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Bens duráveis têm deflação generalizada com importações e promoções

Dados do IBGE mostram que eles terão papel fundamental no controle inflacionário em 2010, dizem analistas

Jacqueline Farid, da Agência Estado,

24 de setembro de 2010 | 15h32

Os bens de consumo duráveis registraram queda generalizada de preços em agosto e terão, em 2010, papel fundamental no controle inflacionário, segundo mostram dados do IBGE. Dos microcomputadores à máquina de lavar, dos automóveis novos aos condicionadores de ar, o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) registrou, em agosto, recuo generalizado de preços, que analistas econômicos atribuem ao aumento das importações e a um possível arrefecimento de demanda por esses produtos.

O coordenador do Grupo de Análises e Previsões do Ipea, Roberto Messenberg, acredita que os duráveis vão garantir uma inflação oficial um ponto porcentual inferior ao patamar que atingiria em 2010, caso alguns itens desse grupo não estivessem registrando queda nos preços. "Esses produtos estão cumprindo um papel de ajudar a conter a inflação, compensando um pouco a volatilidade nos preços dos alimentos", explica. A coordenadora de índices de preços do IBGE, Eulina Nunes dos Santos, não contabiliza na ponta do lápis os efeitos, mas ressalta a importante contribuição que itens como automóveis e televisores, com peso elevado no cálculo do IPCA, terá para conter os índices inflacionários este ano.

Porém, enquanto Eulina acredita que as quedas de preços apuradas nos duráveis em agosto pode estar relacionada a um arrefecimento natural da demanda por esses produtos, além do aumento das promoções nas lojas, Messenberg credita os recuos ao forte aumento que vem sendo registrado nas importações.

Os dados do IBGE e do Ministério do Desenvolvimento mostram que, em agosto, os preços dos eletrodomésticos e equipamentos caíram 1,8% (segundo o IPCA) e, no mesmo mês, as importações de máquinas e aparelhos domésticos aumentou nada menos que 190% (em US$), comparativamente a igual mês do ano passado. No acumulado de janeiro a agosto, a alta foi de 149% ante igual período de 2009. Nessa comparação, a participação desse grupo de produtos no valor total das importações do País praticamente dobrou , de 1,3% para 2,2%. Para a categoria de duráveis como um todo, o aumento das importações em agosto foi de 71% e, de janeiro a agosto, de 77%.

Ainda em agosto, o IPCA mostrou queda de 13,03% nos preços dos televisores; -5,5% nos computadores; -1,37% nos fogões; -1,82% nos refrigeradores; -0,46% nos condicionadores de ar; -2,51% nas máquinas de lavar e -0,60% nos automóveis novos.

Para Messenberg, os dados deixam claro que os importados estão cumprindo o papel de atender boa parte da demanda doméstica por duráveis. As suspeitas do economista encontram alguma ressonância nos resultados da produção industrial de julho do IBGE, que mostraram uma queda de 33,7% na produção de eletrodomésticos da linha branca, ante igual mês do ano passado. Recuo atribuído pelo economista da coordenação de indústria do IBGE, André Macedo, ao fim dos incentivos de redução do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) para esses produtos e ao deslocamento para a compra de bens de consumo de linha marrom, como televisores, por causa da Copa do Mundo.

As importações também são citadas como parte da explicação para o sinal negativo nos preços dos duráveis pelo economista-chefe da MB Associados, Sérgio Vale. Outro motivo que, segundo ele, pode explicar essas deflações seria um excesso de estoque nas indústrias, que estariam desovando os produtos para abrir espaço à fabricação de novidades para o fim do ano.

"Talvez tenha havido, no começo do ano, uma percepção de que a economia estaria crescendo de forma absolutamente intensa. Ela está crescendo, mas não da forma que algumas empresas poderiam ter imaginado, levando a um excesso de estoques. No caso de automóveis e eletrodomésticos de linha branca, depois do fim da redução do IPI e os aumentos naturais de preços, o mercado pode ter voltado um pouco atrás para não afugentar o consumidor", argumenta Vale.

Eulina não antecipa os movimentos futuros dos preços, mas Messenberg e Vale acreditam na continuidade de deflação dos duráveis nos próximos meses, assim como em prosseguimento em cenário de demanda aquecida por esses produtos. Segundo o economista do Ipea, os preços "devem continuar contidos", com a continuidade do crescimento das importações, diante da crescente valorização do real.

Para o economista-chefe da MB Associados, os preços só vão se recompor caso a possibilidade do excesso de estoques nas empresas seja o único fator a explicar as atuais deflações nesses produtos. "Creio que ainda há uma expansão de demanda que pode manter esses preços pressionados, mas a tendência é os preços não aumentarem muito nos próximos meses, já que são produtos cujos valores se ajustam mais rapidamente à apreciação do câmbio", disse Vale.

(Texto com informações corrigidas às 16h20)

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