Clima: El Niño fraco pode ser aliado da agricultura na safra 04/05

São Paulo, 2 - Quase sempre motivo de apreensão pelas mudanças climáticas que provoca, o fenômeno El Niño que está se formando pode favorecer a agricultura brasileira nesta safra. Meteorologistas prevêem uma manifestação mais fraca que a de 2002/03, quando o El Niño também foi considerado moderado, ao contrário de 1997/98, período que registrou enchentes na região Sul e queimadas no Norte do País. Como o fenômeno se caracteriza por mais chuvas na região Sul, é pequena a chance de se repetir em 2005 a estiagem que provocou quebra na safra de verão 2003/04. Esta é a avaliação de Paulo Etchitchury, diretor da Somar Meteorologia. Ele diz que o fenômeno já está caracterizado nos mapas meteorológicos e, por ser mais fraco, tende a garantir uma safra de verão com chuvas bem distribuídas. Por enquanto, enfatiza, o El Niño não interfere de maneira significativa no clima. Mesmo o maior volume de chuvas registrado desde outubro nas regiões Sul e Sudeste é considerado, por ele, dentro da média. "Em anos sem El Niño também chove mais na primavera", diz. Assim, no Sul do Brasil a tendência agora é de que as chuvas diminuam de freqüência e intensidade. O período também foi mais chuvoso no oeste paranaense e sul do Mato Grosso do Sul, o que chegou a atrapalhar a implantação da lavoura de verão. Etchitchury lembra que no Centro-Oeste o regime de chuvas começa entre outubro e novembro, portanto a precipitação no sul mato-grossense não "foi fora de hora". Assim como não houve atraso no regime de chuvas em Goiás e divisa deste Estado com Minas Gerais, o que chegou a preocupar alguns produtores. "Naturalmente, eles esperam a chuva mais cedo para poder plantar a safra e também fazer a safrinha", diz ele. A chuva já chegou à região, e também às áreas produtoras da Bahia, sul do Maranhão e sul do Piauí. Com isso, as culturas de soja, algodão e feijão plantadas nestes Estados estão favorecidas. No ano passado, as chuvas só chegaram no final de dezembro. "É claro que há variações regionais, mas no geral a instalação da safra de verão está evoluindo em condições médias de clima", informou. Ao mesmo tempo em que deve favorecer a safra de verão do Sul do País, com melhor distribuição das chuvas, o El Niño é fator de preocupação para a safra de inverno. Anos de El Niño têm outono mais úmido, com risco de geadas. Segundo Paulo Etchitchury, modelos meteorológicos indicam que o fenômeno continuará no primeiro semestre de 2005, mas como é um fenômeno de fraca intensidade não deve gerar os problemas ocorridos na safra 2002/03, quando produtores de cereais de inverno, especialmente trigo, sofreram perdas. Etchitchury diz que, sendo um fenômeno global, o El Niño pode gerar oportunidades para o produtor atento. Ele lembra que em anos de El Niño há escassez de chuva nas regiões produtoras de soja dos Estados Unidos e um maior número de frentes frias no sul do país, gerando excesso de umidade nas áreas produtoras de algodão. "Como este é um El Niño fraco pode não gerar grandes anomalias, mas o produtor tem que ficar atendo e usar as informações a seu favor", diz. (Jane Miklasevicius, segue) A temperatura da água do Oceano Pacífico, na região próxima à Linha do Equador, é o indicativo da manifestação do El Niño. De julho a outubro, segundo o Centro de Previsão do Tempo e Estudos Climáticos (CPTEC), do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), a temperatura da água oscilou entre 0,5 grau a 1,5 grau acima da média histórica. No último mês esse aumento de temperatura, antes concentrado no oeste do Pacífico, se estendeu para o leste, ocupando toda a faixa da zona do Pacífico Equatorial. "Este é o sinal de que o El Niño está ocorrendo", diz Hélio Camargo, responsável pelo grupo operacional de previsão climática do Inpe. Segundo ele, os modelos utilizados pelo CPTEC, assim como os adotados por institutos meteorológicos dos Estados Unidos, indicam que o fenômeno não será tão intenso como em 1997/98, o mais intenso do século passado, quando a temperatura da água chegou a cinco graus acima do normal. Uma análise do CPTEC aponta, inclusive, que esse El Niño será ainda mais moderado que o de 2002/03, quando o clima não chegou a sofrer grandes alterações no Brasil. O fenômeno costuma interferir no regime de chuvas da região Sul, especialmente Rio Grande do Sul, e do norte do Nordeste e Leste da Amazônia. No Sul, há um excesso de chuva. No norte, há falta dela. Nas demais regiões, Sudeste e Centro-Oeste, o El Niño influi diretamente na temperatura, provocando elevação. Segundo Camargo, o aumento das chuvas provocadas pelo El Niño na região Sul se concentra na primavera. Assim, ele prevê diminuição do volume de chuvas com a entrada do verão, devendo se aproximar da média histórica. Já a temporada de chuvas no norte do Brasil começa em fevereiro, por isso ele considera prematuro prever com será a implicação do El Niño na região a partir do ano que vem. "Vamos monitorar a evolução do El Niño e as temperaturas no Sudeste e Centro-Oeste para saber como será o regime de chuvas no leste do Amazonas e norte do Nordeste", diz. A previsão do CPTEC para os meses de dezembro a fevereiro para a região Sul é de chuvas dentro da média histórica e temperatura normal. O Sudeste e Centro-Oeste terão chuva dentro da média e temperatura normal a acima da média. O Nordeste terá chuva próxima da média no litoral e sul da Bahia, variando de normal a abaixo da média no interior (sertão e agreste). Já a região Norte terá chuvas de normal a ligeiramente acima da média no norte da região e normal nas demais áreas. A temperatura ficará dentro da média histórica.

Agencia Estado,

03 de dezembro de 2004 | 16h38

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