Anderson Stevens/Sport
Anderson Stevens/Sport

Bancos e consultorias agora disputam o futebol

Empresa criada pelo BTG fechou contratos com o Sport e o Fortaleza; oportunidades abertas com a Lei da SAF já atraíram empresas como XP e EY

André Jankavski, O Estado de S.Paulo

10 de março de 2022 | 10h47

O ano de 2021 foi daqueles para os torcedores do Sport esquecerem, afinal foi a temporada em que o time pernambucano caiu para a segunda divisão pela sexta vez. Porém, mais do que isso, foi um ano conturbado politicamente e administrativamente dentro do clube, que teve até mesmo uma renúncia de presidente. Para completar, por causa do rebaixamento, o clube perdeu 80% de sua receita em 2022. Mesmo assim, a nova gestão do Sport quer que este ano seja diferente: o clube promete uma verdadeira reformulação para colocar as contas em dia, realizar uma transformação digital e voltar a ser uma das principais equipes do País.

Esse movimento do Sport está se tornando cada vez mais uma realidade no futebol brasileiro. Se há pouco tempo a existência de clubes organizados financeiramente e com gestões sustentáveis eram exceções, agora virou uma necessidade. E isso também se tornou uma oportunidade de negócio para grandes consultorias e até bancos de investimento, que estão apostando que esse mercado vai crescer ainda mais após a aprovação da Sociedade Anônima do Futebol (SAF), que permitiu que os clubes pudessem ter investidores externos tocando a sua área de futebol.

Um deles é o BTG Pactual, que criou no ano passado a joint venture Win The Game com o empresário Claudio Pracownik, executivo com passagens por diversos bancos (incluindo o BTG) e ex-vice-presidente de finanças do Flamengo. A empresa acabou de assinar um contrato com o próprio Sport por três anos para colocar em prática projetos de marketing, transformação digital, governança e reestruturação. “Não temos a intenção de virar uma SAF agora, mas queremos deixar tudo pronto para caso apareça uma boa oportunidade”, afirma Eleuberto Martorelli, vice-presidente financeiro do Sport.

Além do Sport, a Win The Game também fechou um contrato para tocar a transformação digital do Fortaleza. Segundo Pracownik, essa é a maior oportunidade de negócio para o futebol no curto e médio prazos. Isso porque, na visão do executivo, o futebol é o setor que não tem nenhum tipo de digitalização. “Os clubes têm milhões de torcedores, milhões de seguidores nas redes sociais, e não se sabe nada sobre eles. Vamos usar os dados e inteligência artificial para criar um valor maior para o clube e seus patrocinadores”, diz o executivo, que vai ficar com um porcentual de um eventual aumento de receita das áreas (além da criação de novos).

Sobrevivência

A criação da SAF (e os investimentos já confirmados em clubes como Cruzeiro, Botafogo e Vasco) tem movimentado o mercado como um todo. Mas, para Pracownik e boa parte do setor, a melhor opção para os clubes, neste momento, é arrumar a casa para conseguir melhores investimentos no futuro. “Quem não tem outra opção e precisa pagar o jantar no fim do dia, acaba não tendo outra opção. Mas é como se você fosse vender um carro: se você trocar os pneus, fizer uma revisão e limpá-lo, provavelmente conseguirá um valor maior”, diz Pedro Daniel, sócio da consultoria EY.

A EY é uma das consultorias por trás da transformação dos maiores clubes do Brasil e também está trabalhando para aqueles que querem mudar de vida agora. Passaram pela mão dela, por exemplo, Flamengo, Palmeiras e Atlético-MG, equipes que estão entre as mais vencedoras do País nos últimos anos e são apontadas também como as mais organizadas fora de campo. Isso pode ser visto nos números. De acordo com dados da consultoria Sports Value, Flamengo, Palmeiras e o Atlético-MG valem, hoje, R$ 2,7 bilhões, R$ 2,3 bilhões e R$ 1,9 bilhão, respectivamente. 


Por isso, a EY segue negociando com diversos clubes para mostrar as oportunidades que podem aparecer se todo o negócio estiver nos conformes, e a empresa também vai atuar com a Win The Game na gestão do Sport e de outros que estão em negociação. “Hoje, os clubes sentem a necessidade para aumentar a eficiência e as conversas com eles se tornaram mais naturais”, diz Daniel, da EY.

Não à toa, uma das consultorias mais importantes no ramo de reestruturação de empresas, a Alvarez & Marsal, entrou de cabeça nessa área no ano passado, com o executivo Fred Luz, que já atuou como CEO do Flamengo. Desde então, a companhia já trabalhou com o Cruzeiro, Coritiba e Figueirense - clube que passou por uma das piores crises recentes do futebol brasileiro, com jogadores se recusando a entrar em campo por falta de pagamento.

A atuação da consultoria é, principalmente, na gestão financeira e reestruturação das dívidas. “Nós entramos junto com os clubes como entramos com as empresas. No fundo, o que o Brasil precisa no futebol é de reestruturação”, diz Luz.

Na visão dos especialistas, fazendo a lição de casa os clubes vão conseguir aproveitar um ótimo momento para investimentos. De acordo com Guilherme Ávila, sócio da área de esportes da XP Investimentos, atualmente há muito mais investidores procurando por clubes do que o contrário.

E é nessa ponta que a XP quer atuar: ser o assessor financeiro para conectar uma ponta a outra, como fez com o Cruzeiro e com o Botafogo, que foi vendido para o empresário americano John Textor. Segundo Ávila, o sucesso desses dois clubes será fundamental para o crescimento do mercado.

“A oferta e a demanda ficarão equilibradas quando saírem os primeiros sinais de que o SAF está indo bem e gerando frutos”, afirma o executivo.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.