Brasil crescerá 2,5% ou mais em 2014, prevê IMD

Crescimento será menor do que o previsto para o mundo, entre 2,9% a 3%; calendário político deve intereferir nas expectativas e no resultado, segundo o IMD

Francisco Carlos de Assis, Agência Estado

26 de novembro de 2013 | 10h17

A economia brasileira deverá crescer 2,5%, ou até mais, no próximo ano, na previsão de Carlos Braga, ex-diretor de Relações Exteriores do Banco Mundial na Europa e atual professor de Política Econômica Internacional do IMD (International Institute for Management Development), de Lausanne, Suíça, feita em entrevista exclusiva ao Broadcast, serviço em tempo real da Agência Estado. "O ano de 2014 será, naturalmente, muito afetado pelo calendário político e pelas expectativas. Mas se você me perguntar sobre crescimento, eu aposto em 2,5% ou até mais", disse Braga.

Segundo o professor do IMD, a lógica é simples. De acordo com ele, embora a economia brasileira possa sofrer pressões inflacionárias no ano que vem, o que colocará ônus sobre a política monetária do Banco Central (BC), exatamente por ser um ano eleitoral o governo deverá promover alguma expansão da política fiscal. "A história brasileira tipicamente sugere que em anos eleitorais há um expansionismo fiscal maior", disse.

Com isso, de acordo com ele, a tendência é de a atividade econômica acelerar acima da sua capacidade potencial. "Eu não me surpreenderia com 2,5% no ano que vem. O governo vai fazer de tudo para ter um crescimento razoável", reiterou o economista do IMD. Para ele, neste momento em que a economia brasileira tem tido um crescimento de produtividade muito baixo, crescimento em torno de 2,5% é superior ao potencial de expansão do PIB.

"Gostaríamos de acreditar que o crescimento potencial do Brasil é algo em torno de 4% por ano. Eu até concordaria com isso se tivéssemos uma mudança no sistema tributário, regulamentações, parcerias com o setor privado, etc. Como eu sou um pouco cético de que isso irá acontecer no curto prazo, diria que estamos batendo nos limites potenciais da economia, mas 2,5% é ótimo", ponderou.

Ele lembra que no Brasil há aspectos que o País não controla, como os efeitos da economia mundial sobre o mercado doméstico, por exemplo. "Se acontecer algum desastre, seja da economia, seja da política dos EUA, fica difícil", disse Braga, referindo-se. Ele se refere à retomada em fevereiro das discussões sobre o teto da dívida do governo no Congresso norte-americano. De acordo com o professor do IMD, não se tem conhecimento de tanta polarização no Congresso Americano como agora desde a Guerra Civil, em 1860.

"Mas estou admitindo que os americanos terão a capacidade e o bom senso de administrar de novo essa crise potencial do início do ano, que a economia daquele país vá crescer numa faixa de 2,5% a 2,6% e que a economia chinesa continue a crescer acima dos 7%", afirmou.

Para ele, respeitados estes dois vetores internacionais - e a China hoje em dia é muito importante para o Brasil devido às commodities -, é factível o PIB brasileiro crescer 2,5% em 2014. "Pode haver acidentes de percurso, mas se vamos ver uma desaceleração da economia ela será mais para 2015 do que para 2014", afirmou. Neste sentido, segundo Braga, maior expansão fiscal no curto prazo seria bom, embora a fatura venha no médio prazo.

Crescimento mundial. A economia mundial deverá crescer a uma taxa de 2,9% a 3% em 2013, disse Braga. De acordo com ele, do ponto de vista da tendência de longo prazo, o ritmo não é ruim. "Mas a verdade é que se você pegar uma instituição como o FMI, em termos de projeções para a economia mundial, e perguntar quanto o organismo esperava que a economia mundial fosse crescer em 2013 em meados de 2012, a expectativa era de um crescimento de 4%", disse.

O porquê dessa fraqueza, de acordo com Braga, se deve em parte à crise que continua na Europa. "Se olharmos ao redor do mundo, na Europa há vários países que só agora estão saindo da recessão. Mas de uma maneira geral a zona do euro vai fechar com crescimento negativo neste ano, por volta de 0,4%", previu o professor do IMD. Para ele, esse número é uma média, já que países como a Alemanha e os nórdicos fecharão o ano com crescimento positivo.

Para Braga, não é um desastre a economia mundial crescer 2,9%, num ambiente em que as economias emergentes têm expansão de quase 5%. "Nestes 5%, naturalmente a China continua a ter um peso muito grande. Desacelerou um pouco, mas ainda mantém um crescimento muito robusto", lembrou. E o desempenho do grupo não será melhor porque houve desaceleração em países emergentes como a Índia, por exemplo, que vai entregar neste ano um crescimento de 4%. Na metade do ano passado, a previsão do FMI era de uma expansão do PIB indiano da ordem de 6,6%.

O recuo, segundo Braga, se deve a uma série de problemas similares aos do Brasil. "A Índia possui uma burocracia altamente complexa. O marco regulatório da Índia, como o do Brasil, é muito complicado. Basta olhar o número de anúncios de investimentos feitos na Índia e comparar com o que realmente é implementado. A diferença é de quase 50%", informou Braga, acrescentando que isso acontece porque as empresas anunciam mas não conseguem executar os investimentos.

A Rússia, em 2012, de acordo com a previsão feita em julho do ano passado pelo FMI, deveria crescer na ordem de 3,9% em 2013. Na prática, de acordo com o economista, o PIB russo crescerá 1,5% neste ano. "É outro país grande dentro dos Brics em que o crescimento caiu. Agora, o maior problema são os Estados Unidos, que tiveram um austeridade fiscal muito mais elevada do que seria o ideal para a situação da economia americana", disse Braga.

Segundo ele, como não houve acordo entre republicanos e democratas no Congresso em torno da elevação do teto da dívida dos EUA, chegou-se ao ponto de se paralisar de setores da economia. "Era para o PIB americano crescer 2,2% neste ano e está crescendo por volta de 1,6%. E como é ainda a maior economia do mundo, o resultado acaba afetando a média de crescimento mundial", observou.

O Brasil, de acordo com ele, melhorou e pode-se argumentar que as contas fiscais não estão ruins. Na opinião dele, o governo poderia até gastar um pouco mais. "A questão é a qualidade dos gastos. Nos EUA é diferente. O que acontece é que o Congresso encontra-se no momento mais polarizado da história. Teríamos de retornar à guerra civil, no século 19, para encontrar um momento de polarização tão grande como o atual", comparou Braga.

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