Câmbio e contas externas devem se ‘normalizar’ em 2 anos, dizem analistas

Para eles, deterioração do saldo comercial e da conta corrente do balanço de pagamentos e a valorização cambial são compatíveis com a atual dinâmica da economia brasileira

Francisco Carlos de Assis, da Agência Estado,

30 de setembro de 2010 | 19h28

A deterioração do saldo comercial e da conta corrente do balanço de pagamentos e a valorização cambial são compatíveis com a dinâmica de uma economia que saiu primeiro da crise mundial e que cresce a quase 4 pontos porcentuais acima da média do crescimento mundial. Sem contar a elevada taxa de juros praticada no Brasil. A volta à normalidade dessas três variáveis econômicas só ocorrerá daqui a uns dois anos, por volta de 2012, quando a economia brasileira crescerá a uma taxa de 4,5% ao ano e a economia mundial deverá se expandir a uma taxa média anual superior a 4%, o que demandará taxas de juros pouco mais altas no exterior. Essa é a expectativa de analistas ouvidos nesta quinta-feira, 30, pela Agência Estado.

Neste ano, por exemplo, segundo lembra o analista da Tendências Consultoria Integrada Bruno Lavieri, com o Produto Interno Bruto (PIB) crescendo à razão de 7,2% - expectativa da consultoria -, a média de crescimento mundial atingindo no máximo 4%, o câmbio valorizado e o Brasil ostentando uma das maiores taxas de juros do mundo (10,75%), torna-se mais difícil o surgimento de bons resultados no âmbito do comércio exterior e conta corrente. Neste momento, o cenário é amplamente favorável às operações de carry trade, em que investidores tomam dinheiro emprestado a taxas de juros baixas no exterior e o aplicam em real no Brasil para ganhar com a elevada taxa de juros doméstica.

O ambiente é também propício às importações já que o dólar baixo estimula a importação. "Mesmos os exportadores que não estão conseguindo vender neste momento aproveitam para importar máquinas para melhorar a produtividade", considera Lavieri. Apesar de entender serem legítimas as queixas dos empresários, o analista da Tendências acredita que não será desta forma que se resolverá os problemas.

No caso da balança comercial, por exemplo, o analista projeta para este ano um saldo de US$ 18 bilhões, valor inferior aos US$ 25 bilhões anotados no ano passado, mas que deverá se repetir em 2011. "Tudo isso é uma consequência de uma economia que saiu da crise antes", avalia o economista-chefe da LCA Consultores, Bráulio Borges. Para ele, o PIB brasileiro vai continuar a crescer a taxas superiores à média mundial até 2012, quando a economia brasileira deverá crescer 4,5% e o resto do mundo conseguirá uma taxa de expansão de até 4%.

"Aí o câmbio volta ao normal", prevê o chefe dos economistas da LCA, para quem as demais economias também passarão a ser mais atrativas para investimentos estrangeiros. "Não estou falando que o dólar vai voltar a R$ 2,50, mas para algo em torno de R$ 1,80", destaca o economista.

Para este ano, Borges projeta um superávit comercial da ordem de US$ 15 bilhões. Para 2011 a consultoria projeta um saldo de US$ 10 bilhões e, para 2012, a volta do superávit para o patamar dos US$ 25 bilhões. Na esteira da melhora do câmbio, do superávit comercial, mas de um  fluxo menor de dólares para o Brasil para operações de arbitragem com juro em resposta à recuperação da atratividade de outras economias para os investidores, o dólar deverá subir. Isso fará com que as exportações aumentem e o déficit em conta corrente se reduza e a situação volte, aos poucos, ao normal.

Para o economista-sênior do BES Investimento, Flávio Serrano, o que está ocorrendo agora no campo do comércio exterior é uma reação à dinâmica de crescimento muito forte da demanda. Não só de matérias-primas como também de bens de consumo. No que diz respeito às exportações, ele afirma acreditar em alguma recuperação daqui para frente não só do quantum, mas também dos preços relativos. "Apesar da crise no mundo, a China conseguiu manter os preços das commodities", afirma o economista.

No Relatório de Mercado do Banco Central, mais conhecido como Pesquisa Focus, a mediana das expectativas dos analistas das instituições privadas para o saldo da balança comercial neste ano é de US$ 15 bilhões. Para 2011, de US$ 9,950 bilhões. Para as mesmas comparações, as projeções em relação à conta corrente é de um déficit de US$ 50 bilhões neste ano e de US$ 60 bilhões no ano que vem. Para o câmbio as estimativas apontam para um dólar a R$ 1,78 neste ano e de R$ 1,80 no ano que vem.

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