Barreiras fecharam 600 importadoras na Argentina

As barreiras alfandegárias já provocaram o fechamento de 600 empresas importadoras na Argentina, de acordo com a Câmara de Importadores da República Argentina (Cira). Além de esfriar as relações com o Brasil e prejudicar os exportadores brasileiros, as restrições impostas pelo governo da presidente Cristina Kirchner afetam as pequenas e médias empresas argentinas, tanto no comércio interno quanto nas exportações.

MARINA GUIMARÃES, CORRESPONDENTE, Agencia Estado

29 de agosto de 2013 | 15h44

"As empresas pequenas e médias são as que estão tendo problemas. Recebemos ligações destas empresas todos os dias", afirmou o presidente da Cira, Diego Peréz Santiesteban, em entrevista a correspondentes estrangeiros, nesta quinta-feira, 29. Santiesteban detalhou que o fechamento das empresas começou em fevereiro de 2012, quando o governo adotou o instrumento denominado Declarações Juramentadas Antecipadas de Importação (Djai), que funcionam como licenças generalizadas para a introdução de mercadorias.

"As indústrias locais têm problemas com a falta de insumos, os quais não são levados em conta pelo governo, que contabiliza somente os números macro dos resultados da balança, não os das empresas", afirmou. De acordo com ele, há empresas somente de seis setores poupadas pelas barreiras porque representam alto valor agregado nas exportações: as montadoras de automóveis; as eletroeletrônicas da Zona Franca da Terra do Fogo, que importam peças para montar celulares, computadores e eletrodomésticos pequenos; fabricantes de alguns tipos de televisores que não são feitos no país; empresas mineradoras e petrolíferas, que exigem compra de bens de capitais e insumos; companhias que atuam na importação de energia para amenizar a escassez energética, e as grandes empresas de alimentos.

"Fora estes setores, que importam 60% de tudo o que a Argentina compra, todos os demais enfrentam dificuldades para trazer insumos e bens", disse. Santiesteban disse que 82% da pauta importadora argentina responde à necessidade de compra de bens de capital (máquinas e equipamentos para melhorar a produção), além de insumos, algumas matérias-primas e produtos semielaborados. Dos 18% restantes, 7% são compras de automóveis, especialmente do Brasil, para onde a Argentina exporta quase toda a produção desse setor, e 11% são distribuídos em aquisições de têxteis, calçados, eletroeletrônicos, alguns alimentos e outros.

Energia

O presidente da Cira atribuiu as barreiras à escassez energética que obriga o país a importar combustíveis cada vez mais. Em 2005, por exemplo, a Argentina teve superávit no setor energético de US$ 5 bilhões. Em 2013, chegará ao fim do ano com importação de energia entre US$ 12 bilhões e US$ 13 bilhões e um déficit de US$ 5 bilhões, segundo Santiesteban. "Há quem opine que o déficit energético se deu pelo incremento de produção nacional. Outros apontam a má política energética", disse, em tom irônico.

Também criticou a rigidez da política de subsídios adotada pela administração argentina. O gasto com subsídios passou de 3 bilhões de pesos em 2003 para 100 bilhões de pesos em 2012. "Em 2003, os subsídios foram necessários para tirar o país da crise de 2001-2012, quando a pobreza afetava 60% da população, mas há anos deixou de ter sentido e passou a pesar nas contas públicas", opinou.

O diretor de Relações Institucionais da Cira, Miguel Ponce, declarou que o secretário de Comércio Interior, Guillermo Moreno, que define quem pode ou não importar, não tem critérios setoriais para discriminar os pedidos. "Os problemas são de uma maneira geral e prejudicam os próprios programas do governo", garantiu.

Um dos planos sociais de Cristina para gerar empregos distribuiu máquinas para podar árvores e cortar grama, com o fim de dar trabalho na área de manutenção de jardins de espaços públicos no interior do país. Porém, muitas máquinas estão encostadas por falta de peças de reposição que não podem entrar na Argentina. Ponce admitiu que há escassez de materiais de acabamento na construção civil e alguns edifícios não podem ser concluídos para entrega aos compradores. Também há escassez de insumos para indústria química, plásticos, têxteis, metal-mecânica e outros.

Brasil

As barreiras foram motivo de encontro, na semana passada, entre os dois executivos da Cira e o novo embaixador do Brasil na Argentina, Everton Vieira Vargas. Conforme Santiesteban, os técnicos da Cira e da embaixada têm trabalhado juntos na discussão das listas de produtos barrados pela Argentina. "O governo brasileiro está muito irritado com o problema, especialmente porque não há interlocutor argentino para discutir e negociar", concluiu Santiesteban.

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