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Guy Perelmuter
O Futuro dos Negócios
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As novas bolas de gude

A Era da Nanotecnologia está aqui - e com ela, incríveis possibilidades para diversos setores da economia

*Guy Perelmuter, O Estado de S.Paulo

22 Fevereiro 2018 | 05h05

Em maio de 1998 um artigo científico intitulado "Recombinant Growth" (ou "Crescimento Recombinante") foi publicado no "Quarterly Journal of Economics", uma importante publicação editada pelo Departamento de Economia da Universidade de Harvard, nos Estados Unidos. Seu autor, Martin Weitzman - PhD em Economia pelo MIT em 1967 - sugere que os limites do crescimento de uma economia talvez não sejam estabelecidos pela capacidade de geração de novas ideias, mas sim pela capacidade de transformação destas ideias em projetos práticos e utilizáveis. Weitzman criou um modelo matemático no qual os elementos já existentes na economia - indústrias, equipamentos, automóveis e laboratórios, por exemplo - são expandidos e combinados com as inovações, dando forma a um novo padrão de crescimento e evolução que se baseia justamente na recombinação de todas essas componentes.

De fato, estamos vivendo uma era de inovações e avanços que ocorrem a uma velocidade sem precedentes, através da combinação de novas técnicas com plataformas já existentes. A manipulação de elementos individualmente - como sensores, memórias, processadores, dados ou redes - e sua combinação para criação de sistemas, programas, equipamentos ou dispositivos - abre caminho para novos segmentos de negócios: carros autônomos, impressoras 3D, robôs, drones, cidades inteligentes, agrotecnologia, e tantos outros que já discutimos neste espaço. Mas o que aconteceria se, ao invés de desenvolvermos novas tecnologias e combinássemos as mesmas entre si, decidíssemos manipular e combinar os blocos mais básicos da matéria - os átomos - a exemplo do que está sendo feito no ramo da biotecnologia com o DNA?

A ideia de manipular átomos para criação de novos materiais e máquinas começou a ser articulada na literatura no início da década de 60, mas os equipamentos e técnicas disponíveis para transformar esta visão em realidade ainda iriam demorar a surgir. Apenas na década de 80 foi possível visualizar detalhadamente, através de um microscópio de corrente de tunelamento (ou STM - scanning tunneling microscope) átomos e suas ligações. Este feito deu aos inventores do equipamento, o físico alemão Gerd Binnig e o físico suíço Heinrich Rohrer, ambos do Laboratório de Pesquisas da IBM em Zurique, o Prêmio Nobel de Física de 1986. A manipulação efetiva dos átomos levou mais duas décadas, fazendo com que o século XXI se tornasse candidato a ser o período de maior inovação na área de nanotecnologia.

O nome nanotecnologia está ligado ao tamanho dos objetos manipulados, que encontram-se em escala atômica e são mensurados em nanômetros, algo como um bilionésimo de um metro. Uma folha de papel típica tem mais de cem mil nanômetros de espessura. Em um artigo publicado na revista National Geographic de junho de 2006 a repórter Jennifer Kahn compara um nanômetro e um metro de forma ilustrativa: seria o equivalente a comparar uma bola de gude com o planeta Terra.

Como era de se esperar, o surgimento de uma nova ciência com potencial tão relevante também gerou preocupações - afinal, quais as consequências sobre a saúde e o ecossistema no caso do desenvolvimento de novos materiais ou modificação de materiais já existentes? Em julho de 2004 a tradicional Royal Society, fundada em Londres em 1660 com o objetivo de promover o conhecimento científico, publicou um estudo sobre o assunto, chamado "Nanoscience and nanotechnologies: opportunities and uncertainties" (ou "Nanociência e nanotecnologias: oportunidades e incertezas), no qual são destacados não apenas os potenciais benefícios da nova tecnologia mas também a necessidade de regulação e controle com relação à exposição do ser humano às nanopartículas.

Como os governos mundiais estão atuando neste novo setor e quais as estratégias com Universidades, centros de pesquisa e empresas é nosso tema para semana que vem. Até lá.

*Fundador da GRIDS Capital, é Engenheiro de Computação e Mestre em Inteligência Artificial

 

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