China deve flutuar câmbio até julho, diz BNP Paribas

Flexibilização leve da política cambial deve ocorrer em breve devido à forte pressão de nações como EUA, Reino Unido, Alemanha e França 

Ricardo Leopoldo, da Agência Estado,

19 de março de 2010 | 16h18

Em junho ou julho, o governo da China deve iniciar um gradual processo de descolamento do renmimbi em relação ao dólar dos EUA, o que deve levar aquela moeda asiática a flutuar no máximo 0,03 ponto porcentual por dia, afirmou Chen Xingdong, economista-chefe do banco BNP Paribas naquele país oriental.

 

A flexibilização leve da política cambial pelo governo do primeiro-ministro Wen Jiabao deve ocorrer em breve como um reflexo da forte pressão de diversas nações, sobretudo EUA, Reino Unido, Alemanha e França, para que sejam corrigidos os desequilíbrios comerciais entre a China e seus principais parceiros internacionais. Como consequência dessa política, o especialista acredita que a cotação do renmimbi deve sair da marca de 6,83 por dólar para 6,62 no final de dezembro. Para o final de 2011, ele projeta o patamar de 6,30 renmimbis por dólar.

 

De acordo com Chen, é possível que no começo de abril autoridades do governo chinês sinalizem a seus interlocutores oficiais dos EUA que a mudança da política cambial deve ocorrer poucas semanas depois. O economista ressaltou que a grande disputa internacional que tem como foco o fraco valor do renmimbi em relação às moedas conversíveis, especialmente o dólar e o euro, apenas ocorre porque Pequim registra saldos comerciais vigorosos em relação a boa parte dos outros países.

 

"Você acha que toda a discussão sobre este tema estaria ocorrendo se a China apresentasse grandes déficits comerciais?", questionou.

 

Em entrevista a um pequeno grupo de jornalistas em São Paulo, Chen destacou que a mudança cambial da China pode requerer alguns compromissos dos EUA. Embora afirme que não sabe aquilo que Washington pode oferecer a Pequim em troca, ele destacou que o governo do país asiático gostaria de ouvir da Casa Branca três tipos de posições bem claras: a primeira é não interferir em questões de foro doméstico, como Taiwan e o Tibet. O economista ressaltou, contudo, que nesse aspecto a posição norte-americana não é a ideal, pois o governo de Barack Obama liberou US$ 6,4 bilhões em armamentos fabricados nos EUA para o governo de Taipé e o líder religioso tibetano Dalai Lama foi recebido por Obama.

 

Um segundo fator importante para Pequim é que o governo norte-americano suspenda as restrições de exportações de produtos militares norte-americanos para a China. O terceiro elemento é os EUA não colocarem mais barreiras para que aquele país asiático compre participações de empresas multinacionais, o que só não ocorre com companhias com sede na África. Ele citou que o país asiático já tentou adquirir parcelas de várias corporações, entre elas a anglo-australiana Rio Tinto, mas tal negócio foi vetado pela Casa Branca.

 

Inflação

 

Para Chen, a inflação tende a subir nos próximos meses na China e levar o CPI a fechar o ano em 4,9%. Segundo ele, quando o indicador atingir um nível de 4% no acumulado em 12 meses, o banco central do país não deve elevar as taxas de juros básicas, pois tal ferramenta é inócua numa economia dominada por empresas estatais. Segundo ele, a instituição oficial deve adotar outros instrumentos, especialmente o controle da quantidade de dinheiro em circulação na economia, que pode ser feito inclusive pela troca de moeda em espécie em poder do público por títulos públicos.

 

Na avaliação do especialista, outro mecanismo que deve ser adotado pelo governo chinês para diminuir as pressões inflacionárias no curto prazo e diminuir o ritmo dos investimentos na economia, que são hoje o principal vetor de aquecimento do nível de atividade. O PIB do país subiu 8,7% em 2009 devido basicamente ao estímulo fiscal de US$ 586 bilhões divulgado por Pequim em novembro de 2008 para evitar impactos domésticos causados pela recessão global, como aponta a correspondente de "O Estado de S. Paulo", Claudia Trevisan. Para 2010, Chen estima uma expansão de 10,5% do produto interno bruto.

 

"Os investimentos foram relevantes no ano passado, pois a crise (internacional) provocou uma situação extraordinária", comentou Chen. Para ele, com a recuperação paulatina da economia mundial, tais estímulos não são mais necessários. Segundo o especialista, os investimentos na formação de capital sobem a uma taxa de 16% ao ano e a poupança doméstica está atualmente em 48% do PIB, marca bem superior aos 18% registrados pelo Brasil.

 

Perguntado pela Agência Estado se o governo chinês ficará sensibilizado com a queixa do ministro da Fazenda, Guido Mantega, segundo a qual o câmbio administrado no país asiático atrapalha muito a competitividade de exportadores brasileiros, o economista do BNP Paribas disse que não acredita em tal hipótese. Mantega destacou há duas semanas em evento na FGV em São Paulo que os países do G-20 precisam estabelecer normas para harmonizar suas regras cambiais.

 

"O câmbio é um fenômeno e o importante é atacar a causa do problema", comentou Chen. E, para ele, o que provoca pressões sobre Pequim por causa da atual gestão do renmimbi é a realidade econômica da China, que ainda é mais dependente das exportações para crescer do que da demanda doméstica. "Mas essa realidade deve registrar mudanças sensíveis em cinco anos", afirmou. Segundo ele, enquanto o mercado doméstico não se tornar o principal motor da economia daquele país, a China provavelmente não vai alterar de forma mais vigorosa sua política comercial.

 

O especialista do BNP Paribas ressaltou que a estratégia comercial da China é importante para estimular o alto nível do crescimento da economia, o que é essencial para manter a estabilidade social no país. "Essa situação não pode ser mudada do dia para noite", comentou. Ele reconheceu que as queixas internacionais sobre o câmbio desvalorizado já ocorrem há quatro anos, mas, no entanto ressaltou: "O país tem a sua realidade que deve ser levada em consideração especial", frisou.

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