Stefano Rellandini/Reuters - 1/7/2016
Stefano Rellandini/Reuters - 1/7/2016

Banco mais antigo do mundo, fundado em 1472, pode estar com os dias contados

Depois de desempenho ruim em teste de saúde financeira, o banco italiano Monte dei Paschi di Siena pode ser engolido pelo rival UniCredit; mudança ameaça a economia da cidade de Siena

Gaia Pianigiani e Jack Ewing, The New York Times

18 de agosto de 2021 | 10h00

SIENA, Itália - No mês passado, o Banca Monte dei Paschi di Siena, o banco mais antigo do mundo, adquiriu uma outra distinção: a de credor mais fraco da Europa.

O banco teve o pior desempenho em um teste de saúde financeira realizado por reguladores europeus, o último capítulo sombrio de uma longa saga de negócios malfadados, travessuras financeiras, delitos criminais e até mesmo uma morte misteriosa.

O teste de estresse realizado pelos reguladores, o qual demonstrou que uma recessão severa destruiria o capital do banco, forçou o governo italiano a enfrentar uma verdade desagradável: a trajetória de mais de cinco séculos do Monte dei Paschi está chegando ao fim. Com estímulo de Roma, o UniCredit, um dos maiores bancos da Itália, disse no mês passado que estava em negociações para comprar o Monte dei Paschi, sob a condição de que o governo ficasse com todos os créditos podres.

O Monte dei Paschi, fundado em 1472, provavelmente sobreviverá como marca em agências bancárias na Itália central, e os clientes não notarão muita diferença, pelo menos no início. Mas o banco deixará de ser uma entidade autônoma e um lembrete vivo de que os mercadores italianos do Renascimento basicamente inventaram os bancos modernos. As operações do banco serão gerenciadas a partir da sede do UniCredit em Milão, em vez do escritório em forma de fortaleza do Monte dei Paschi no bairro antigo de Siena. O título de banco mais antigo provavelmente passará para o Berenberg Bank, fundado em Hamburgo, Alemanha, no ano de 1590.

Os problemas do banco são uma distração indesejável para Mario Draghi, primeiro-ministro italiano e ex-presidente do Banco Central Europeu, que agora tenta promover reformas e acabar com a imagem da Itália como perpétua retardatária econômica da zona do euro.

A eliminação do Monte dei Paschi, que foi efetivamente nacionalizado após um resgate do governo, “liberaria recursos, tempo e capital político para questões mais importantes”, disse Lorenzo Codogno, ex-economista-chefe do tesouro italiano que agora é consultor independente. “Há uma forte pressão política para encontrar uma solução o mais rápido possível”.

Mas, para Siena e arredores, os problemas do Monte dei Paschi são um baque psicológico e também econômico. Poucos bancos estão tão envolvidos com a riqueza e a identidade de suas comunidades quanto o Monte dei Paschi esteve em seu apogeu. Ele continua sendo o maior empregador privado de Siena, e a fundação que era sua proprietária aplicava os lucros bancários em uma ampla variedade de atividades cívicas, como jardins de infância, serviços de ambulância e até mesmo os trajes que os clãs rivais usavam nas procissões que antecedem o Palio, a corrida de cavalos disputada duas vezes a cada verão na praça central de Siena.

“O Monte dei Paschi faz parte da carne e do sangue da cidade”, disse Maurizio Bianchini, jornalista local, historiador do Palio e ex-chefe de comunicações do Monte dei Paschi. “Do ponto de vista humano, é como se o banco fosse um ramo de todas as famílias de Siena”.

Dificuldades surgiram após aquisição mal sucedida

A sobrevivência do Monte dei Paschi está em dúvida há anos. Seus problemas começaram em 2008, depois que o banco pagou mais do que poderia para adquirir um rival e se tornar o terceiro maior banco da Itália, depois do Intesa Sanpaolo e do UniCredit.

Em 2013, enquanto a polícia investigava alegações de que executivos do banco estavam escondendo perdas crescentes dos reguladores e acionistas, David Rossi, diretor de comunicações do Monte dei Paschi, foi encontrado morto em um beco abaixo da janela de seu escritório - aparentemente, um aparente suicídio. Membros da família de Rossi estavam convencidos de que ele fora morto por saber demais, mas a polícia nunca encontrou evidências conclusivas de crime.

Em 2019, mais de uma dúzia de executivos do Monte dei Paschi, Deutsche Bank e Nomura foram condenados por usar ilegalmente derivativos complexos para encobrir os problemas do banco italiano. Eles apelaram da decisão.

Empregos em Siena estão ameaçados

A maioria dos bancos com os problemas do Monte dei Paschi teria sido vendida há muito tempo, mas, para o povo de Siena, fechar o acordo proposto pelo UniCredit seria como leiloar parte de sua identidade. A cidade também sofrerá em termos econômicos. A venda para o UniCredit deve ocasionar até 5 mil cortes de empregos, um terço do total de postos de trabalho, de acordo com reportagens da imprensa italiana. O UniCredit se recusou a comentar sobre as demissões que podem ocorrer.

“A cidade está enfurecida”, disse um homem de 80 anos, que não quis revelar seu nome, enquanto conversava com amigos nos degraus de uma filial do Monte dei Paschi no centro de Siena. Ceder o controle para o UniCredit de Milão, disse ele, “seria como perder uma filha”.

Os testes de estresse bancário publicados em julho pelo Banco Central Europeu expuseram toda a insistente vulnerabilidade do Monte dei Paschi, apesar das múltiplas recapitalizações e planos de recuperação. No caso de uma recessão severa que durasse até 2023, o capital do banco seria reduzido quase a zero, de acordo com o teste de estresse. O banco precisaria de “bem mais de” 2,5 bilhões de euros, ou US $ 2,9 bilhões, em capital novo, disse Daniele Franco, o ministro da Economia italiano, ao Parlamento neste mês.

Ainda assim, muitas pessoas em Siena se recusam a aceitar que o meio milênio de independência do Monte dei Paschi possa estar para acabar. A potencial venda para o UniCredit se tornou um tema das eleições municipais e parlamentares que se realizarão em outubro e pode jogar a favor da Liga, partido populista de direita que já apoia o prefeito de Siena, Luigi De Mossi.

De Mossi recentemente disse a repórteres que o banco “não era um supermercado” onde o UniCredit pudesse escolher apenas os ativos que quisesse e deixar o resto para o governo. O futuro do banco, disse ele, é uma “questão social e política que diz respeito não apenas a Siena, não apenas à Itália, mas à Europa”.

Mas outros líderes dizem que está na hora de Siena seguir em frente. “Os testes de estresse do Banco Central Europeu são uma espécie de prova cabal do fato de que o banco não consegue mais se manter sozinho”, disse Enrico Letta, ex-primeiro-ministro da Itália que, após uma passagem pela academia, voltou à política como candidato ao Parlamento representando as províncias de Siena e Arezzo.

Letta argumenta que, embora os bancos ainda sejam grandes empregadores, a cidade deve investir em sua outra força tradicional, a saúde. A farmacêutica britânica GlaxoSmithKline tem um importante centro de pesquisa em Siena que desenvolve vacinas para doenças prevalentes em países mais pobres, como a febre tifóide.

“Siena queria ser a capital das finanças”, disse Letta. “Siena pode ser a capital das ciências da vida”. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.