Arnd Wiegmann|Reuters
Arnd Wiegmann|Reuters

Banco J.Safra Sarasin vai comprar BSI do BTG, diz jornal

O valor da transação não foi revelada, mas jornal alemão indica que também estavam na corrida os bancos Credit Suisse e Julius Bär

Jamil Chade, correspondente, O Estado de S.Paulo

13 de janeiro de 2016 | 15h23

GENEBRA - O BTG Pactual vai vender o banco de investimentos na Suíça, BSI, para outro banco controlado por brasileiros, o J.Safra Sarasin. A informação é do jornal alemão Handelszeitung que, em sua edição de hoje, aponta que o negócio já estaria fechado. Os bancos, porém, não confirmam. 

"O BTG Pactual fechou acordo com o J.Safra Sarasin. Julius Baer também estava interessado, mas desistiu das negociações", diz a matéria. O valor da transação não foi revelada, mas indica que a corrida ainda contava também com o Credit Suisse, além do Julius Bär. 

Parte da pressão pela venda teria vindo das autoridades de controle do mercado financeiro suíço, a FINMA, temerosa da possibilidade da falência do BTG diante da prisão de André Esteves em novembro.

Fundado em 1841, o Sarasin é um dos mais antigos bancos da Suíça. O Grupo Safra, porém, investiu US$ 1 bilhão para aumentar sua participação acionária e a fusão acabou ocorrendo em 2013. Hoje, ele emprega cerca de 1,9 mil funcionários e administra ativos de US$ 140 bilhões. 

No mês passado, o Estado revelou que a agência reguladora dos bancos na Suíça (conhecida por sua sigla FINMA) resistiu à proposta de André Esteves de adquirir o BSI. O negócio apenas foi concluído quando uma série de condições legais envolvendo o banqueiro foram esclarecidas e, acima de tudo, quando uma "intervenção oficial" de Brasília ocorreu. O temor dos reguladores do mercado financeiro suíço era de que, ao permitir a entrada de Esteves em sua praça financeira, estariam abrindo as portas para negócios envolvendo a Petrobrás. 

Em meados de 2014, o BTG Pactual anunciou a compra do BSI. Mas o aval da Finma - a Autoridade Federal de Vigilância do Mercado Financeiro - levaria mais de um ano para ser dado, um prazo fora do processo normal de aprovação de compras de bancos. Um dos critérios avaliados era o das garantias de uma "atitude irrepreensível" da parte dos dirigentes do banco brasileiro. 

Oficialmente, a assessoria de imprensa da FINMA se recusa a fazer qualquer tipo de comentário sobre o processo de aprovação. Mas apenas da a entender que, com Esteves fora do BTG, não haveria mais motivos para pensar em uma medida contra a compra.

Tudo começaria no dia 14 de julho de 2014, quando o grupo italiano Generali anunciaria que havia finalmente encontrado um comprador para o BSI, um banco com sede em Lugano, criado em 1873 e colocado à venda em 2012.

O BTG Pactual, assim, voltava a atuar na Suíça, depois de uma experiência alguns anos antes. Em 2006, Esteves havia vendido seu banco ao UBS por US$ 3,1 bilhões. Em 2009, o UBS abandonaria o Brasil por conta da crise internacional e o banqueiro recompraria sua própria instituição por US$ 2,5 bilhões. 

Agora, ele havia comprado um banco com um forte desconto e, por US$ 1,5 bilhão, levaria uma instituição que administrava quase US$ 90 bilhões.

Mas a compra, que parecia selada, começaria a sofrer uma série de obstáculos. O primeiro era o processo que ainda corria contra o BSI na Justiça americana, na verdadeira cruzada liderada por Washington contra o fato de os bancos suíços terem ajudado a promover a evasão fiscal de milhares de contribuintes americanos. Em março de 2015, o BSI fecharia um acordo com a Justiça dos EUA, depositando US$ 211 milhões em multas. 

Resolvida a questão americana, Esteves seria então denunciado por um ex-funcionário do BTG Pactual, Zeljko Ivic. O ex-gerente do banco e que acionava o banqueiro por US$ 20 milhões em um tribunal de Hong Kong, alertou a FINMA sobre as irregularidades de seu ex-chefe brasileiro. 

Com a ajuda do mesmo advogado que defende Edward Snowden, Ivic apresentou indícios aos suíços de que Esteves havia sido multado em 350 mil euros em 2012 por um tribunal da Itália. O brasileiro teria comprado ações de um produtor italiano de carnes, já sabendo que ela planejava uma joint-venture com uma concorrente brasileira.  

A compra havia ocorrido em 2007, quando o brasileiro atuava pelo banco UBS. Com informações privilegiadas, ele comprou ações da empresa Cremonini, antes de sua fusão com a JBS. 

Petrobrás. Mas o principal obstáculo viria do Brasil e de suas relações com a Petrobrás. Enquanto estudava a fusão, a agência de fiscalização abriu investigações contra bancos na Suíça no caso das contas de ex-diretores da Petrobrás que usaram a praça financeira de Genebra e Zurique para lavar dinheiro de corrupção. No total, três instituições financeiras na Suíça foram identificadas como tendo fracassado em impedir as irregularidades e podem ser punidas. 

No início de 2015, o Ministério Público da Suíça informou que cerca de 300 contas com mais de US$ 400 milhões em 30 bancos foram congelados como resultado das investigações sobre a Petrobrás. Nas delações de alguns dos envolvidos, bancos como Pictet, HSBC, Joseph Safra, Julius Bär e outros foram citados como tendo sido usados para transferir milhões de dólares. Quem passou as informações para o MP foi, em parte, a FINMA.

Segundo a Procuradoria da Suíça, a praça financeira do país "foi seriamente afetada pelo escândalo" da Petrobrás e, portanto, uma série de medidas foi tomada. A Associação de Bancos Suíços também confirmou ao Estado que as instituições financeiras foram "instruídas" a evitar abrir contas e manter qualquer tipo de relação com pessoas ligadas à Petrobrás ou ao escândalo.

Internamente, o órgão de supervisão decidiu blindar o mercado financeiro suíço de qualquer contaminação da Lava Jato. A ordem interna era a de impedir que Esteves tivesse um cheque em branco para atuar na praça suíça, por meio de um banco privado.

A manobra para convencer a FINMA foi a de dar garantias de que o BTG não teria o poder de intervir na gestão de um dos bancos mais antigos da Suíça. Assim, aos reguladores, o BSI insistiu que "teria sua própria administração com seu conselho de diretores independentes". O recado era de que os novos controladores não teriam mãos livres com o banco no mercado financeiro suíço.

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