Brisanet/ Divulgação
Brisanet/ Divulgação

Brisanet, fundada por ex-vendedor de parabólicas, vai para cima de grandes teles em leilão do 5G

Maior operadora de internet do Nordeste, a empresa vai brigar pelo bloco regional da faixa de 3,5 Ghz, tornando-se uma alternativa a Vivo, Claro, TIM e Oi

Circe Bonatelli, O Estado de S.Paulo

05 de outubro de 2021 | 15h24
Atualizado 06 de outubro de 2021 | 08h32

A Brisanet, maior operadora de internet do Nordeste, já desenhou a estratégia para disputar o leilão do 5G, que acontecerá daqui a um mês. A companhia vai brigar pelo bloco regional da faixa de 3,5 Ghz a partir da qual poderá passar a oferecer internet móvel para seus 754 mil clientes de banda larga fixa, TV por assinatura e telefonia, tornando-se assim uma alternativa às grandes teles Vivo, Claro, TIM e Oi.

A união da internet móvel por 5G com a banda larga por fibra ótica será o “combo perfeito’, na visão do fundador, acionista controlador e presidente da Brisanet, José Roberto Nogueira. “O 5G é o complemento que a gente estava procurando”, afirmou, em entrevista ao Estadão/Broadcast. Mais do que negócios, porém, essa estratégia representa um novo capítulo de um sonho antigo de Nogueira: levar conectividade para sua região de origem.

O empresário, de 56 anos, é o caçula de dez irmãos de uma família de agricultores de Pereiro, cidade do interior do Ceará localizada a 342 quilômetros da capital, Fortaleza. É ali que fica a sede da Brisanet desde a sua fundação, há 22 anos. “Nascemos com a proposta de trazer desenvolvimento para a nossa região”, ressalta.

Nogueira migrou cedo para São José dos Campos (SP), onde conseguiu um emprego na Embraer. Mas não demorou muito para retornar à cidade natal e colocar em prática os primeiros experimentos em telecomunicações. Ele começou vendendo antenas parabólicas para os moradores das pequenas cidades do sertão e de propriedades rurais. Em 1997, investiu US$ 10 mil na importação e adaptação de equipamentos de internet via rádio - um ramo praticamente inexplorado na época.

O negócio deu certo e a Brisanet deslanchou, tornando-se um operador relevante no segmento das pequenas e médias empresas. Em 2010, já tinha mais de 30 mil clientes no interior nordestino - uma região historicamente deixada em segundo plano pelas grandes teles. Embora a procura pela internet via rádio fosse alta, Nogueira sabia que esse modal não ia durar muito, pois não comportaria as velocidades mais altas de navegação do futuro.

Então decidiu apostar em fibra ótica - algo que, uma década atrás, era incipiente até mesmo em países com tecnologia de ponta como Estados Unidos, China e Coreia do Sul, por exemplo. No Brasil dessa época, as conexões nas capitais eram baseadas em cabos de cobre - algo que existe até hoje no mercado. “Entendemos que tínhamos que fazer uma transformação completa da rede. E o cobre também não seria suficiente para a demanda futura”, relata.

Nos anos seguintes, a Brisanet foi importando equipamentos e treinando mão de obra a partir de Pereiro, a cidade natal de Nogueira e seus sócios - Jordão Estevam e João Paulo Estevam. A primeira cidade inteiramente coberta pela fibra da Brisanet foi Pau dos Ferros (RN), em 2011, e a primeira capital atendida pela empresa foi João Pessoa (PB), em 2019.

Presente e futuro

Hoje, a Brisanet está em 110 cidades nos Estados de Alagoas, Ceará, Paraíba, Pernambuco e Rio Grande do Norte, com um total de 754 mil clientes - o que lhe garante a liderança no Nordeste entre os provedores regionais e representa a quarta maior base de assinantes de banda larga do País, atrás somente de Claro (9,7 milhões), Vivo (6,3 milhões) e Oi (5,2 milhões) e à frente de Algar (731 mil) e TIM (676 mil), segundo a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel).

Paralelamente à sua própria rede, a Brisanet trabalha com a Agility Telecom, seu modelo de franquia. Aqui, a empresa-mãe leva a espinha dorsal da rede de fibra até as pequenas cidades, enquanto o franqueado vende os planos e liga a fibra na casa dos usuários. Ao todo já são 96 franqueados cobrindo 300 cidades. A meta para os próximos dois a três anos é chegar a 220 cidades com a Brisanet e 500 cidades via Agility Telecom.

“Estamos em um processo acelerado de crescimento no Nordeste”, relata Nogueira. A visão é que a combinação das redes de fibra ótica com o sinal de 5G vai permitir à companhia oferecer todas as novidades tecnológicas no campo de telecomunicações nas próximas duas décadas. “São dois trilhos diferentes que vão entregar qualquer serviço em qualquer lugar”, observa.

O dinheiro para esses planos virá da sua oferta inicial de ações (IPO, na sigla em inglês) concluída em julho, que gerou R$ 1,25 bilhão. Todos os aportes terão foco no crescimento orgânico, sem planos de comprar empresas menores, como as concorrentes têm feito para acelerar a expansão. Os recursos do IPO também vão servir para disputar o bloco regional da faixa de 3,5 Ghz no leilão do 5G. A Brisanet ainda avalia uma oferta pela faixa de 700 Mhz, onde poderia oferecer o sinal do 4G, mas só no caso de o bloco nacional acabar sendo dividido em dois regionais.

No mercado, analistas olham com empolgação o modelo de negócios da Brisanet. O BTG Pactual passou a cobrir a companhia com recomendação de compra das ações. “O rápido crescimento da Brisanet pode ser explicado por uma combinação de forte demanda por banda larga, competição relativamente amena nas cidades menores e um grande pedaço dos clientes que ainda estão conectados a tecnologias antigas, como o cobre”, afirmaram os analistas Carlos Sequeira e Osni Carfi, do banco.

Eles ainda destacam a velocidade “surpreendente” com que a Brisanet consegue ganhar mercado após entrar numa cidade. Em João Pessoa bastaram dois anos para liderar o mercado, com 40% de participação. Em Natal, a fatia chegou a 30% em um ano e meio, e em Maceió, 19% em seis meses. “A velocidade com que a Brisanet tem sido capaz de ganhar participação nos deixa muito confiantes de que ela pode continuar a expandir rapidamente por toda a Região Nordeste”, complementam os analistas.

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