Ascensão e queda da Time Warner

Time Warner rejeitou oferta de compra de Rupert Murdoch na semana passada; os dois representam modelos distintos na mídia

Michael Wolff, USA Today

22 de julho de 2014 | 18h26

Time Warner e Rupert Murdoch, que chegaram ao fim de um confronto, representaram dois distintos modelos de mídia moderna nos últimos 30 anos.

A Time Warner foi o bastião de poder do establishment liberal extremo - Costa Leste e Hollywood. Murdoch tem sido o insurgente, buscando não só tirar o poder do establishment, mas desafiar suas tendências liberais. A inquietante ausência de protestos na semana passada da parte desse establishment, tanto da empresa que ele tinha em mira como do mundo da mídia liberal - não houve críticas violentas com relação a Murdoch, o grande inimigo, ou o monstro da direita, pronto a acumular mais poder - sugerem que ele saiu vencedor. Ou que a Time Warner se rendeu.

Naturalmente, a Time Warner não é mais a mesma, não é a mais a importante e influente empresa de informação e notícias americana, mastodonte cultural da 20th Century Fox. Essa seria a Time, empresa editora que a Time Warner bruscamente desmembrou há alguns meses. (Murdoch, curiosamente, ou alarmantemente, pode estar interessado em adquirir separadamente a Time através da sua empresa News Corporation, que detém todos os seus direitos de publicação).

Num certo sentido a união da Time e da Warner, em 1989, que criou um conglomerado de mídia moderno, de múltiplas plataformas - teve a ajuda do próprio Murdoch.

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Murdoch, nas sombras da Time Warner e sempre invejoso dela, criou sua própria empresa de mídia integrada, combinando rede de TV, estúdio de cinema e impressão
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Em 1984, Murdoch, o insurgente australiano proprietário de uma série de jornais e revistas, propôs comprar a Warner Communications. Steve Ross, antigo agente funerário e dono de estacionamento que dirigia a Warner, teve de gastar para manter Murdoch fora. O custo da manobra enfraqueceram a Warner, tornando-a mais vulnerável a uma futura oferta de aquisição hostil. A Time, por seu lado, então a mais bem sucedida empresa de mídia - a Google da época - achava que suas reservas também a deixavam vulnerável a uma aquisição hostil. Daí veio a fusão com a Warner.

Este pacto de mútua proteção criou a maior companhia do globo a operar em todos os setores de mídia, nos campos produção e distribuição verticalmente integrada. A maior empresa de Nova York, definindo mídia como uma máquina de marketing e entretenimento e notícias. Por um momento, a Time Warner era até uma companhia avançada tecnologicamente, com iniciativas no campo da TV interativa e a criação do primeiro website comercial, o Pathfinder. Foi também um local terrivelmente agitado, com seus grupos rivais e traições, estilo Senhor das Moscas.

Murdoch, nas sombras da Time Warner e sempre invejoso dela, criou sua própria empresa de mídia integrada, combinando rede de TV, estúdio de cinema e impressão. Grandes talentos foram para a Time Warner, os fracassados e as mediocridades para Murdoch. A Time Warner tinha prestígio; Murdoch era um pouco embaraçoso. A TW era o grande potencial da mídia, Murdoch era a mídia mais chã.

A Time Warner comprou a Turner Broadcasting e adquiriu a CNN, que Murdoch sempre desejou comprar. Como resultado, Murdoch lançou a Fox - tese e antítese.

Na Time Warner, os egos monstruosos e os feudos armados tornaram o clima mais beligerante. A empresa de Murdoch, com seus talentos mais humildes e o controle do chefão, era mais disciplinada. A Time Warner, que propôs pela primeira vez a ideia de uma sinergia de mídia, tornou-se o alvo daqueles que resistiam a isso. Murdoch, com sua palavra equivalendo à de Deus para seus subalternos, criou uma empresa de esporte por cabo, rede de filmes que na verdade eram uma sinergia, de tranquila administração.

A Time Warner, com muita arrogância, fundiu em 2000 com a AOL, na época a companhia líder da Internet. Quando a poeira baixou e a bolha das ponto.com estourou, não só o preço das ações da Time Warner desabou, mas a também a companhia. De cima a baixo, isto jamais existiu antes uma empresa tão autodestrutiva.

Jeffrey Bewkes, que tornou-se o CEO da companhia em 2006, mas já assumira a responsabilidade alguns anos antes, é formado em uma universidade americana de prestígio (Yale) e um técnico erudito em termos de negócios, que evita as armadilhas dos sonhos visionários. Sob todos os aspectos, o oposto de Murdoch. Ele se orgulha de saber os erros da sua própria companhia. Seu trabalho foi não só colocá-la na linha, mas expurgá-la. Não é demais achar que sua administração teve algo a ver com vingança. Foi uma grande limpeza, e ele se desfez do cabo, internet e editora. A Time Warner passou a personificar a nova companhia enxuta adotada por praticamente todos, menos por Murdoch. Bewkes era direto com relação a isto: seu trabalho era criar valor acionário, o foco era aumentar o preço das ações e no final conseguir um bom negócio. Um vendedor realista.

Murdoch é e sempre foi um comprador. Sua única razão de ser é criar regularmente uma instituição. Parte da sua obsessão com o papel dos filhos é que deve ser uma instituição Murdoch.

Bewkes transformou a Time Warner numa instituição no estágio final - um lugar no qual ninguém acreditaria, que deveria ser fechado, um lugar que ninguém teria saudade.

Um assunto da era atual no campo da mídia é o desaparecimento da influência e a ambição do magnata e a ascensão dos administradores e tecnocratas que pacientemente vêm reduzindo a grandiosidade do magnata.

Não faz muito tempo Bewkes, e muitos outros do setor, não consideravam Murdoch, atolado no escândalo de escutas telefônicas na Grã-Bretanha, o último suspiro de uma era que chegava ao fim. Em vez disto, o magnata continua vivo.

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