Atraso coloca em dúvida safra cheia de café no Brasil--mercado

O fluxo de café nas regiõesprodutoras do Brasil permanece lento, apesar do tempo bom paraa colheita, disseram compradores na terça-feira, e algunsafirmaram que a safra pode ser menor do que a esperada porconta do período seco no ano passado. "O que nós estamos vendo muito claramente é que a colheitaestá um pouco menor do que nós imaginávamos", disse Lucio deAraújo Dias, trader da Cooxupé, a maior cooperativa de café domundo. Em maio, a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab)estimou a produção brasileira em 45,5 milhões de sacas de 60quilos. Mas analistas privados e compradores pressionaram omercado com estimativas superiores a 50 milhões de sacas, o querepresentaria uma safra recorde, superando as 48 milhões desacas da colheita de 2002/03. Mas, com as atividades de venda calmas durante o que seriao pico da colheita, alguns compradores dizem que a perspectivapara safra pode não ser tão brilhante quanto inicialmenteesperado. "Eu acho que as estimativas da Conab serão um bom reflexoda realidade", disse Dias, sobre a previsão que foi consideradamuito baixa por muitos dos operadores privados da indústria. Em maio, a Cooxupé disse esperar a produção de 46 a 48milhões de sacas, mas Dias afirmou acreditar que o númeroficaria mais próximo de 45 a 47 milhões de sacas. Ele afirmou que as entregas nos armazéns da cooperativaestavam cerca de 16 por cento abaixo do registrado no mesmoperíodo de 2006. Aquela safra, como a atual, ocorreu durante o período dealta do ciclo bianual do café, na qual a produção totalaumenta, para diminuir no ano seguinte, enquanto as plantasrecuperam suas força. No ano passado, de produção menor, oBrasil colheu 33,74 milhões de sacas. As chuvas chegaram mais tarde do que o de costume no finaldo ano passado, atrasando a florada, o que, por sua vez,atrasou a colheita em cerca de seis semanas. AINDA É CEDO Vando Silvestre, da exportadora Unicafé, disse que a faltade mão-de-obra havia contribuído para o atraso na colheita. "Eles estão trabalhando em outras culturas e não hátrabalhadores o suficiente para o café", afirmou. Algunstrabalhadores podem ter se desencorajado porque teriam queabrir mão de benefícios sociais, acrescentou. Produtores alegam que as políticas de salário mínimotornaram a mão-de-obra muito mais cara. Luis Alfredo de Almeida, da cooperativa Café Poços, emPoços de Caldas (MG), disse que uma safra de bom tamanho aindaé esperada por ali, mas que tinha ouvido que outras regiõesdevem produzir menos do que o previsto. "Agora nós estamos tendo uma idéia melhor da extensão (daseca do ano passado), que é maior do que se esperava", afirmou,acrescentando que o café estava trocando de mãos entre 235 e240 reais por saca de 60 quilos. Outros disseram que ainda era muito cedo para se ter umaclara idéia do tamanho da safra. "O mercado tem estado muito calmo. Nós não temos compradopraticamente nada e vendido praticamente zero", disse o traderJohn Wolthers, da exportadora Comexim, no porto de Santos. "Nãovi nada como este ano", afirmou, referindo-se ao início lentoda comercialização. "Nós dissemos 50 milhões de sacas, e eu ainda acreditonisso. Nós ficamos surpresos com os atrasos na nova safra. Nóstemos que ser pacientes", afirmou. Sérgio Takehara, trader na Coimex, afirmou que o aperto naoferta seria ressaltado com uma safra menor, especialmente nomercado doméstico, onde os estoques caíram a níveis muitobaixos neste ano. "O fato que eu acho mais importante disso tudo é que, mesmocom 50 milhões, o mercado é equilibrado. Então qualquerproblema que tivermos com essa safra, mesmo que seja uma quebrade 5 por cento, vai dar impacto relativamente grande nomercado", disse ele.

PETER MUR, REUTERS

19 de agosto de 2008 | 16h20

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