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Chocolate não vai mais acabar, prevê Rabobank

Crescimento do consumo global desacelerou com alta dos preços e agora a previsão é de que produção será suficiente para atender o mercado

Bloomberg News

18 Fevereiro 2015 | 17h01

NOVA YORK - O frenesi global pelo chocolate começa finalmente a perder força.

O panorama econômico global mais sombrio significa que os clientes estão em busca de maneiras de cortar gastos, e a demanda por cacau em 2015 vai crescer no ritmo mais lento dos seis anos mais recentes, de acordo com previsão do Rabobank. 

Em jogo estão os US$ 114 bilhões que devem ser gastos globalmente no doce este ano, de acordo com o Euromonitor Plc. A desaceleração no consumo ocorre depois que um volume de compras recorde levou a três anos seguidos de ganhos para o mercado futuro de cacau. 

O custo mais alto dos ingredientes levou Hershey e Mondelez International, fabricante dos biscoitos Oreo, a aumentar os preços. O movimento levou ao aumento na produção, e agora a demanda está recuando quando os agricultores colheram uma safra recorde na Costa do Marfim, maior produtora mundial do artigo.

O processamento de cacau teve queda na Ásia, Europa e América do Norte no quarto trimestre, temporada de auge nas vendas, de acordo com relatórios da indústria divulgados no mês passado.

"O chocolate é um desses artigos que se torna um luxo nos momentos de dificuldade", disse Sameer Samana, estrategista global do Wells Fargo Investment Institute em St. Louis, encarregado de administrar US$ 1,6 trilhão. "Os chocólatras estão percebendo que isso é mais um desejo do que uma necessidade. Além disso, parece que há bastante cacau no mundo, e o fornecimento não será colocado em risco."

O mercado futuro de cacau teve queda de aproximadamente 14% depois de alcançar no mês de setembro o ponto mais alto em três anos. Os preços que entraram num mercado em baixa no dia 29 de janeiro vão ampliar as perdas em 18%, chegando a US$ 2.400 por tonelada métrica até o final do ano, ante os US$ 2.931 de sexta feira, de acordo com média de 10 estimativas de um levantamento da Bloomberg News. Em Nova York, o preço no mercado futuro tinha mudado pouco, em US$2.929 na terça feira após o feriado do Dia do Presidente nos EUA.

A Organização Internacional do Cacau estima que a produção deve ser equivalente à demanda este ano, dizendo também que um pequeno excedente é possível. Se a produção ultrapassar o consumo, esta será a terceira temporada seguida de excesso de oferta, a maior sequência desde 1991, de acordo com dados da entidade.

A demanda resiliente nos EUA pode ajudar a compensar pelo declínio observado na Europa e na Ásia. No período de 12 meses encerrado no dia 28 de dezembro, as vendas de chocolate no varejo americano, incluindo supermercados, farmácias e outros pontos de venda, tiveram alta de 2,4% ante o ano anterior, chegando a US$ 3,88 bilhões, de acordo com a firma de pesquisa de mercado IRI, com sede em Chicago.

Condições climáticas extremas ameaçam a oferta, levando os preços a uma alta de quase 9% em fevereiro. Comuns em janeiro, os ventos secos trazendo a poeira do Saara tiveram este ano o dobro da duração do ano anterior em partes da África Ocidental, destruindo o cacau no pé. 

Em Gana, segundo maior produtor mundial, o clima seco vai reduzir a produção nacional em até 9% ante o ano anterior, rendendo uma colheita de 820 mil toneladas, disse no mês passado uma fonte informada a respeito das previsões do governo.

"No longo prazo, ainda precisamos de investimento na indústria do cacau para atender ao crescente consumo de chocolate", disse Bill Pearce, vic-presidente da corretora McKeany Flavell Co., de Oakland, Califórnia, cujos clientes já incluíram a Barry Callebaut, maior processadora mundial de chocolate em massa. "Se o preço ficar baixo demais, os agricultores não investirão, e a colheita não vai atender à demanda."

Na temporada anterior, os agricultores da Costa do Marfim colheram a maior safra de todos os tempos, aumentando os inventários e oferecendo matéria prima farta mesmo com o tempo seco prejudicando a colheita desse ano. em 15 de fevereiro, a entrada de cacau nos portos americanos tinha chegado a 1.184 milhões de toneladas, aumento de aproximadamente 3% ante o ano anterior, e o ritmo mais acelerado observado em uma década, de acordo com a Knowledge Charts, divisão de Análise de Risco em Commodities de Bethlehem, Pensilvânia.

Embora o cacau apresente queda de 1% no mercado futuro nos 12 meses mais recentes, o preço ainda está 90% mais alto do que há dez anos. Em 2014, fabricantes de chocolate como Hershey e Mars Inc aumentaram os preços para compensar os custos crescentes.

"Os ingredientes usados em nossa produção de chocolate estão entre os melhores e mais caros, e foram um dos principais" fatores no "ajuste de preços de US$ 1,6 bilhão que fizemos no ano passado", disse a diretora executiva da Mondelez, Irene Rosenfeld, em apresentação de rendimentos da empresa de Deerfield, Illinois, no dia 11 de fevereiro. 

A alta nos gastos limitou o apetite dos consumidores, e a demanda não deve se recuperar antes de "significativos" declínios nos preços, de acordo com Jonathan Parkman, codiretor de agricultura do Marex Spectron Group, de Londres.

O crescimento das vendas internacionais da Hershey foi prejudicado no trimestre passado por causa de "ventos macroeconômicos desfavoráveis que ainda não cessaram", disse o diretor executivo da Hershey, John Bibrey, em conference call da empresa da Pensilvânia no dia 29 de janeiro.

"Calculamos que a demanda por chocolate permanecerá limitada durante a maior parte do ano, especialmente na Europa e na Ásia", disso o analista de commodities Carlos Mera Arzeno, do Rabobank International, em entrevista pelo telefone. "A demanda tem sido relativamente fraca e as remessas da Costa do Marfim estão melhorando."/Tradução de Augusto Calil

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