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Avião movido a energia solar vai cruzar o Atlântico para iniciar volta ao mundo

Dois pilotos irão dos Estados Unidos à Europa em uma viagem de cinco dias e cinco noites em uma pequena cabine 70 quilômetros por hora

Thomas Mulier e Patrick Winters, Bloomberg

25 de setembro de 2014 | 11h44


GENEBRA - Dois pilotos suíços planejam dirigir um avião movido a energia solar ao redor do planeta, desafiando a resistência humana e as fronteiras de uma tecnologia cujo potencial ainda tem muito a ser explorado pela indústria, segundo aviadores.

Bertrand Piccard e Andre Borschberg vão se alternar na pilotagem de um ultraleve chamadoSolar Impulse (impulso solar), do tamanho de um Boeing 747 jumbo, mas com o peso de um carro tipo van.

Depois de cruzar os Estados Unidos e completar um voo noturno, os pilotos agora treinam para viajar durante cinco dias e noites seguidos, e se preparam para cruzar oceanos em uma pequena cabine que viaja a 27 mil pés e 70 km/h. As empresas patrocinadoras, entre elas a Swiss Watchmaker Omega e Schindler Holding AG (SCHP), esperam que o projeto de US$ 160 milhões estimule um salto industrial no uso de energias renováveis e na economia de eletricidade. A  Schindler está desenvolvendo elevadores movidos a energia solar.

"Este é o primeiro avião com duração ilimitada: não há limites em termos de horas de voo", disse Borschberg, 61, no hangar da aeronave em Payerne, Suíça. "O avião comporta apenas um piloto. A principal questão é como torná-lo sustentável também", brinca ele.

Os pilotos partem para a viagem de cerca de 35 mil quilômetros em março do ano que vem. A decolagem será no Golfo Pérsico em direção ao Leste; o avião cruzará a Índia, a China e os Estados Unidos, antes de retornar via Europa ou África.

Sonecas

Nos voos mais curtos, de até 24 horas, os pilotos não dormirão. Em trechos mais longos, poderão tirar sonecas de 20 minutos a cada três ou quatro horas, mas apenas sobre áreas não habitadas.

A viagem toda vai durar o equivalente a 25 dias, espaçados em vários meses. A cabine é despressurizada, e o piloto deverá usar uma máscara de oxigênio o tempo todo.

"No mundo de hoje, metade da energia que usamos é desperdiçada pelo uso de tecnologias ultrapassadas, máquinas velhas, lâmpadas incandescentes, casas mal planejadas em relação à luz natural, sistemas elétricos e de aquecimento ineficientes, coisas do tipo", observa Piccard, 56. "O que o Solar Impulse mostra é que a solução existe, e pode ser aproveitada para criar novos empregos. É assim que as pessoas serão motivadas. De repente, aparecem empresas com novos negócios nessa área", completa.

Bayer AG ajudou a desenvolver os componentes de fibra de carbono para reduzir o peso do avião. A gigante alemã da indústria química também desenvolveu uma espuma isolante que protege as baterias da baixa temperatura, que durante os voos pode chegar a -40 graus. Essa espuma isolante começa a ser usada também em refrigeradores e freezers.

Treinamento de ioga

O avião possui mais de 17 mil células solares fabricadas pela corporação Total SA's (FP) SunPower, que foram impressas sobre um filme de resina à prova d'água concebido por uma empresa química belga, a Solvay SA. O material é mais fino que um papel e reveste as asas.

"Se essas células solares fossem colocadas em um avião normal, serviriam apenas para a energia gasta no sistema de entretenimento, como as televisões com vídeo a bordo", explica Piccard.

Ambos pilotos foram bem-sucedidos nas simulações de voos de 72 horas, e têm cinco meses para elevar a resistência para 5 dias de voo. Para prevenir desvios de rota durante as sonecas, o Solar Impulse foi equipado com um sistema de alerta ao aviador se a aeronave sair do prumo. Os pilotos também estão sendo assessorados por um iogue indiano e um clínico suíço: praticam ioga, exercícios de respiração e auto-hipnose para manter as capacidades e o ânimo intactos.

A Nestlé preparou alimentos especiais para a jornada, já  que os pilotos precisam de mantimentos secos, que possam ser armazenados em altas variações de temperatura - entre 35 graus e abaixo de zero à noite. O avião possui um toalete acoplado, o que representa um avanço em relação ao modelo anterior, em que os aviadores precisavam usar garrafas para essa função.

Piccard e Borschberg afirmam que a aeronave é uma mensagem para a indústria de tecnologias renováveis sobre como é possível tomar medidas para uma maior eficiência energética. Este ano, o projeto ganhou o apoio da empresa suíça ABB Ltda. (ABBN), a maior fabricante do mundo de equipamentos que convertem energia solar em eletricidade.

Diversão familiar

Borschberg, antigo membro da força aérea suíça, entrou para o projeto Solar Impulse em 2004, junto a Piccard, um suíço de família aventureira. O avô de Piccard, Auguste, foi a primeira pessoa a chegar à estratosfera; seu pai, Jacques, mergulhou nas águas mais profundas do mundo, na Fossa das Marianas; e Bertrand foi o primeiro a dar a volta ao mundo em um balão de ar quente.

A jornada coincide com a próxima conferência das Nações Unidas sobre mudanças climáticas, em Paris. Os pilotos têm conversado com organizações internacionais ligadas ao tema a respeito da possibilidade de uso político do projeto, contou Piccard. O projeto Solar Impulse também lidera uma petição para pessoas apoiarem tecnologias limpas.

"Esperamos que cada vez mais pessoas se unam a nós", disse ele. "Nosso objetivo não é uma revolução na aviação, é uma revolução na mente das pessoas a respeito da tecnologia limpa."/Tradução de Livia Almendary

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