Amanda Perobelli/Reuters
Amanda Perobelli/Reuters

Bolsa brasileira perde 11,93% no ano e registra o pior resultado desde 2015

Varejistas foram as ações mais castigadas pela turbulência econômica de 2021; Embraer se renovou e esteve entre as maiores altas do mercado

Luisa Laval, Talita Nascimento e Wagner Gomes, O Estado de S. Paulo

30 de dezembro de 2021 | 18h44

Apesar de ter fechado em alta de 0,69% no último pregão do ano, o Ibovespa – principal índice de ações da B3, a Bolsa brasileira – não conseguiu evitar um ano negativo em 2021. No acumulado, o indicador encerrou aos 104.822 pontos, registrando queda de 11,93%. Esse é o pior resultado desde 2015, quando a desvalorização foi de 13,31%, além de mostrar o País na contramão de outras bolsas globais, que tiveram ganhos (veja quadro abaixo).

O varejo foi o destaque negativo em um ano marcado por desempenhos ruins. O Magazine Luiza ficou na “lanterninha”, com queda de 71,04% depois de um forte desempenho em 2021. Em seguida vieram outras empresas do mesmo segmento, como Via (dona de Casas Bahia e Ponto) e Americanas S/A, com perdas de 67,51% e 58,23%, respectivamente.

Na contramão das varejistas e da maior parte das ações que compõem o índice, duas companhias se descolaram na ponta positiva. A Embraer mais que dobrou de valor no período (+180%), enquanto a Braskem lutou até o fim pela primeira posição, sendo a segunda mais valorizada (+176%). Também bem à frente das outras integrantes do Ibovespa, mas consideravelmente atrás das duas primeiras colocadas, figuraram as gigantes de alimentos JBS e Marfrig, com ganhos de 75,7% e 73%, respectivamente.

Para Danniela Eiger, líder de varejo e colíder de Equity Research da XP, as razões que fizeram o varejo protagonizar o revés da B3 vem, principalmente, da cena macroeconômica do País. A inflação mais alta e persistente do que o esperado, juros também mais altos do que a expectativa do início do ano, além de um cenário de pandemia mais prolongado, que derrubou as perspectivas do Produto Interno Bruto (PIB) nacional, são os principais elementos da cena.

"As varejistas de e-commerce têm mais correlação com movimento macro, porque estão concentradas em (compras de) tíquetes mais altos, como é o caso de Magazine Luiza e Via. O aumento de juros torna financiamentos mais caros, o que é muito negativo para a categoria", afirma a analista. Ela pontua ainda que essas empresas partem de comparações elevadas no ano passado, quando registraram números fortes de vendas. Além disso, o aumento da concorrência, com o desembarque de empresas estrangeiras de comércio eletrônico no País, também ajuda a pressionar as margens das brasileiras do setor.

No caso da Via, para além da situação econômica nacional, pesou a necessidade de uma nova reserva no valor de R$ 1,2 bilhão, para possíveis perdas relacionadas a processos trabalhistas. O comunicado da companhia revirou a confiança do mercado em relação à companhia. Como resultado, as ações da empresa chegaram a despencar 18% na manhã que seguiu a notícia. No fechamento daquele pregão, a baixa foi de 12,5%.

Já na Americanas S/A – que tem eletrodomésticos como uma parcela menos representativa de suas vendas do que as concorrentes –, o contexto de inflação e juros altos pesou, mas com menos intensidade. O mercado viu como positiva a combinação de negócios da B2W, que antes ficava com a parte digital da companhia, com a operação física da Lojas Americanas. No entanto, analistas ainda apontam dúvidas quanto ao futuro da companhia, que costuma ser menos clara em seus anúncios do que as concorrentes.

