Torin Zanette
Torin Zanette

'Burnout me deixou incapaz de vencer barreiras cotidianas', diz ex-CEO da Brasil Brokers

Após enfrentar crise de esgotamento, Cláudio Hermolin conta sua experiência e por que é tão difícil para pessoas na posição de liderança admitirem que há algo errado

Entrevista com

Cláudio Hermolin, ex-CEO da Brasil Brokers e presidente da Primaz

Circe Bonatelli, O Estado de S.Paulo

01 de outubro de 2021 | 10h00

Cerca de um ano atrás, Cláudio Hermolin, então CEO da Brasil Brokers, uma das maiores imobiliárias do País, chegou ao escritório na Barra da Tijuca, zona oeste do Rio, para mais um dia de trabalho normal. Até que algo mexeu definitivamente com sua vida, numa pane que ele nunca tinha experimentado. Calafrios, formigamento, visão turva e uma série de fobias de coisas simples, como entrar em um elevador e dirigir seu carro. Medo de morrer.

O diagnóstico veio semanas depois: síndrome de burnout. "É uma doença que vem de maneira silenciosa. As questões que vêm da cabeça não têm bem uma sinalização: elas simplesmente acontecem", diz, em entrevista para o programa 'Olhar de Líder', do Estadão/Broadcast.

A incidência do burnout - esgotamento em todos os sentidos - mais do que dobrou entre executivos ao longo da pandemia. Pouca gente fala abertamente disso. Há poucos dias, Hermolin foi às redes sociais dar seu testemunho sobre o que desencadeou a síndrome e como lidou com ela.

O relato gerou uma enxurrada de mensagens de apoio e também telefonemas de pessoas que se viram na mesma situação. "É muito difícil admitir que algo de errado se passa na cabeça para nós, em posições executivas, de liderança, quando nos achamos homens de aço à prova de problemas", afirma.

Hermolin aceitou o convite para a entrevista para dar visibilidade ao tema e conscientizar todos os profissionais - de estagiários a CEOs - sobre a importância de buscar equilíbrio entre o trabalho e a vida pessoal.

Ele renunciou ao cargo de CEO da Brasil Brokers e hoje atua como presidente da Primaz, estruturadora de financiamentos imobiliários, além de presidir a Associação de Dirigentes de Empresas Imobiliárias do Rio (Ademi-RJ). Confira os principais trechos da entrevista, em que o executivo fala sobre burnout e também sobre o mercado imobiliário.  

Como o sr. descobriu a síndrome de burnout?

Essa é uma doença que vem de maneira silenciosa, diferente de questões do resto do corpo, como uma dor muscular, por exemplo. As questões da cabeça não têm bem uma sinalização. Simplesmente acontecem. E acontecem quando não há equilíbrio entre o lado pessoal e o do trabalho. No meu caso, foi num dia de trabalho como qualquer outro. Já estávamos em pandemia e eu estava sozinho no escritório. Era uma semana até bem tranquila em termos de demandas e preocupações. Mas aí comecei a sentir calafrios, formigamento nas extremidades do corpo, visão turva e sensação de que iria desmaiar sentado na cadeira. Nunca tive isso e comecei a me assustar. Pensei que fosse falta de alimentação ou hidratação. Levantei para tomar uma água e sair para comer algo. Mas a perna ficou bamba. A cabeça começou a dominar a situação. Automaticamente comecei a pensar que estava prestes a ter um ataque cardíaco. Sentei de volta e liguei para meu médico.

O que ele disse?

Ele ouviu meu relato, disse que meus últimos exames estavam em dia e certamente não era um problema do coração. Ele falou: 'você precisa ir para casa descansar e depois marcar uma consulta'. Esse recado bateu quase como uma punhalada pelas costas. Como ele me manda para casa relaxar se eu estava quase morrendo?! Decidi pegar o carro e ir para o hospital. Só que não conseguia dirigir. Não saí da garagem. Algo me impedia. Eu achava que ia ficar sem ar dentro do carro, bater e desmaiar. Todo tipo de pensamento ruim.

Como o sr. se acalmou?

Voltei a falar com o médico e desisti de ir ao hospital. Acabei pegando um táxi e indo para casa. Chegando lá, minha esposa tentou me acalmar, sugeriu que eu fosse dormir. Tive a pior noite da minha vida. Achava que ia morrer em casa e não ia ver nunca mais minha esposa e filhos. No dia seguinte, eu estava desesperado para chegar a hora da consulta com o médico. Tentei sair, mas não conseguia pisar do lado de fora do apartamento nem entrar no elevador.

O que passava pela sua cabeça nessa hora?

Até aquele momento, havia total desconhecimento da minha parte sobre o que estava acontecendo. Não imaginava que pudesse ser algo psicológico. Eu ainda acreditava que era algum problema do coração. Só depois de passar pelo médico e conversar com minha irmã, que é psicóloga nos Estados Unidos, chegamos ao entendimento de que era uma questão de cabeça.

