Colapso da UE é mais provável que o do euro

O processo de integração europeia chegou a um ponto realmente irônico: agora, a desintegração da União Europeia é mais provável do que o colapso da moeda única que deveria mantê-la unida

Niall Ferguson,

23 de novembro de 2011 | 22h39

A política europeia tornou-se um gigantesco jogo de Jenga (ou Jogo de Demolição da Torre). Desde junho de 2010, o governo caiu na Holanda, Eslováquia, Bélgica, Irlanda, Finlândia, Reino Unido, Portugal, Eslovênia, Grécia, Itália e Espanha.

A questão não é: Qual será o próximo? A questão real é: Quando a torre Jenga cairá? Muitos supõem que o momento crucial ocorrerá quando um país - muito provavelmente a Grécia - sair ou for expulso da união monetária europeia. Mas a hipótese que mais preocupa os eurocratas é diferente: eles temem que um dos membros deixe a própria União Europeia.

E não se trata absolutamente de um medo irracional. Pela lei da UE, seria muito mais fácil que a Grã-Bretanha saísse da UE do que a Grécia da zona do euro.

Portanto, o processo de integração europeia chegou a um ponto realmente irônico: agora, a desintegração da União Europeia é mais provável do que o colapso da moeda única que deveria mantê-la unida.

O que não surpreende. Em março de 2000, escrevi em coautoria com Larry Kotlikoff na revista Foreign Affairs: "A História oferece escassos exemplos de ajustes bem-sucedidos na escala hoje necessária em alguns países europeus. O que ela oferece são vários exemplos de uniões monetárias que se desintegraram quando as tensões fiscais se tornaram incompatíveis com a desagradável aritmética de uma moeda única". O euro, previmos na época, "poderá degenerar - não da noite para o dia -, mas na próxima década".

Nosso timing não foi tão ruim. A degenerescência do euro começou em 2010, embora a crise tenha certamente se intensificado nos últimos meses. Especificamos "degenerescência" para destacar os desequilíbrios característicos de uma geração surgidos da combinação de fatores como populações em que o número de idosos se tornava cada vez mais numeroso, e sistemas previdenciários excessivamente generosos. Mesmo que não houvesse uma crise financeira desencadeada pela crise das hipotecas subprime nos Estados Unidos, que começou em 2007, o sistema monetário europeu ainda teria degenerado enquanto a dívida pública subia vertiginosamente.

Mas também procuramos avaliar como, uma vez criada, a zona do euro poderia ser desmantelada. O custo da saída seria proibitivo para um pequeno país periférico como a Grécia, que da noite para o dia perderia o acesso a toda fonte de crédito externo. E a sua saída constituiria um precedente para a saída de outros, provocando um contágio em toda a Europa meridional.

Finalmente, se todos os irmãos mais fracos deixassem a união monetária, com a exceção da Alemanha, Áustria, Holanda e Finlândia, o fortalecimento do euro causaria enorme sofrimento aos exportadores desses países. Em suma, quase ninguém ganharia com o desmantelamento da zona do euro.

É por isso que não faço parte do crescente grupo de especialistas que preveem a degenerescência do euro - muitos dos quais, há 12 anos, afirmavam com igual confiança que o euro seria um grande sucesso.

Quem acompanhava atentamente os acontecimentos dos anos 90 tinha uma ideia clara do que a união monetária com a República Federal da Alemanha acarretaria: poder de compra a curto prazo, mas desemprego a longo prazo, mitigado por ajudas financeiras.

Alguns duvidam que os contribuintes alemães estejam dispostos a pagar subsídios a Lesbos e a Livorno como estiveram para ajudar Leipzig. Mas se a alternativa for um rompimento da zona do euro, aceitarão. A chanceler Angela Merkel deixou isso bem claro quando instou os membros do seu partido, os cristão democratas, a aceitar "não uma Europa menor, mas maior ... Isto significa criar uma Europa que garanta que o euro tenha um futuro. Nossa responsabilidade não se detém mais nas fronteiras dos nossos países".

Os que apostam na dissolução do sistema do euro acreditam que os alemães, que têm horror à inflação, jamais permitirão que o Banco Central Europeu realize compras de títulos em grande escala - política conhecida nos Estados Unidos como afrouxamento quantitativo. Entretanto, isso terá de acontecer para ajudar não apenas os governos da região do Mediterrâneo, mas também os bancos insolventes - incluindo os bancos alemães - em toda a zona do euro.

Em suma, a união monetária europeia sobrevive, embora com um futuro sombrio de maior desemprego para a Europa do Sul e aumentos dos impostos para a do Norte.

Mas o destino da própria União Europeia será muito diferente. A criação da moeda única - obedecendo à lei dos efeitos indesejados - desencadeou um potente processo de desintegração europeia. O fato de nem todos os 27 membros da UE terem entrado na união monetária foi a primeira manifestação. Hoje, temos um sistema duplo, com 17 países que aderiram ao euro, e 10 - principalmente a Grã-Bretanha - que mantiveram suas moedas.

O resultado é que, hoje, as decisões fundamentais - particularmente as referentes à escala de transferências das nações mais fortes para a periferia - estão sendo tomadas pelos 17, e não pelos 27. Mas os 10 que não aderiram ao euro ainda poderão ser chamados a contribuir para alguma combinação de ajuda, cortes de orçamento e recapitalização de bancos que os 17 vierem a decidir. Também poderão ter de se submeter a uma regulamentação financeira mais rigorosa ou a um imposto sobre transações financeiras, ideias muito mais populares em Berlim do que em Londres.

Trata-se de um desequilíbrio insustentável. Se os países do euro estão determinados a percorrer o caminho do federalismo - e não tiverem uma alternativa melhor -, os que estão fora da zona do euro enfrentarão uma escolha difícil: desistir da soberania monetária ou aceitar o papel de cidadãos de segunda classe na UE.

Nesse caso, a lógica da persistência da Grã-Bretanha na UE parece cada vez menos convincente. A opinião pública britânica há muito é eurocética. Se houver um referendo, como muitos conservadores gostariam, os britânicos poderão aprovar sua saída da UE. E, segundo o Artigo 50 do Tratado da União Europeia, a saída precisa apenas ser aprovada por uma maioria de dois terços dos membros da UE.

No grande jogo do Jenga europeu, muitos preveem que o governo francês de Nicolas Sarkozy cairá no próximo ano. Mas o que poderia provocar a desintegração da União Europeia, ou pelo menos a redução significativa do número dos seus membros, seria a retirada da Grã-Bretanha. E isto começa a parecer bastante possível.

Niall Ferguson, professor de história em Harvard

Tradução Anna Capovilla

Tudo o que sabemos sobre:
Eurozona do EuroUnião Europeia

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.