Ponta positiva 

A Embraer é o destaque do lado das vencedoras da Bolsa em 2021. Depois de um ano muito difícil em 2020, quando acumulou perdas com a pandemia e ainda teve que se desfazer do acordo fechado com a Boeing, a fabricante brasileira se recuperou e fechou 2021 no topo da lista de maiores altas do Ibovespa. Entre os fatores que contribuíram para a valorização dos papéis estão a recuperação do mercado de aviação comercial para jatos de médio porte e as boas perspectivas para o mercado de "carros voadores".

Na semana passada, a empresa informou que a Eve, sua empresa de mobilidade aérea urbana, firmou um acordo definitivo de combinação de negócios com a Zanite Acquisition Corp., empresa de aquisição de propósito específico focada no setor de aviação. A previsão é de que a operação seja concluída no segundo trimestre de 2022 com a estreia na Bolsa de Nova York. O valor de empresa atribuído à Eve na transação é de quase US$ 3 bilhões.

"Não pela performance e sim pelo potencial de negócios da subsidiária Eve que as ações da Embraer alcançaram o primeiro lugar no pódio das maiores altas em 2021. Não seria para menos. Além do movimento disruptivo, dado o campo de atuação de mobilidade aérea urbana, a Eve conseguiu aportes e sócios importantes ", diz o analista João Frota, da Senso Investimentos.

Outros indicadores ajudam a Embraer a ocupar a posição. "A empresa viu os papéis decolarem com o fluxo de caixa livre positivo, o que não se via há muito tempo", diz o analista Ilan Arbetman, da Ativa Investimentos. Na conta estão também um contrato na aviação comercial, com a Porter Airlines para 30 jatos E195-E2, e o direito de compra de mais 50 aeronaves do mesmo modelo. Daqui para a frente, porém, o momento segue difícil, já que a Airbus, concorrente forte, está bem posicionada.

Petroquímica

Na Braskem, por sua vez, além dos bons resultados financeiros, há a expectativa em torno da venda da companhia pela Novonor (ex-Odebrecht), que controla a empresa com 50,1% do capital votante e 38,3% do capital total, e pela Petrobras, que conta com 47% das ações com direito a voto e 36,1% do capital integral da companhia. 

As negociações se arrastam há cerca de quatro anos. A expectativa em relação a oferta pública de ações da petroquímica é tão grande que, no dia em que a Petrobras anunciou a intenção de venda, os papéis dispararam. A estatal celebrou um termo com a Novonor que, além de garantir o compromisso com a oferta secundária, estabelece ainda diretrizes com o objetivo de migração da Braskem para o Novo Mercado, nível mais elevado de governança corporativa da B3, a Bolsa brasileira.

A petroquímica também teve um ano forte operacionalmente. Nos nove primeiros meses de 2021, registrou lucro líquido de R$ 13,4 bilhões, contra prejuízo líquido de R$ 7,5 bilhões no mesmo período de 2020. João Frota, analista da Senso Investimentos, lembra ainda que além dos melhores preços globais do setor petroquímico, a Braskem concluiu o seu plano de refinanciamento de dívida, com alongamento na curva de amortizações, empurrando os prazos para o longo prazo (2029 e 2032, sobretudo).

Também na lista de maiores altas do Ibovespa, os frigoríficos JBS e Marfrig viram seus negócios descolados da tendência majoritária da B3. "O dólar subiu bastante e beneficiou a Marfrig", diz Sérgio Berruezo, analista de Research da Ativa Investimentos.

Focada em carnes bovinas e com operações na América do Sul e do Norte, a unidade da companhia nos Estados Unidos, a National Beef, responde por 70% da receita consolidada total da Marfrig. E o mercado norte-americano este ano não poderia ter sido melhor, com um ciclo favorável do gado na região. Os mesmos motivos também ajudaram a JBS, que também tem grande exposição aos EUA.

"Não é que a arroba bovina estava barata esse ano nos Estados Unidos, mas também não estava cara, como se viu no Brasil. Então, ficou em preço razoável para os frigoríficos, embora no final do ano possa haver sinal de um pequeno aumento nos custos para os frigoríficos", diz Berruezo.

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