Como o sr. recebeu essa notícia?

É muito difícil admitir que algo de errado se passa pela cabeça para nós, em posição de liderança, em posições executivas, quando nos achamos homens de aço à prova de problemas. Em primeiro lugar, é muito difícil admitir que exista essa questão. Em segundo, reconhecer que é preciso gerar um reequilíbrio entre a vida pessoal e a profissional.

 

Como foram seus dias a partir daí?

Depois do diagnóstico, por vários meses fracassei ao tentar fazer coisas simples. Deixei de usar elevador: só subia e descia pelas escadas. Não pegava carro para nenhum trajeto com um túnel: não conseguia atravessar o túnel Zuzu Angel entre minha casa, no Leblon, e o escritório, na Barra da Tijuca. Sentia pânico de que o carro pudesse parar ali e eu morrer sem ar lá dentro. Tinha uma rotina semanal de viagens a São Paulo, mas não conseguia me imaginar dentro de um avião. Por duas vezes comprei passagem, fiz check in e não entrei no avião, por medo de algo acontecer no voo, como passar mal, ficar sem ar e desmaiar.

Deve ser muito duro não conseguir fazer as coisas simples do dia a dia e não entender bem o porquê.

Sim. Eu me sentia impotente e incapaz de vencer barreiras para atitudes cotidianas simples, mas que para mim se tornaram impossíveis. Até entender que tudo isso vinha da minha cabeça e era necessário trabalhar para ter de volta o controle dos pensamentos, levou tempo. Tive de pedir ajuda profissional. Essa é a primeira recomendação que faço a pessoas na mesma situação: não é uma besteira nem algo que podemos resolver sozinhos. Mas a decisão por muitas vezes é a mais difícil. Para quem alcançou patamares de projeção e responsabilidade grandes, procurar ajuda parece fraqueza, derrota... uma fragilidade. Mas nessa hora estamos mesmo frágeis. Para isso precisamos, sim, de ajuda profissional.

Desde a pane no escritório até a confirmação do diagnóstico, se passou quanto tempo?

Foram de 15 a 30 dias até entender de fato o que estava acontecendo. Tive conversas com psicólogos, psiquiatras, além de uma bateria de exames para me convencer de que não era mesmo um problema do coração. Infelizmente, vivemos em uma sociedade preconceituosa com as questões da mente. Era melhor ter uma história associada a problemas físicos comuns. Seria mais fácil de explicar. Simplesmente dizer que estava fora de combate por uma questão psicológica não é fácil de admitir nem de colocar para fora. Depois do diagnóstico, foram mais uns 90 dias de tratamento. Ao todo, cerca de quatro meses sem conseguir fazer as tarefas simples do dia a dia. Um diferencial positivo, no meu caso, foi não demorar a reconhecer que eu precisava de ajuda profissional. Mas, na grande maioria dos casos, as pessoas relutam em entender que precisam de um tratamento. O mais difícil é 'cair a ficha'.

Como o sr. lidou com o trabalho? Na época, o sr. era CEO da Brasil Brokers. A síndrome do burnout teve algo a ver com a sua renúncia do cargo?

Nossa vida é um conjunto de questões. Somos responsáveis pelos nossos atos. Não tercerizo essa questão para ninguém. O grande erro que cometi foi ignorar a necessidade de ter um período para desligar, não olhar o celular, ter fins de semana sem me preocupar com o trabalho e curtir só a família e os amigos, com lazer ou com as coisas que recomponham as energias da mente. Não acho correto fazer essa relação para qualquer um de nós executivos, pois sabemos da responsabilidade que a posição exige, especialmente em um País que é uma montanha-russa de emoções e repleto de situações de pressão. Por mais simplório que possa parecer, o principal problema é não ter um equilíbrio e não ter limites para o trabalho. Não importa se é CEO, diretor, gerente ou analista: pode acontecer com qualquer um. Não se trata do cargo, nem do tamanho da empresa. Não importa se é um momento de crise ou uma época boa. O desafio faz parte do ambiente profissional o tempo todo. A questão é como estabelecemos um equilíbrio. Na prática, cada um sabe de seus limites e do que precisa para recarregar as baterias. Hoje, consigo entender que exagerei na dose. Tudo isso foi sentido não só por mim, mas também pela minha família e pelos amigos, que sentiam a minha falta.

Como foi seu tratamento? Como o sr. traçou esses limites?

