Brasileiro já compra até pastel na feira com cartão de crédito

País tem mais de 4,2 milhões de maquininhas de pagamento espalhadas pelo comércio; setor prevê transações na casa dos R$ 800 bilhões em 2013

Gustavo Santos Ferreira, de O Estado de S. Paulo, Atualizado às 9h47

29 de outubro de 2013 | 07h00

SÃO PAULO - É cada vez mais raro receber balas de troco ao comprar qualquer coisa no Brasil. As máquinas de cartão de débito e crédito estão em franca proliferação no comércio. Entre 2006 e o primeiro semestre deste ano, cresceu em 127% o número de aparelhos no País, aponta a Associação de Cartões de Crédito e Serviços (Abecs). Há mais de 4,2 milhões de maquininhas. E, caso se confirmem os cerca de R$ 800 bilhões estimados em 2013, o valor transacionado nos aparelhos terá crescido pelo menos 276% em apenas sete anos.

O presidente da Abecs, Marcelo Noronha, atribui esse avanço no uso dos cartões, principalmente, à tecnologia. É ela quem permite, por exemplo, que um entregador de pizzas cobre pela redonda no cartão de débito ou crédito na porta da casa do cliente.

Outro ponto destacado pelo executivo é a expansão do número da massa de consumidores no Brasil. Mais de 40 milhões de cidadãos subiram da classe D à C nos últimos anos. E o afrouxamento do crédito explica em parte o fenômeno. Em 2007, a quantidade de crédito na praça em relação ao PIB (produção de bens e serviços) no País era de 35,5%. Atualmente, essa proporção pulou para 55,5%.

Dados do Banco Central sinalizam alta de 90% na emissão dos cartões de crédito desde 2006; no caso dos cartões de débito, o aumento foi de 61%. Ao mesmo tempo, as transações em cheque caíram 35%. "Isso sinaliza a diminuição dos calotes", diz Noronha. O pagamento com cartão, ressalta ele, garante o recebimento ao comerciante, ao contrário de eventuais cheques voadores.

‘Fiado só amanhã’. Com as pessoas optando por sair de casa com poucas notas na carteira, as maquininhas estão ganhando terreno longe de supermercados, farmácias e restaurantes, presentes no comércio de rua.

Dono de uma barraca de peixes instalada às sextas-feiras em Higienópolis, Alexandre Maia - autoproclamado "o imperador dos pescados" -, de 41 anos, está no ramo há 25. De acordo com ele, ao aceitar cartões, lançou moda. "Fui o primeiro, faz uns 5 anos, depois disso os outros peixeiros tiveram de ter também." Mas, como diz, entre os vendedores de frutas, verduras e legumes a resistência ainda é grande. "O pessoal mais antigo tem a mente fechada, né, mas uma hora vão ter de mudar."

Os pasteleiros já mudaram. Das cinco feiras livres visitadas pela reportagem, todas tinham barracas de pastel que aceitavam cartões de todas as bandeiras. A vendedora Cecília Nieko, de 40 anos, que há 3 meses tem a máquina de pagamento, comemora: "Se os clientes estão sem dinheiro, agora eles passam no crédito", diz. "Levam mais pasteis do que poderiam pagar com o dinheiro da carteira e pararam de pedir fiado."

Dono de outra barraca de pastel, Adriano Barreto, de 40 anos, está também faz 3 meses com máquinas de cartão. Resistiu durante um tempo à inovação, mas não teve como não ceder. "Quem não tiver a maquininha perde cliente", afirma. O "mal necessário", conta, preocupa pelo preço. De acordo com o comerciante, as empresas donas das máquinas ficam com 3,5% de todos os pagamentos feitos no débito; e com 4,0% no caso do crédito. "Sem falar que, se estivermos sem dinheiro no caixa e quisermos antecipar o recebimento, são cobrados mais 2,5%."

Queixas. Há máquinas - e reclamações - também fora da feira. Zenaide Rocha, de 53 anos, vendedora de artigos femininos em eventos e bazares, está descontente não só com as taxas das operadoras sobre as vendas, mas ainda com o aluguel pago pelas máquinas. "Acho muito caro, mas não tem o que fazer", diz. "A maioria das pessoas passa tudo no crédito, 90% delas, então tem dia que não entra nada a não ser nos cartões."

Uma das redes de bares, restaurantes e lanchonetes mais tradicionais de São Paulo, o Sujinho, até hoje não aceita o pagamento com cartão por causa das taxas. "Altas taxas cobradas pelas administradoras, que no caso aceitarmos (sic), teremos que repassar ao nosso cardápio, prejudicando os nossos clientes", informa a casa em sua carta de lanches. Suas mesas, no entanto, não ficam vazias por causa da medida.

A Rede (antiga Redecard) e a Cielo são as principais marcas de máquinas de cartões no Brasil. A Rede diz cobrar entre R$ 65 e R$ 119 por mês de seus clientes pelo aluguel dos aparelhos. O preço mais barato é cobrado de máquinas que usam linhas de telefone fixo; o mais caro, das sem fio. Nos primeiros 6 meses deste ano, acumulou R$ 278,6 milhões com o aluguel de 1,4 milhão de máquinas.

A Cielo, por sua vez, não informa à imprensa nem o valor cobrado pelos aluguéis das máquinas nem quanto ganha com isso. Comerciantes entrevistados falam em alugueis de R$ 100.

Novos mercados. Os taxistas também estão aderindo aos pagamentos com cartão. Para eles, os aplicativos para celular que permitem pedir um táxi de qualquer lugar de cidade são de grande importância. Isso porque o cliente não tem só a facilidade de chamar um motorista apenas com um toque, mas também a de escolher só os que aceitam pagamento no cartão. Entre os taxistas cadastrados no Easy Taxi, um dos líderes entre os aplicativos do tipo, 44% já aceitam passar a fatura da corrida no débito ou no crédito.

A Rede e Cielo estão de olho agora justamente no comércio itinerante. A Rede está lançando o Mobile Rede, aparelho que poderá ser plugado em celulares e tablets. O Cielo Mobile, já presente no mercado, cobra R$ 11,90 por mês de seus clientes. Para compras feitas no débito, será descontado do comerciante 3,19%; no crédito à vista, 4,05%; e no parcelo, 6,99%. A empresa afirma ter hoje 25 mil clientes.

Quem saiu na frente neste ramo - e deve tomar cuidado para não ser atropelada pelas gigantes - é a PagPop. Líder no segmento de leitores de cartões em smartphones, teve faturamento de 1,5 milhão em 2012 e planeja salto de 567% neste ano, até os R$ 10 milhões.

Se tomarmos como critério de análise o rápido avanço no número de clientes, o planejamento não parece tão distante assim de se tornar realidade. Entre 2011 e 2012, o número de profissionais registrados subiu de 4 mil para 28 mil. Até 2016, a empresa sonha em ter 300 mil clientes cadastrados. E, embora a taxa cobrada por valor transacionado seja superior à das máquinas tradicionais de Rede e Cielo, a PagPop quer compensar no preço da mensalidade: R$ 19,90.

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