BC reduz taxa Selic para 9% e Brasil deixa de ser o número 1 em juros reais

Em decisão unânime, Copom faz o esperado pelo mercado e corta taxa básica em 0,75 ponto; Rússia assume liderança de ranking global

Fernando Nakagawa e Leandro Modé, de O Estado de S. Paulo,

18 de abril de 2012 | 20h09

  

 

Atualizado às 21h10

BRASÍLIA - O Banco Central (BC) anunciou nesta quarta-feira, 18, o sexto corte seguido do juro básico da economia, que caiu mais uma vez 0,75 ponto. Agora, a taxa Selic está em 9% ao ano. A redução era amplamente esperada pelos analistas do mercado financeiro. Com a decisão, o Brasil deixa o primeiro lugar do ranking mundial dos juros reais, que ocupava desde janeiro de 2010. A líder agora é a Rússia.

O comunicado divulgado pelo Copom após a decisão deixa a porta aberta para que outras reduções aconteçam. A hipótese ganhou força porque o texto chama muita atenção para o fato de que a inflação atualmente tem trajetória benigna no Brasil.

"Neste momento, permanecem limitados os riscos para a trajetória da inflação", afirma o documento. "O Comitê nota ainda que, até agora, dada a fragilidade da economia global, a contribuição do setor externo tem sido desinflacionaria", completa.

"É impressionante como o BC consegue surpreender porque deixou a porta aberta para reduzir novamente a taxa de juros ou mesmo optar por uma parada técnica", disse a economista-chefe da Corretora Icap Brasil, Inês Filipa. "As duas hipóteses são possíveis. Agora, precisamos esperar a ata (que sai na próxima quinta-feira)."

Um cálculo elaborado pelo economista Jason Vieira, do Banco Cruzeiro do Sul, mostra que, com a Selic a 9%, a taxa de juro real no Brasil caiu para 3,4% ao ano, inferior à da Rússia, que hoje está em 4,2%. Juro real é o que desconta os efeitos da inflação. Nesse cálculo, Vieira desconta da Selic a inflação projetada para os próximos 12 meses.

O BC já reduziu o juro básico em 3,50 pontos porcentuais desde que iniciou o ciclo de quedas, em agosto passado. O esforço, que começou com um inesperado corte de 0,50 ponto, teve duas reduções mais fortes para tentar imprimir ritmo maior à economia ainda em 2012.

A ação faz parte de uma estratégia mais ampla do governo, que tem trabalhado para minimizar os efeitos da crise sobre o Brasil via crédito. Além disso, a presidente Dilma Rousseff decidiu que a redução de juro e do spread bancário é uma nova prioridade. Spread é a diferença entre a taxa de juro que o banco paga ao captar o dinheiro e a que cobra dos clientes nos empréstimos.

A aposta de corte de 0,75 ponto era quase uma unanimidade entre economistas. Entre 72 analistas ouvidos pela Agência Estado, apenas dois não previam esse cenário e esperavam redução de 0,50 ponto. Tanta certeza nasceu após a ata da reunião de março do Copom, quando o texto atribuiu "elevada probabilidade" de Selic em "patamares ligeiramente acima dos mínimos históricos". A menor taxa histórica foi de 8,75% ao ano, entre julho de 2009 e março de 2010 (no auge da crise global).

O texto do BC cita que a inflação não preocupa, mas, após os cortes nos últimos oito meses e as várias medidas de incentivo ao crédito e consumo, o ritmo da economia será maior a partir do segundo semestre, o que deve acelerar os preços. Para o mercado, ainda que os índices atuais estejam comportados, os preços subirão mais em 2013, o que pode ser preocupante para o BC.

Pelas contas dos analistas, a inflação oficial - medida pelo IPCA - será de 5,08% neste ano e de 5,50% no próximo. Para segurar os preços, parte do mercado prevê até mesmo uma alta dos juros a partir de abril de 2013.

Mas também há uma preocupação estrutural: a indexação. Influência de um histórico inflacionário, vários setores têm forte dependência dos índices passados para determinar os preços.

Criticada pelo BC, tal característica faz com que seja mais difícil controlar os preços em níveis mais baixos no País. Além disso, a indexação determina a remuneração obrigatória da poupança, que paga a Taxa Referencial (TR) acrescida de 0,5% ao mês.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.