Nasdaq/ Divulgação
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Caso Stone abre dúvida sobre crédito em fintechs

Analistas descartam risco sistêmico; com mais acesso a dados, risco de inadimplência de novos entrantes tende a diminuir

Matheus Piovesana e Altamiro Silva Junior, O Estado de S.Paulo

27 de novembro de 2021 | 05h00

A quebra da fintech inglesa de crédito Greensill, no começo do ano, ligou o primeiro alerta sobre os modelos de concessão de empréstimos de empresas financeiras não ligadas a bancos. Nas últimas semanas, esse temor voltou a rondar investidores após a brasileira Stone, que interrompeu as concessões após um salto na inadimplência, não conseguir transmitir com clareza quando vai voltar a emprestar dinheiro.

Mas isso pode representar um risco sistêmico? Para os analistas, não. No entanto, a Stone, que viu suas ações caírem 80% este ano, está concentrada justamente no segmento considerado mais delicado: as linhas de empréstimos garantidas por previsões de vendas futuras pelos lojistas, que possuem chance importante de não se confirmarem – ainda mais em um cenário de economia fraca no Brasil.

Para analistas, uma questão que alivia a tensão no mercado é que, apesar do crescimento recente, a fatia do crédito concentrada nas mãos das fintechs ainda é pequena. Só o Bradesco liberou R$ 30 bilhões por canais digitais até setembro – mais do que todas as fintechs juntas. Não há estatística oficial, mas as estimativas do setor são de que as fintechs de crédito vão liberar de R$ 40 bilhões a R$ 50 bilhões em 2021.

Entidades que representam fintechs afirmam que o segmento têm modelos sólidos para evitar inadimplência. “As fintechs atuam em nichos mal servidos pelos bancos”, explica o presidente da Associação Brasileira de Crédito Digital (ABCD), Sandro Reiss, frisando que os índices de calotes são muito parecidos ou iguais aos dos grandes bancos.

O Nubank, que atraiu milhões de clientes antes “sem banco”, fechou setembro com taxa de inadimplência de 3,3%, considerando atrasos acima de 90 dias no cartão de crédito, abaixo da média nacional para a modalidade, de 4,8%. 

E as mudanças regulatórias, como o open banking e o cadastro positivo, podem reduzir a desvantagem de informação dos novos players ante os bancos, avalia Carlos Macedo, analista associado à Ohmresearch. “Quanto mais informação, melhor. Assim tanto o banco quanto a fintech vão poder diferenciar bons e maus pagadores.” 

Para Silvio Marote, sócio da Bain & Company, a diferença do acesso a dados vai ficar menor. “Você está dando informações a mais participantes do mercado”, ressalta. E, no caso do crédito, quanto mais dados, menor o risco. 

Quantidade

A proliferação de fintechs de crédito é uma realidade no Brasil, mas vem acontecendo em ritmo mais acelerado em outros países, como a China. O diretor executivo de serviços financeiros da Accenture, Maurício Barbosa, observa que a oferta de crédito na Ásia atraiu até gigantes do varejo, como o Alibaba. “Vamos ver cada vez mais outros segmentos colocando as ofertas de empréstimo”, ressalta. Para ele, o aumento de instituições não necessariamente causaria um efeito de aumento de inadimplência. 

Antecipação de recebível é apelidada de ‘crédito-fumaça’

O crédito que usa como garantia as expectativas para vendas futuras de uma empresa é um dos pontos-chave dos temores do mercado em relação às fintechs das últimas semanas. Nesse sentido, estão na berlinda justamente as adquirentes, ou empresas de maquininhas de cartão, que costumam atuar fortemente nesse nicho.

No mercado, esse financiamento que conta com faturamento futuro é apelidado de “crédito-fumaça”. Segundo Carlos Macedo, analista ligado à plataforma Ohmresearch, é uma operação altamente sensível a solavancos da atividade econômica – justamente a situação que o Brasil vive hoje, com sucessivas revisões para baixo do crescimento tanto para o ano que vem. “Se o cliente toma crédito neste mês, e as vendas caem no seguinte, aquela garantia não existe”, resume.

Procurada pela reportagem, a Stone não quis se pronunciar. Na época de sua divulgação de resultados, no entanto, a companhia informou que está reestruturando seu produto de crédito para utilizar outras formas de garantia. Em vez de deter-se apenas no fluxo de recebíveis de seus clientes, a credenciadora sinalizou que outros ativos podem ser usados para assegurar o crédito. 

O crédito-fumaça é uma aposta do setor de adquirência, mas há diferenças entre cada uma delas. Em empresas como Cielo, Rede e GetNet, a maior parte desse tipo de crédito é feita pelos bancos às quais as companhias estão ligadas – Bradesco, BB, Itaú e Santander, respectivamente –, e não pela adquirente em si.

Cenário 

  • Não está lá

A antecipação de recebíveis futuros de empresas é apelidada de “crédito-fumaça” porque se fia na média passada de faturamento de um negócio para determinar sua geração futura de caixa. Em momentos difíceis do mercado, como o atual, naturalmente essas perspectivas podem não se confirmar

  • Novos entrantes

Além das empresas de maquininhas, bancos digitais e uma série de outros novos players no mercado financeiro – como plataformas ligadas a varejistas –  devem disputar o mercado de crédito com bancos; isso está acontecendo tanto no Brasil quanto em outros mercados importantes, como a China

  • Alívio

Embora exista desconfiança atualmente em relação ao risco de crédito de fintechs, a tendência no Brasil, no longo prazo, é que esses novos 

players do setor financeiro tenham mais informações sobre clientes, graças a ferramentas como o open banking e o cadastro positivo, reduzindo seu risco

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