Brasil retém trigo dos EUA em porto; futuros caem

O Ministério da Agricultura do Brasil está retendo no porto de Santos (SP) trigo norte-americano importado pelo país, após denúncia de que o produto estaria contaminado por vomitoxina, uma toxina produzida por um fungo que seria nociva à saúde humana e à agricultura.

ROBERTO SAMORA E SAM NELSON, REUTERS

17 de setembro de 2009 | 16h52

O produto apenas será liberado para os importadores no porto se as análises laboratoriais comprovarem que o trigo está dentro de padrões exigidos, afirmou Maçao Tadano, diretor do Departamento de Inspeção de Produtos de Origem Vegetal (Dipov), do ministério.

"A análise deve durar de cinco a sete dias. Só depois de o resultado der que está tudo bem o trigo será liberado para o importador", afirmou ele à Reuters.

O Brasil, um dos maiores importadores mundiais de trigo, costuma recorrer eventualmente ao trigo dos Estados Unidos (os maiores exportadores mundiais do cereal) quando a Argentina, cujo produto vem isento de taxas, não consegue atender a todas as necessidades brasileiras.

A medida do governo brasileiro atingiu os futuros do trigo negociados na bolsa de Chicago (CBOT). Os contratos ampliaram a queda após a divulgação do problema.

"Isso é definitivamente uma preocupação... Se existe algo que cria uma barreira entre os EUA e a América do Sul, isso é um problema", afirmou Shawn McCambridge, analista da Prudential Bache Commodities.

McCambridge afirmou ainda que isso poderia ser um problema adicional para o setor de trigo nos EUA, que tem estoques abundantes.

No acumulado do ano, o Ministério da Agricultura já registrou desembarques no Brasil de 107 mil toneladas de trigo norte-americano, de um total importado de todos os países de 4,1 milhões de toneladas entre janeiro e agosto.

E, apesar de uma parte das compras deste ano junto aos EUA já ter sido desembarcada, apenas agora, após denúncia sobre a possível contaminação, por parte de um deputado estadual de São Paulo, o ministério passou a exigir análise mais criteriosa.

Segundo uma fonte do mercado, o Brasil teria comprado mais 75 mil toneladas de trigo dos EUA, volume este que ainda estaria para chegar ao país neste ano.

O Brasil importou, em 2008, cerca de 847 mil toneladas de trigo dos EUA, em um ano em que a Argentina também teve problemas, como acontece em 2009.

PROBLEMAS NO PORTO

O carregamento que chegou ao porto de Santos (SP) nesta semana e que está sujeito a testes foi desembarcado e colocado em um silo em separado, aguardando o resultado da análise, segundo o presidente do Sindicato da Indústria do Trigo de São Paulo (Sindustrigo), Luiz Martins.

O navio que transportou as 20 mil toneladas de trigo, pertencente ao moinho Anaconda, do qual Martins também é presidente, deve levar mais 10 mil toneladas do produto para o porto de Paranaguá (PR), onde a carga deve ser submetida também a análises, disse ele.

Um segundo carregamento de trigo dos EUA chegou a Santos nesta quinta-feira e deverá passar por procedimento similar.

Uma fonte de outro moinho que comprou trigo contido neste segundo navio confirmou que o produto passará por análise.

"Atrapalha um pouco, é um processo que demanda mais tempo, normalmente seria desembarçado normal, o ministério liberaria e ele entraria no processo de fabricação", afirmou a fonte, que pediu para não ser identificada.

Uma segunda fonte da indústria, que também pediu anonimato, afirmou que o impasse criado pode gerar um problema logístico e custos adicionais para as empresas importadoras.

"Estamos supernervosos porque a questão começou a ficar difícil do ponto de vista de logística. Tem mais navio chegando e não tem onde guardar esse trigo. Se chegar um outro barco, com qualquer outro trigo no mesmo terminal, o barco vai ter de ficar esperando. São 20 mil, 30 mil dólares de demourage (taxa) por dia".

DENÚNCIA

A denúncia relacionada à vomitoxina é contra o trigo "soft" vermelho de inverno, mas o carregamento desembarcado em Santos é de trigo duro --a maior parte do produto comprado pelo Brasil este ano é do tipo duro.

"Vai ser procedimento para todo trigo dos EUA que chegar, mas esse navio é o foco maior, o que foi denunciado. Tem outro navio chegando a Santa Catarina que também receberá esse procedimento", destacou Tadano, do ministério.

A denúncia do deputado Fausto Figueira (PT) que motivou a nova exigência do Ministério da Agricultura foi baseada em uma notícia da Reuters --clique no link e veja a matéria em inglês

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Segundo Martins, a "notícia não é agradável a nós", mas ele destacou que o deputado se "agarrou" em uma informação que por si não seria suficiente para provocar o procedimento do ministério.

"O cara se agarrou em uma história e não deixa o trigo entrar... O trigo que comprei vem com análise americana certificando que ele tem menos índices de vomitoxinas do que os exigidos na lei, não se justificaria (a análise)", afirmou Martins.

"No fundo, isso não vai levar a nada. Acredito que os americanos não vão exportar trigo contaminado, eles não teriam razão para fazer isso", afirmou ele, lembrando que o produto dos EUA é o mais negociado no mundo.

De acordo com a US Wheat (associação que reúne exportadores de trigo dos EUA), no ano comercial 2008/09 os Estados Unidos exportaram 27,6 milhões de toneladas de trigo, o que responde por 41 por cento do que os EUA produziram na temporada.

Martins disse ter feito sua própria análise do cereal que chegou, verificando que tem boa qualidade.

Martins disse que as operações de seu moinho não serão prejudicadas, pois teria estoques, mas afirmou que outras empresas importadoras, com pouco produto estocado, poderão ter problemas.

(Edição de Marcelo Teixeira)

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