Clientes pressionam e Vale apresenta nova fórmula de reajuste do minério

Empresa vai propor aos compradores uma fórmula alternativa para o preço do produto, que levará em conta o preço futuro

Fernanda Guimarães e Cláudia Trevisan, de O Estado de S. Paulo,

31 de outubro de 2011 | 23h12

Pressionada pelos grandes grupos siderúrgicos, que encabeçam sua lista de clientes, a Vale cedeu e incluiu no cálculo de preço do minério de ferro para contratos de longo prazo uma fórmula que leva em conta as cotações futuras.

Caso a média de preços ao final de três meses do fechamento do acordo seja menor do que o valor preliminar estipulado no contrato, o cliente terá o desconto proporcional. Se, ao contrário, o preço for maior, a mineradora cobrará a diferença. É uma proposta inédita, que trata o minério como se fosse uma mercadoria com cotação futura, como as outras commodities.

O presidente da Vale, Murilo Ferreira, ressaltou que a mineradora continuará adotando o sistema atual para os clientes que assim preferirem, que considera a média de preço dos três meses anteriores para a fixação do valor do contrato de longo prazo. O preço no mercado à vista (spot) é a terceira opção, mas não vale para contratos longos. Portanto, não traz a segurança de disponibilidade do produto para fornecimento e terá de ser avaliado caso a caso. Com a enorme volatilidade do mercado, a reboque da crise internacional, o fechamento dos contratos virou uma recorrente queda braço entre mineradoras e siderúrgicas.

"Nós vamos oferecer um cardápio maior. Quem quiser pegar filé, come filé; quem quiser pegar peixe, come peixe. Mas, não vale pedir peixe e querer comer filé", disse Ferreira.

Pressão. Vem da China, maior importador de minério de ferro do mundo, a maior pressão pela mudança no sistema de reajuste de preços, que reflita a recente queda da cotação no mercado à vista. Em março de 2010, as grandes mineradoras, entre elas a Vale, adotaram um modelo de revisões trimestrais dos preços, em substituição aos acordos que eram fechados com prazo de um ano, das três décadas anteriores. O vice-presidente da Associação Chinesa de Ferro e Aço, que representa os produtores de aço da China, Zhang Changfu, disse ontem que a entidade quer um sistema "aberto".

A Vale e as australianas BHP e Rio Tinto respondem por cerca de 60% do comércio mundial de minério de ferro - e têm a China como principal cliente. "Nós não queremos preços baixos ou altos, mas preços justos", declarou Zhang. "Qual será esse novo método de precificação eu não posso dizer, já que todo o mundo ainda o está discutindo." A cotação do produto no mercado à vista caiu 30% desde o início de setembro, para US$ 130 a tonelada, cerca de US$ 30 a menos do que o preço vigente nos contratos de longo prazo renegociados trimestralmente.

Murilo Ferreira está confiante de que a nova proposta encontrará consenso no mercado. "A gente é comprador e vendedor. Espero que o modelo agrade (os clientes). Se não agradar, tentaremos outro. Mas estamos confiantes", disse. O executivo reiterou que o cliente que optar por um modelo deverá permanecer nele, na queda ou na subida do preço.

Sobre a negociação no modelo spot, o executivo disse que "essa é uma característica à parte" e quem optar por esse modelo discutirá com a mineradora.

Na semana passada, o diretor de marketing, vendas e estratégia da Vale, José Carlos Martins, havia frisado que as regras a serem definidas para o setor têm de trazer estabilidade e não podem mudar de acordo com o interesse dos compradores. "Nós não podemos trabalhar com um sistema no qual eles querem o preço à vista quando o preço do minério cai e querem o preço fixado em contratos se sobe", ressaltou Martins.

Na avaliação da Associação Chinesa de Ferro e Aço, a redução da cotação vai se manter nos próximos meses. "Os preços do minério de ferro no mercado à vista tendem a continuar em queda", afirmou Zhang Changfu.

Empresas chinesas enfrentam escassez de recursos e de crédito, em razão do aperto monetário promovido pelo governo para combater a inflação e evitar a formação de uma bolha no setor imobiliário, um dos destinos da produção de aço.

O crescimento da economia desacelerou para 9,1% no terceiro trimestre, o mais baixo patamar em dois anos. Analistas estimam que o índice de expansão cairá para cerca de 8% no quarto trimestre. O menor ritmo de crescimento deverá afetar a produção de aço e a demanda chinesa por minério.

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