Mesmo com todas as dificuldades, passei a fazer o exercício de estabelecer limites. Fiz uma terapia específica para a síndrome de burnout com um especialista. Passei a fazer meditação e procurar outras formas para trabalhar a mente. Todo mundo se olha no espelho e busca fazer exercícios para o corpo. Mas o que é feito para exercitar a mente? Quase nada. Hoje, todas as vezes em que me vejo sob pressão, com muitas demandas, sem tempo para respirar, relembro da minha história e digo: 'Opa, vamos parar, acalmar, segurar a onda e exercitar os limites'. Essa é a parte mais difícil. Viramos seres insaciáveis para estar conectados 24 horas por dia. É muito simples pegar o celular e ler uma mensagem no email ou no WhatsApp, ler as notícias. É um bombardeio de informações o tempo inteiro, o que torna mais difícil o ato de se desligar. Isso consome a capacidade mental. É preciso um exercício para se reenergizar.

Falando agora do mercado imobiliário, que balanço o sr. faz sobre o desempenho do setor ao longo da pandemia e quais as perspectivas para os próximos 12 a 18 meses?

Algumas questões influenciaram o comportamento do mercado até aqui. A taxa de juros foi uma delas. Mesmo com a alta recente dos juros, o crédito imobiliário segue com taxas abaixo da média histórica. Os bancos estão disputando a concessão de financiamentos. A Caixa e o Itaú anunciaram recentemente recorde na liberação de empréstimos. A competição e a concorrência fizeram o crédito ficar mais atrativo, inclusive com o surgimento de novas entidades. Outro ponto positivo foi a mobilização das entidades do setor imobiliário para manter os canteiros abertos durante a pandemia. Se as construtoras parassem as obras, haveria corte de empregos, problemas de caixa e clima de insegurança, que poderia até mesmo afetar as vendas ou gerar distratos. Manter 85% dos canteiros em atividade foi muito positivo. A consequência foi a manutenção da velocidade de vendas e a redução drástica dos estoques. Se o mercado parar de lançar, os estoques vão durar o equivalente a apenas oito meses no ritmo atual de vendas, um nível bastante baixo.

Como fica o setor daqui para frente?

Devemos ter em São Paulo volume recorde de lançamentos e vendas em 2021, superando até mesmo o período de 2010 a 2013, que foram os anos mais aquecidos para esse mercado. No Rio de Janeiro, que é a segunda maior praça nacional, também vemos inflexão da curva, com volume maior de lançamentos e vendas, superando os resultados dos últimos cinco a seis anos. Mas vemos um comportamento positivo ainda limitado às pontas, isto é, ao mercado de imóveis populares e nos projetos de alto padrão. Não está bem distribuído.

Anos eleitorais são tipicamente mais desafiadores. Qual a expectativa para 2022?

Independentemente de quem forem os candidatos, os anos eleitorais são turbulentos e causam incerteza. E, para nós, isso é ruim, pois o investidor do mercado imobiliário precisa de visibilidade para o médio e longo prazo. Se as discussões políticas não levarem o investidor a ter confiança, podemos sofrer uma estagnação até chegarmos a um cenário mais claro. Mas esses são os riscos de curto prazo. É importante frisar que temos um país de proporções continentais, mais de 200 milhões de habitantes e um dos maiores déficits habitacionais do planeta. Então, a demanda por imóvel é latente. O mercado imobiliário vai ser pujante quando se olhar o longo prazo. A questão é que pode ter solavancos de curto prazo.

O sr. também passou a ser um investidor de startups do ramo imobiliário. Onde vê as maiores oportunidades? 

O ciclo imobiliário é muito longo. Passa pela visita ao imóvel, negociação de compra e venda, procura por crédito entre outros. Ninguém toma decisão e fecha o contrato em poucos dias. São meses e várias etapas. E as startups estão evoluindo em cada uma dessas etapas. O número de proptechs (como são chamadas as startups do ramo de propriedades) e construtechs (do ramo de obras) quase quadruplicou nos últimos anos. Quem pede comida ou reserva hospedagem pelo aplicativo já está acostumado com as facilidades do mundo digital. E por que no mercado imobiliário tem que ser diferente? Por que existe flexibilidade numa indústria e não na outra? Essa percepção está levando ao redesenho dos processos do mercado imobiliário para atender melhor os clientes no mundo digital. É aí que estão as oportunidades de inovação. Quem quiser investir nesses tipos de disrupção é muito bem-vindo, pois o mercado ainda é incipiente. Temas como inteligência artificial, machine learning e blockchain, por exemplo, são as molas mestras para tornar a jornada no setor imobiliário tão fluida quanto em outros setores.

Isso pode levar ao corte de vagas de trabalho tradicionais como as de corretores?

Isso não significa que vai sumir a figura do corretor ou da imobiliária. Basta olhar mercados mais maduros e evoluídos tecnologicamente. Essas figuras ainda estão lá. Mas os profissionais e as empresas precisam enxergar a tecnologia como ferramenta para aprimorar a jornada. Não acredito na não existência do corretor nem da imobiliária. Acredito que eles estarão presentes de uma outra forma, com novas qualificações, pois ainda vão tratar da compra e venda do ativo que tem o maior valor na vida de muitas pessoas. E esses profissionais serão essenciais para dar segurança ao processo.

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