Ryan Donnel/ NYT
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Bayer confirma proposta de US$ 62 bilhões pela compra da Monsanto

Cifra equivale a US$ 122 por ação e é 37% superior ao valor de mercado da empresa de insumos agrícolas norte-americana; acionistas da Bayer criticam oferta

Caio Rinaldi, O Estado de S. Paulo

23 de maio de 2016 | 09h36

A Bayer confirmou nesta segunda-feira, 23, ter feito uma oferta de US$ 62 bilhões para adquirir a Monsanto, com um prêmio substancialmente superior ao valor de mercado da empresa. A cifra equivale a US$ 122 por ação e é 37% superior ao valor de mercado da Monsanto.

Ao fazer a oferta, a companhia alemã de medicamentos e químicos desafia críticas de alguns de seus próprios acionistas, em uma aposta que criaria a maior empresa de insumos agrícolas do mundo.

"Esta operação representa uma oportunidade única para os acionistas da Monsanto", afirmou o CEO da Bayer, Werner Baumann em coletiva de imprensa concedida nesta segunda-feira. A empresa alemã afirmou que pretende financiar a aquisição com uma combinação entre empréstimos e emissões, incluindo uma oferta de cerca de 25% do valor da transação. O CFO da Bayer, Johannes Dietsch, confirmou que a Bayer deverá emitir US$ 15,4 bilhões em participação no mercado.

Na semana passada, as ações da Bayer caíram quase 3% após rumores sobre a oferta ganharem força no mercado. Investidores da Bayer se mostram preocupados com o elevado nível de endividamento da empresa, que em 2015 ficou pouco abaixo dos US$ 20 bilhões. Conforme Dietsch, um maior fluxo de caixa após a conclusão do negócio permitiria uma rápida redução do endividamento decorrente da operação.

O endividamento da Bayer "claramente superaria os 40 bilhões de euros", apontam analistas do Equinet Bank. "Pela perspectiva do rating da empresa, esta alavancagem parece gerenciável. Apesar disso, acreditamos que a flexibilidade da empresa na área de saúde poderia ser prejudicada", acrescentam.

O negócio também pode contrariar alguns investidores da empresa alemã, que entendem a companhia mais como uma empresa do setor farmacêutico do que agrícola. "Não sabemos se vamos gostar desta mudança", apontou Markus Manns, gestor da Union Investment, que trabalha com ações da Bayer.

Se confirmado o acordo, a Bayer deverá gerar cerca de metade da receita a partir da unidade agrícola, conforme analistas do banco de investimentos Bryan Garnier.

Para o CEO da Bayer, Baumann, a proposta segue a estratégia da empresa em se tornar uma companhia integralmente focada em Ciências da Vida, com atuação em insumos agrícolas, farmacêuticos e medicamentos ao público.

Analistas apontam que a Bayer, possivelmente, terá de acelerar sua saída da Covestro, produtora de plásticos controlada pela empresa, ou vender sua divisão de saúde animal para compor a estruturação financeira do acordo. Baumann, em compensação, disse que nenhuma mudança no portfólio será necessária para financiar o negócio. 

De acordo com a Bayer, a aquisição impulsionaria em cerca de 5% o lucro líquido da empresa no primeiro ano, chegando a dígitos duplos nos anos seguintes. A combinação também ofereceria uma sinergia de US$ 1,5 bilhão em três anos.

A empresa aponta ainda que os portfólios são geograficamente complementares, com presença forte da Monsanto no mercado de sementes na América do Norte, enquanto a Bayer tem mais atuação no mercado de agrotóxicos e insumos na Europa e Ásia.

A empresa alemã, entretanto, já antecipa que o negócio deverá passar pela análise por agências reguladoras, especialmente na Europa. A Standard & Poor's avalia que "pode haver dificuldades junto a reguladores, já que o poder de barganha do fornecedor deverá crescer substancialmente após o acordo". 

O professor John Colley, da Warwick Business School, considera que o Departamento de Justiça dos Estados Unidos deverá analisar a operação, já que a Monsanto é "tida como nacionalmente importante, diante da capacidade de produção de lavouras geneticamente modificadas e sua posição no mercado norte-americano". Para Colley, a oferta deixa o Conselho Administrativo "com pouco espaço para manobra", já que propõe o pagamento de quase 50% a mais do valor de mercado.

Já para o banco Bernstein, a Monsanto deverá fazer uma contraproposta com valor mínimo de US$ 135 por ação, "com vista que a Bayer será apenas a quarta empresa no mercado global de sementes e agrotóxicos", caso o negócio não seja concluído.

A confirmação do acordo representará a etapa final de uma rodada de consolidação do setor químico, que já teve a fusão entre as norte-americanas Dow e DuPont, além da aquisição da produtora suíça de sementes Syngenta pela estatal chinesa ChemChina. / COM INFORMAÇÕES DA DOW JONES NEWSWIRES E DA REUTERS

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