocupa os arrozeiros gaúchos. A área a ser semeada na Argentina deve cair 17%, para 130 mil hectares, "numa redução consorciada entre o setor produtivo e São Pedro", brincou o presidente da Federação da Agricultura do Rio Grande do Sul (Farsul), Carlos Sperotto, durante o painel que traçou as perspectivas da safra no Mercosul, no VI Congresso Brasileiro de Economia Orizícola. Os produtores argentinos projetam uma colheita entre 850 e 900 mil toneladas, ante as 920 mil toneladas da última safra. No Uruguai, entre 15 e 20 mil hectares devem ser descartados se a chuva não aumentar, disse o presidente da Associação dos Produtores de Arroz do país, Hugo Manini. O país vizinho espera colher 1,09 milhão de toneladas, com rendimento médio de 6.240 quilos por hectare. O Paraguai deve destinar 42 mil hectares à cultura, o suficiente para garantir seu abastecimento interno. No Rio Grande do Sul, a Emater observa que há expectativa de redução de área, principalmente na Fronteira Oeste, Campanha e parte da região central, onde mais de 60% das lavouras dependem da água acumulada em barragens. O Estado fará, de forma simbólica, a abertura oficial do plantio da próxima safra no dia 25 de setembro, com um evento em Tapes. As entidades rurais dos países do Mercosul que representam os arrozeiros aprovaram, durante o congresso, um documento com propostas para melhorar o equilíbrio entre a oferta e demanda do grão no bloco. A "Carta de Porto Alegre" pede a suspensão das importações do produto de fora do Mercosul, já que o bloco é auto-suficiente, a elevação da Tarifa Externa Comum (TEC) para 35% - hoje está em 11,5% para arroz em casca e 13,5% para o beneficiado -, a liberação do comércio de insumos entre os países, a inclusão do arroz na pauta das negociações internacionais, a criação de uma câmara setorial do produto no bloco e a adoção do arroz pela Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) em seus programas prioritários. Os arrozeiros também agendaram uma próxima reunião do Mercosul, que será no dia 9 de setembro na cidade de Parana, na província argentina de Entre Ríos. (Sandra Hahn, fim)

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