Com crise nos EUA, investidor busca proteção no Reino Unido

País passou por plano de austeridade fiscal e tem atraído aplicações. Contudo, mercado não tem capacidade de absorver todos os recursos que buscam segurança

Daniela Milanese, da Agência Estado,

29 de julho de 2011 | 11h25

As incertezas sobre a dívida dos Estados Unidos já levam investidores internacionais para longe dos títulos da dívida americana. O principal destino, hoje, é visto nos papeis emitidos pelo Reino Unido. A procura acontece porque os britânicos embarcaram num severo plano de austeridade fiscal e conseguiram afastar, por enquanto, o risco de rebaixamento do rating AAA - máxima classificação de confiança.

Entretanto, analistas consultados pela Agência Estado em Londres apontam que os gilts (títulos do Reino Unidos) não têm condições de absorver a extrema liquidez (volume de negócios) dos Treasuries norte-americanos - assim como nenhum outro ativo. Além disso, a atual estagnação econômica pode trazer novos riscos de corte da nota de crédito do Reino Unido no futuro.

A demanda fez o rendimento dos gilts cair abaixo dos juros oferecidos pelos americanos pela primeira vez em cerca de dois anos. A taxa para 10 anos chegou a 2,967%, taxa inferior a dos papéis norte-americanos, de 2,974%, ontem pela manhã. Ou seja, os investidores estão exigindo rendimento menor dos gilts, numa indicação de que podem ser considerados mais protegidos neste momento.

Analistas são unânimes em afirmar que se trata de um movimento rumo à segurança.

"É um fluxo de recursos para porto seguro", disse Charles Diebel, estrategista-chefe do Lloyds Bank. "A disputa em torno do teto da dívida dos EUA faz os gilts serem cada vez mais vistos como refúgio, então essa também é uma história que envolve o Reino Unido", afirmou Matthew Sherwood, economista global da Experian.

Para James Knightley, economista do banco ING, o preço dos gilts está subindo (com consequente queda do rendimento) porque existe um plano firme de austeridade em prática pelo governo britânico.

Dívida dos Estados Unidos

Nos Estados Unidos, democratas e republicanos não conseguem chegar a um acordo para elevar o teto da dívida, às vésperas do prazo final de 2 de agosto.

Como também possuem nota AAA, os títulos britânicos seriam em tese uma opção aos Treasuries, que correm risco crescente de perderem a classificação máxima. "Se houver rebaixamento dos EUA, como é provável, investidores irão procurar outros ativos para reservas e os gilts devem ser um deles", acredita Diebel.

Mas os especialistas apontam que o tamanho do mercado de papéis britânicos não é suficiente para absorver tudo. Basta lembrar que os EUA possuem US$ 14,3 trilhões em dívidas, enquanto o Reino Unido deve cerca de US$ 1,6 trilhão. "O principal problema é que o mercado britânico de títulos é muito menor que o norte-americano", afirmou James Knightley, economista do banco ING. "O mercado de giltsnão é grande o suficiente", concordou Diebel.

O Reino Unido conseguiu se livrar da ameaça da perda da nota AAA em razão da política de total austeridade do primeiro-ministro conservador David Cameron, numa coalizão pouco usual com a esquerda do partido Liberal Democrata. Quando assumiu o poder, em maio do ano passado, as agências de classificação já tinham lançado alertas e existia um risco real de rebaixamento do rating do país - os yields dos gilts chegaram a 4% em 2010.

Um mês depois da posse, o governo lançou um orçamento de emergência com aperto de US$ 65 bilhões por ano até 2015, o equivalente a 6% do Produto Interno Bruto (PIB). O objetivo é reduzir o déficit fiscal de 11% do PIB, um dos piores da União Europeia, para 1,1% até 2016. Isso permitiu que o país se isolasse da turbulência provocada pela crise de dívida soberana no continente. Embora tenha números tão frágeis quanto os da periferia, o custo de financiamento do governo é muito menor, pois existe a perspectiva de sustentabilidade da dívida pública no futuro.

O plano foi visto como o mais rigoroso desde o governo de Margaret Thatcher, no início dos anos 1980. Na época, o Instituto Nacional de Pesquisa Econômica e Social (NIESR, na sigla em inglês) considerou o orçamento "dramático".

Em meio à estagnação econômica, as medidas geram insatisfação social. Uma manifestação de estudantes contra o aumento do custo com educação tomou as ruas de Londres neste ano.

Recentemente, o funcionalismo público realizou greves e as escolas fecharam.

Estagnação econômica traz risco para rating britânico no futuro

Embora tenha escapado do risco de corte da nota AAA no curto prazo, o Reino Unido não está livre de problemas no futuro. A estagnação econômica é a principal preocupação, pois tende a ser agravada exatamente pelas medidas de austeridade fiscal adotadas para driblar o elevado endividamento público.

Analistas acreditam que o país está seguro no momento, diante da disposição para os cortes mostrada pelo governo conservador. "O temor é que o crescimento econômico está decepcionando e existe risco de que o Reino Unido seja rebaixado (no futuro) em razão disso", disse James Knightley, economista do banco ING.

O país atravessou longa recessão de um ano e meio durante a crise financeira global e até agora não engatou recuperação. Depois de encolher 0,5% no quarto trimestre de 2010, o Produto Interno Bruto (PIB) subiu 0,4% no primeiro trimestre deste ano e apenas 0,2% no segundo. A atividade, portanto, não sai do lugar.

O desempenho ainda é, principalmente, resultado da turbulência financeira que atingiu em cheio o país a partir de 2008. A explosão da bolha imobiliária e a crise bancária tiveram efeitos graves sobre um dos maiores centros de finanças do mundo. Isso significa que os efeitos da austeridade ainda estão só começando e irão aparecer de forma mais clara no PIB dos próximos trimestres.

A população enfrenta desemprego elevado (7,7% em maio) e aperto na renda. Para piorar, a inflação chegou a bater 4,5% neste ano, mais do que o dobro da meta do Banco da Inglaterra (BoE).

Em entrevista ao "Financial Times" nesta semana, o ministro de Negócios Vince Cable afirmou que o BC inglês deveria considerar mais uma rodada de alívio quantitativo, como fez durante o auge da crise, alegando "sério problema de demanda fraca". O comentário foi visto como pouco usual, já que o BoE é formalmente independente.

Embora os analistas descartem a possibilidade de um QE2 (na sigla em inglês) por enquanto, os mercados projetam a primeira alta de juros somente para o último trimestre de 2012, numa mostra do desânimo com a atividade. "Por enquanto, o Reino Unido está protegido do corte de rating pela questão fiscal, mas haverá risco se a economia continuar muito fraca", afirmou disse Charles Diebel, estrategista-chefe do Lloyds Bank. 

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