Café: Melles propõe criação de frente parlamentar latino-americana

Brasília, 9 - O faturamento mundial do agronegócio café cresceu de forma acentuada nos últimos anos, mas o percentual do lucro que fica com os produtores diminuiu muito deste a década de 90. Os números foram apresentados há pouco pelo deputado Carlos Melles (PFL/MG), que é presidente da Comissão de Relações Exteriores da Câmara dos Deputados. Segundo ele, o PIB mundial da cafeicultura soma hoje US$ 70 bilhões, mas os produtores ficam apenas com 8% deste valor. O deputado afirmou que números do Banco Mundial e da Oxfam, organização não governamental britânica, mostram que agronegócio café rendia em 1990 cerca de US$ 30 bilhões e entre 25% a 30% deste valor ficava com os cafeicultores. "Os países produtores precisam se unir para que os cafeicultores voltem a ter uma margem de até 30%", afirmou o deputado, que apresenta hoje proposta para que os países da América Latina e do Caribe formem uma frente parlamentar de apoio a cafeicultura. A proposta está sendo apresentada neste momento a embaixadores e representantes do corpo diplomático da América Latina e Caribe no Brasil, em reunião no Itamarati. Melles comentou que a safra de café verde é negociada no mercado mundial a valores entre US$ 50 e US$ 60 por saca de 60 quilos, mas que até chegar a mesa do consumidor estes valores se multiplicam e a saca é vendida a US$ 2.500 por saca. "O valor de venda se multiplica e há um ganho efetivo até a venda ao consumidor final, mas o produtor não vê a cor deste dinheiro." Melles afirmou que até 1984 a safra de café era comercializada a em média US$ 140, mas atualmente as cotações não chegam a metade deste valor. Como o maior produtor mundial de café, com safra estimada em 40 milhões de sacas, o deputado defendeu que o Brasil lidere uma iniciativa que garanta a ampliação da renda e a adoção de políticas de reestruturação dos preços internacionais. Ele acredita que a Colômbia e o Vietnã, países que disputam a segunda colocação no ranking de maiores produtores, com colheita média de 11 milhões de sacas, vão apoiar a iniciativa. O deputado contou que na semana passada, na reunião do Grupo do Rio, o presidente da Colômbia, Alvaro Uribe, mostrou-se favorável à iniciativa. "Os países produtores são favoráveis a medida que regule a oferta mundial de café, pois todos são prejudicados pelo recuo dos preços mundiais da commodity." Ele disse que já que o governo do presidente Luis Inácio Lula da Silva quer transformar a fome do mundo numa questão política, cabe aos parlamentares dos países produtores também transformar "o empobrecimento da cafeicultura num problema mundial e político". O deputado contou também que nos últimos anos os produtores brasileiros investiram em tecnologia que elevaram em 130% a produtividade de suas lavouras. No entanto, os produtores não têm conseguido lucrar "por serem competentes". Ele criticou a falta de política do governo brasileiro para a questão do café e lembrou que no México os produtores têm recebido subsídios anuais US$ 250 milhões. Para o deputado, este subsídio é pecaminoso e prejudica toda a cadeia produtiva mundial. Em relação à entrada dos Estados Unidos na Organização Internacional do Café (OIC), ele disse que é preciso uma análise cautelosa. O temor do deputado é que o governo norte-americano tenha muito "poder de fogo" nas decisões da OIC.

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