Philip Cheung/The New York Times - 24/8/2021
Philip Cheung/The New York Times - 24/8/2021

Com 'custo verde', Califórnia vai pagar caro para deixar novos edifícios mais ecológicos

Uma recente mudança no código de construção para novas obras deverá reduzir as emissões ao obrigar o uso de painéis solares e baterias, aumentando também os preços em um Estado já caro

Ivan Penn, O Estado de S.Paulo

04 de setembro de 2021 | 05h00

WASHINGTON - A Califórnia é líder entre os Estados americanos no combate às mudanças climáticas por meio de estímulos ao uso de energias renováveis e carros elétricos. Agora, ela está assumindo um desafio ainda mais difícil – reduzir as emissões de lares, empresas e outras instalações que precisam de aquecimento, ar-condicionado e energia.

Neste mês, autoridades reguladoras da Califórnia atualizaram o código de construção civil do Estado para exigir que novas residências e edifícios comerciais sejam equipados com painéis solares, baterias e fiação necessária para abandonar os aquecedores alimentados por gás natural e dar lugar a bombas de calor movidas a eletricidade. Especialistas em energia qualificam a alteração na lei como uma das mais abrangentes atualizações ambientais em legislações que regem construções de imóveis já propostas por uma agência governamental.

Mas alguns especialistas em energia e construções alertam que a Califórnia pode estar querendo demais, rápido demais e concentrando o foco no objetivo errado – as novas construções, em vez do universo muito maior das estruturas já existentes. 

O principal receio é de que essas novas exigências aumentem os já elevados custos de construção no Estado, tornando as novas residências inacessíveis para famílias de classe média e baixa, que não conseguem pagar com tanta facilidade os custos iniciais de construções que utilizam energia e equipamentos de aquecimento mais amigáveis ao meio ambiente – que tipicamente acabam pagando por si mesmos com o tempo, em razão da economia nas contas mensais que ocasionam.

Uma residência média para uma família na Califórnia custa mais de US$ 800 mil (por volta de R$ 4,1 milhões), em comparação a cerca de US$ 360 mil (R$ 1,8 milhão) no restante do país, e empresas pagam mais por aluguel em cidades como San Francisco e San Jose do que em qualquer outra cidade americana. 

Uma razão de esses custos serem mais elevados no Estado é que não estão sendo construídas residências o suficiente lá, algo que legisladores tentaram abordar na semana passada, ao avançar com um projeto de lei que pretende permitir mais de uma residência por terreno.

Incluir painéis solares e baterias nas estruturas de novas residências pode elevar o custo das construções em US$ 20 mil (R$ 103 mil) ou mais. Isso pode não ser importante para alguém que esteja construindo uma casa de US$ 1 milhão (R$ 5,1 milhões), mas pode significar um fardo pesado para uma família que pegou emprestado algumas centenas de milhares de dólares para comprar sua residência.

“Você vai ver o impacto disso nos preços de aluguel de escritórios. Você vai ver o impacto disso no preço do leite no supermercado”, afirmou Donald J. Ruthroff, um dos diretores do Dahlin Group Architecture Planning, em Pleasanton, Califórnia. 

A ideia central da novidade no código de construção civil da Califórnia, que deverá vigorar a partir de 2023, é reduzir e, por fim, eliminar dos edifícios o uso de combustíveis fósseis, como gás natural, substituindo-os por energia gerada por fontes renováveis, como painéis solares, turbinas eólicas e usinas hidrelétricas. É difícil fazer essa mudança porque milhares de residências e edifícios comerciais precisam ser modernizados. Por esse motivo, a Califórnia está começando com os prédios mais fáceis de alterar — os que ainda não foram construídos.

“A urgência em relação às mudanças climáticas aumentou”, afirmou Andrew McAllister, integrante da Comissão de Energia da Califórnia, que desenvolveu e aprovou as alterações no código de construção civil.

O presidente Joe Biden também fez do combate às mudanças climáticas uma prioridade. Seu governo afirmou este mês que os Estados Unidos precisam triplicar ou quadruplicar o ritmo anual de implantação da energia solar à rede elétrica do país para eliminar emissões na produção de eletricidade até 2035. Isso elevaria a geração de energia solar de atuais 3% da produção para 40%.

Chris Ochoa, conselheiro sênior de normas e assuntos regulatórios e legislativos da Associação da Indústria da Construção Civil da Califórnia, afirmou que as construtoras apoiam os esforços para mitigar as mudanças climáticas. Mas ele acredita que também é necessário fazer mais para reequipar os edifícios já existentes. 

Há 14 milhões de residências na Califórnia, um número esmagador em relação às 100 mil autorizações de construção que as empresas do setor protocolam anualmente para novos imóveis residenciais no Estado. “A gente tem que se concentrar é nas habitações já existentes”, afirmou. “É lá que nosso investimento renderia mais.” /TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.