Com dívida alta, JHSF reduz pista e hangares de novo aeroporto executivo

Aeroporto Catarina, localizado em São Roque (SP), é prioritário para a companhia, que redirecionou todo seu investimento de curto prazo à conclusão da obra; diante da crise, porém, empresa cortou R$ 200 milhões do orçamento da 1ª fase

Marina Gazzoni, O Estado de S.Paulo

09 de abril de 2016 | 11h31

Pressionada por seu endividamento, a administradora de projetos imobiliários JHSF direcionou todo seu fôlego de investimento para terminar as obras do aeroporto executivo Catarina, em São Roque (SP). Para poupar caixa, a empresa vai inaugurar, no segundo semestre deste ano, um aeroporto bem menor do que o inicialmente previsto. O adiamento de parte das obras da primeira fase é mais uma medida tomada para aliviar a situação financeira da companhia que, nos últimos meses, se desfez de ativos internacionais e de participações em grifes estrangeiras.

O novo aeroporto começará a operar com uma pista de 1.600 metros, 14 mil m² de pátio para aeronaves e uma área de hangares de 10 mil m². Em janeiro de 2014, quando anunciou o início das obras, a JHSF previa inaugurar o aeroporto com uma pista de 1.940 metros, 50 mil m²de hangares e 50 mil m² de pátios para aeronaves. A projeção inicial de investimento na primeira fase era de R$ 500 milhões, número que foi ajustado para R$ 300 milhões. Na fase final, o projeto do aeroporto prevê uma pista de 2.470 metros e um investimento total de cerca de R$ 1,2 bilhão.

Para dar prosseguimento às obras, a empresa afirma que assinou um contrato de financiamento de 12 anos com o BNDES, no valor de R$ 145,7 milhões. Em comunicado, a JHSF disse que “acredita em projetos de longo prazo”, mas que “em função da conjuntura econômica do País, o cronograma de entrega de fases (do aeroporto) foi alterado”.

A mudança traz reveses ao projeto, já que o tamanho da pista era um dos principais trunfos do Catarina para tirar a clientela de outros aeroportos executivos da Grande São Paulo. Com a nova extensão da pista, o projeto da JHSF perde a vantagem que tinha frente aos terminais de Sorocaba e Jundiaí – cujas pistas têm, respectivamente, 1.630 e 1.400 metros de comprimento.

De acordo com Francisco Lyra, sócio da Cfly Aviation, dona de 15% do Catarina, a pista maior é essencial para o aeroporto estar apto a receber voos internacionais, por exemplo. “Do ponto de vista de mercado, não faz sentido abrir com uma pista mais curta”, afirmou.

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'É um ajuste de ponteiro para reduzir a dívida. Todo mundo apanhou. (...) Ainda bem que paramos de incorporar na hora certa.' - Petrônio Correa Neto, acionista minoritário da JHSF
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Ele ressaltou, no entanto, que é vantajoso iniciar a operação mesmo com a pista reduzida. “O aeroporto ganha uma ‘certidão de nascimento’ e isso agiliza os processos de obtenção de diversas autorizações operacionais. Esse projeto foi pensado para um cenário de 30 anos.”

A empresa está negociando a venda ou locação de hangares, mas, até agora, não tem contratos fechados. O mercado está em um momento ruim. A crise no Brasil impacta a aviação executiva, que sente uma retração em torno de 7%, estima Lyra.

Reestruturação. A JHSF, que projetou o complexo imobiliário de luxo Cidade Jardim, em São Paulo, decidiu em 2010 deixar, aos poucos, o ramo de incorporação. O novo foco eram projetos feitos para gerar renda recorrente, como shoppings, hotéis e, por fim, um aeroporto executivo. “A decisão é correta, mas eles foram rápido demais e acabaram se endividando muito”, afirmou um analista de mercado. Antes de gerar receita, os projetos de “renda” exigem um período de pesados investimentos, que elevaram os débitos da JHSF.

A empresa também tinha planos de internacionalização e projetos em desenvolvimento nos Estados Unidos. A solução foi se desfazer de ativos para aliviar o balanço. No fim de 2015, a JHSF vendeu ativos internacionais, como o hotel Fasano Las Piedras, em Punta Del Este, e imóveis em Nova York, para o seu controlador, o empresário José Auriemo Neto. A empresa também vendeu participações que detinha nas grifes Hermès, Emilio Pucci e Jimmy Choo.

Para o empresário Petrônio Correa Neto, diretor da Centuria Investimentos, empresa que reúne os negócios da família Zogbi e é acionista minoritária da JHSF, a venda de ativos foi necessária. “É um ajuste de ponteiro para reduzir a dívida. O momento no Brasil não é bom. Todo mundo apanhou. Podia ser pior. Ainda bem que paramos de incorporar na hora certa.”

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